


Meg Cabot
Srie A Mediadora - Vol. 5
Assombrado

Nvoa.  s o que consigo ver. S nvoa, do tipo que vem da baa toda manh, passando sobre o parapeito da janela do meu quarto e se derramando no cho em gavinhas
frias e lamentosas...
Mas aqui no h janelas, nem mesmo um cho. Estou num corredor ladeado por portas. No h teto, apenas estrelas frias piscando num cu preto como nanquim. O corredor 
comprido feito de portas fechadas parece se estender para sempre em todas as direes.
E agora estou correndo. Estou disparando pelo corredor, com a nvoa parecendo se grudar nas minhas pernas, as portas fechadas de cada lado se transformando num borro. 
Eu sei que no adianta abrir qualquer uma daquelas portas. No h nada atrs delas que possa me ajudar. Eu tenho de sair desse corredor, mas no posso, porque ele 
simplesmente vai ficando cada vez mais comprido, esticando-se na escurido, ainda coberto por aquela nvoa branca e densa.
E de repente no estou sozinha na nevoa. Jesse est comigo, segurando minha mo. 
No sei se  o calor de seus dedos ou a gentileza de seu sorriso que afasta o temor, mas subitamente estou convencida de que tudo vai ficar bem.
Pelo menos at se tomar claro que Jesse no sabe o caminho melhor do que eu. E agora nem mesmo o fato de minha mo estar na dele consegue suprimir a sensao de 
pnico que borbulha por dentro de mim.
Mas espere. Algum est vindo na nossa direo, uma figura alta andando pela nvoa. Meu corao que bate freneticamente - o nico som que consigo ouvir nesse lugar 
morto, com exceo de minha respirao - reduz um pouco a velocidade. Ajuda. Ajuda por fim.
S que quando a nvoa se parte e eu reconheo o rosto da pessoa  nossa frente, meu corao comea a bater mais alto do que nunca. Porque sei que ele no vai nos 
ajudar. Sei que no vai fazer nada.
Alm de rir.
E ento estou sozinha de novo, s que desta vez o piso  minha frente sumiu. As portas desaparecem, e estou cambaleando na borda de um abismo to fundo que no consigo 
ver o cho l embaixo.
A nvoa redemoinha em volta, derramando-se no abismo e aparentemente querendo me levar junto. Estou balanando os braos para no cair, tentando freneticamente agarrar 
alguma coisa, qualquer coisa. 

S que no h o que agarrar. Um segundo depois uma mo invisvel d um nico empurro. 

E eu caio.

Captulo 1

- Bem, bem, bem - disse uma voz claramente masculina atrs de mim. - Vejam se no  Suzannah Simon.
Olha, no vou mentir para voc. Quando um cara bonito fala comigo (e pela voz do cara dava para saber que ele era um gato; a autoconfiana daquele bem, bem, bem, 
o modo acariciante com que disse meu nome) eu presto ateno. No posso evitar. Afinal de contas sou uma garota de 16 anos. Minha vida no pode girar inteiramente 
em volta da ltima estampa de miniblusa da Lilly Pulitzer's e de qualquer inovao que Bobbi Brown tenha feito no mundo do delineador labial que no sai. 
Ento vou admitir que, mesmo tendo namorado - ainda que namorado seja uma palavra meio otimista para ele - quando me virei para ver o gostoso que estava falando 
comigo, dei uma leve sacudida no cabelo. Por que no? Quero dizer, considerando todo o produto que passei nele naquela manh, em homenagem ao primeiro dia da dcima 
primeira srie (para no mencionar a nvoa marinha que costuma transformar minha cabea numa confuso encaracolada), meu penteado estava excepcionalmente bom. 
S quando tinha dado uma sacudida na velha juba castanha eu me virei e vi que o gato que tinha dito meu nome no era algum de quem eu gostasse muito. 
De fato voc pode dizer que tenho motivos para morrer de medo dele. 
Acho que ele pde ler o medo nos meus olhos - cuidadosamente maquiados naquela manh com uma combinao nova em folha de sombras chamadas Bruma Caf - porque o sorriso 
que se abriu em seu rosto bonito era ligeiramente torto num dos cantos. 
- Suze - disse ele num tom brincalho. Nem a nvoa podia embotar as luzes brilhantes em seu cabelo escuro, encaracolado e revolto. Os dentes eram de um branco ofuscante 
em contraste com o bronzeado de jogar tnis. - Aqui estou eu, nervoso porque sou novo na escola, e voc nem me diz oi! Isso  jeito de tratar um velho amigo? 
Continuei a encar-lo, perfeitamente incapaz de falar. A gente no pode falar, claro, quando est com a boca seca como... bem, como o prdio de tijolos  nossa frente.
O que ele estava fazendo aqui? O que ele estava fazendo aqui? 
O negcio  que eu no podia seguir meu primeiro impulso e sair gritando, fugindo dele. As pessoas tendem a falar quando vem garotas impecavelmente embonecadas 
como eu fugir gritando de um gato de 17 anos. Durante todo esse tempo eu tinha conseguido esconder dos colegas de turma o meu talento incomum e no iria escancar-lo 
agora, mesmo que estivesse - e acredite, eu estava - morrendo de medo. 
Mas se no podia fugir gritando, certamente podia passar rapidamente por ele sem dizer uma palavra, esperando que ele no reconhecesse o que a pressa realmente era: 
puro terror. 
No sei se o cara sentiu meu medo ou no. Mas certamente no gostou de eu bancar a indiferente para cima dele. Sua mo se estendeu quando eu tentei passar, e a prxima 
coisa que eu soube foi que seus dedos estavam enrolados no meu brao como um torno. 
Claro que eu poderia ter puxado o brao e lhe dado um soco. No era  toa que tinha sido chamada de Garota com Mais Probabilidade de Desmembrar Algum na minha velha 
escola no Brooklyn, voc sabe. 
Mas queria comear esse ano com o p direito - com Bruma Caf e minha nova cala capri Club Mnaco (com um suter cor-de-rosa que eu tinha conseguido por uma pechincha 
na ponta de estoque da Benetton em Paacific Grove) - e no com uma briga. E o que meus amigos e colegas de turma iriam pensar - e eles certamente notariam, j que 
todos estavam em volta de ns, falando um ocasional "Oi, Suze" e me elogiando pela roupa chiqurrima - se eu comeasse a dar socos no aluno novo, feito uma pirada? 
E havia o fato inevitvel de que eu estava bastante convencida de que, se desse um soco nele, ele poderia tentar me dar um soco de volta. 
De algum modo consegui achar minha voz. S esperava que ele no notasse o quanto eu estava tremendo. 
- Solta o meu brao - falei. 
- Suze. - Ele ainda estava sorrindo, mas agora parecia ter um conhecimento cheio de malcia. - Qual  o problema? Voc no parece muito feliz em me ver.
- Voc ainda no soltou meu brao - lembrei-o. Dava para sentir o gelo de seus dedos atravs da manga de seda. O cara parecia ser totalmente sangue-frio, alm de 
ter uma fora sobrenatural. 
Ele baixou a mo, dizendo: 
- Olha, desculpe, de verdade. Pelo modo como as coisas aconteceram na ltima vez em que nos encontramos. 
Na ltima vez em que nos encontramos. Instantaneamente fui transportada em pensamento para aquele corredor comprido - o que eu tinha visto freqentemente nos sonhos. 
Cheio de portas de cada lado - portas que se abriam para quem-sabe-o-qu. Era como um corredor de hotel ou de um prdio de escritrios ... s que aquele corredor 
no existia em nenhum hotel ou prdio de escritrios conhecidos dos homens. Nem mesmo existia em nossa dimenso atual. 
E Paul tinha ficado ali, sabendo que Jesse e eu no tnhamos idia de como achar a sada, e riu. S riu, como se fosse uma piada enorme o fato de que, se eu no 
voltasse logo ao meu universo, morreria, enquanto Jesse ficaria preso para sempre naquele corredor. Eu ainda podia ouvir o riso de Paul ressoando nos ouvidos. Ele 
tinha continuado gargalhando ... at o momento em que Jesse acertou o punho na sua cara. 
Eu mal podia acreditar que isso estava acontecendo. Uma perfeita manh de setembro em Carmel, Califrnia - o que significava, claro, uma densa camada de nvoa pairando 
sobre tudo, mas que logo se desvaneceria para revelar um cu azul sem nuvens e um sol dourado - e eu estava ali parada na passagem coberta entre os prdios da Academia 
da Misso Junipero Serra, cara a cara com a pessoa que vinha assombrando meus pesadelos havia semanas. 
S que no era um pesadelo. Eu estava acordada. Sabia que estava acordada, porque nunca sonharia com meus amigos Cee Cee e Adam passando enquanto eu confrontava 
aquele monstro do meu passado, e dizendo "Oi, Suze", como se fosse... bem, como se fosse simplesmente o primeiro dia de volta  escola depois das frias de vero.
- Quer dizer, a parte em que voc tentou me matar?? - grasnei quando Cee Cee e Adam estavam fora do alcance da audio. Dessa vez soube que Paul ouvira minha voz 
tremer. Soube porque ele pareceu perturbado - ainda que talvez fosse por causa da acusao. De qualquer modo ele levantou a mo grande e bronzeada e passou pelos 
cabelos encaracolados. 
- Eu nunca tentei matar voc, Suze - disse ele, parecendo meio magoado. 
Ri. No pude evitar. Meu corao estava na garganta, mas eu ri mesmo assim. 
- Ah. Certo. 
- Verdade, Suze. No foi isso. Eu s ... Eu s no sou muito bom perdedor. 
Encarei-o. No importando o que dissesse, ele tinha tentado me matar. Mas pior, tinha se esforado ao mximo para eliminar Jesse, de um modo completamente desleal. 
E agora estava tentando dizer que era apenas falta de esportividade? 
- No entendo - falei, balanando a cabea. - O que voc perdeu? Voc no perdeu nada. 
- No, Suze? - Seu olhar se cravou no meu. Eu tinha ouvido aquela voz repetidamente nos sonhos, rindo de mim enquanto eu lutava para achar a sada de um corredor 
escuro e cheio de nvoa, em cujas extremidades havia um precipcio caindo num vcuo negro feito de nada absoluto, sobre o qual, logo antes de acordar, eu cambaleava 
perigosamente. Era uma voz cheia de significado oculto... 
S que eu no tinha idia de qual seria esse significado, ou do que ele estava dando a entender. S sabia que o cara me aterrorizava. 
- Suze - disse ele com um sorriso. Sorrindo (e provavelmente zombando tambm) ele parecia um modelo para cuecas Calvin Klein. E no era s o rosto. Afinal de contas 
eu o tinha visto com calo de banho. 
- Olha, no fique assim - disse ele. -  um novo ano escolar. No podemos comear de novo? 
- No. - Eu fiquei feliz por minha voz no tremer desta vez. - No podemos. Na verdade, voc...  melhor voc ficar longe de mim. 
Ele pareceu achar isso tremendamente divertido.
- Ou ento o que? - perguntou, com outro daqueles sorrisos que revelavam todos os dentes brancos e regulares. Um sorriso de poltico, pensei. 
- Ou ento voc vai se arrepender. - a tremor tinha voltado  minha voz. 
- Ah - disse ele, com os olhos escuros se arregalando de terror fingido. - Voc vai botar seu namorado atrs de mim? 
Esta no era uma coisa com a qual eu brincaria, se fosse ele. Jesse poderia mat-lo - e provavelmente mataria, se descobrisse que o cara tinha voltado. S que eu 
no era exatamente namorada de Jesse, por isso no era realmente o servio dele me proteger de psicopatas como aquele que estava na minha frente. 
Pela minha expresso ele deve ter deduzido que nem tudo ia as mil maravilhas na Suze-e-Jesselndia, porque riu e disse: 
- Ento  assim. Bem, eu nunca achei de verdade que Jesse fosse o seu tipo, sabe? Voc precisa de algum um pouquinho menos...
Ele no teve chance de terminar a frase, porque naquele momento Cee Cee, que estivera seguindo Adam na direo do armrio dele - mesmo ns tendo jurado uma  outra 
na noite anterior, pelo telefone, que no iramos comear o ano andando atrs dos garotos - voltou para perto ns, com o olhar fixo no sujeito parado to perto de 
mim. 
- Suze - disse ela educadamente. Diferentemente de mim, Cee Cee tinha passado o vero trabalhando no setor sem fins lucrativos, por isso no tinha um monte de dinheiro 
para torrar em guarda-roupa e maquiagem de volta  escola. No que Cee Cee fosse gastar seu dinheiro numa coisa to frvola como maquiagem. O que era timo, j que, 
sendo albina, ela precisava encomendar toda a maquiagem, no poderia simplesmente ir at o balco da M.A.C. e torrar a grana como todo mundo. 
- Quem  o seu amigo? - perguntou ela. 
Eu no ficaria ali parada fazendo apresentaes. Na verdade, estava pensando seriamente em ir para a administrao e perguntar o que eles estavam pensando, ao admitir 
um cara assim no que eu j havia considerado uma escola passvel.
Mas ele estendeu uma daquelas mos frias e fortes para Cee Cee e disse com aquele riso que eu j havia considerado franco e agora me enregelava at os ossos. 
- Oi, eu sou Paul. Paul Slater. Prazer em conhec-la. Paul Slater. No era realmente o tipo de nome capaz de provocar terror no corao de uma garota, hein? Quero 
dizer, parecia bastante incuo. Oi, eu sou Paul. Paul Slater. No havia nada naquela declarao que pudesse ter alertado Cee Cee para a verdade: Paul Slater era 
doentio, manipulador, e tinha uma pedra de gelo no lugar do corao. 
No, Cee Cee no fazia a mnima. Porque eu no tinha contado, claro. No tinha contado a ningum. 
Idiota. 
Se Cee Cee achou os dedos de Paul um pouquinho frios para seu gosto, no deu a entender. 
- Cee Cee Webb - disse ela, enquanto apertava a mo dele com o seu jeito tipicamente profissional. - Voc deve ser novo aqui, porque nunca o vi antes. 
Paul piscou, chamando ateno para os clios, que eram realmente compridos para um cara. Quase pareciam pesados nas plpebras, como se fossem difceis de levantar. 
Meu meio-irmo Jake tem clios mais ou menos parecidos, s que nele isso faz parecer que est com sono. Em Paul tinha mais um efeito do tipo gostoso astro de rock. 
Olhei preocupada para Cee Cee. Ela era uma das pessoas mais sensatas que eu j havia conhecido, mas ser que alguma de ns realmente  imune ao tipo gostoso astro 
de rock? 
-  o meu primeiro dia - disse Paul com outro riso daqueles. - Sorte minha, j conheo a Srta. Simon aqui. 
- Que fortuito! - disse Cee Cee (que como editora do jornal da escola gostava de palavras difceis) com as sobrancelhas branco-louras ligeiramente levantadas. - 
Voc era da escola antiga da Suze? 
- No - falei depressa. - No. Olha,  melhor a gente ir para a sala, se no acaba arranjando encrenca... 
Mas Paul no estava preocupado com a hiptese de arranjar encrenca. Provavelmente porque estava acostumado com isso.
- Suze e eu tivemos um caso no vero passado - informou ele a Cee Cee, cujos olhos prpura se arregalaram por trs dos culos diante dessa informao. 
- Um caso? 
- No houve caso nenhum - garanti s pressas. - Acredite. Caso nenhum. 
Os olhos de Cee Cee ficaram ainda mais arregalados. 
Estava claro que no acreditava. Bom, por que acreditaria? Eu era sua melhor amiga, verdade. Mas ser que eu j tinha sido completamente honesta com ela? No. E 
ela claramente sabia. 
- Ah, ento vocs terminaram? - perguntou objetivamente. 
- No, ns no terminamos - disse Paul, com outro daqueles sorrisos cheios de segredos, de quem sabe das coisas. 
Porque ns nunca estivemos juntos, eu quis gritar. Voc acha que eu sairia com ele? Ele no  o que voc acha, Cee Cee. Ele parece humano, mas por baixo dessa fachada 
de garanho ele  um... um... 
Bem, eu no sabia o que Paul era exatamente. 
Mas o que isso me tornava? Paul e eu tnhamos muito mais em comum do que eu me sentia confortvel em admitir, at para mim mesma. 
Ainda que eu tivesse tido coragem para dizer alguma coisa desse tipo na frente dele, no tive chance, porque de repente soou uma voz seria: 
- Srta. Simon! Srta. Webb! As madames no tem uma aula? 
A irm Ernestine - que trs meses de ausncia da minha vida no haviam deixado menos intimidante, com seu peito enorme e o crucifixo ainda maior adornando-o - partiu 
para cima de ns, com as amplas mangas pretas de seu hbito adejando como asas. 
- Vo andando - falou para ns, balanando as mos na direo dos armrios montados nas paredes de adobe ao longo do ptio lindamente cuidado da misso. - Vocs 
vo se atrasar para a primeira aula. 
Fomos... mas infelizmente Paul veio logo atrs. 
- Suze e eu nos conhecemos h muito tempo - estava dizendo ele a Cee Cee, enquanto seguamos pelo corredor coberto at meu armrio. - Ns nos conhecemos no Pebble 
Beach Hotel and Golf Resort.
Eu s pude olh-lo, enquanto girava a combinao do cofre. No podia acreditar que isso estivesse acontecendo. No podia mesmo. O que Paul estava fazendo aqui? O 
que Paul estava fazendo se matriculando na minha escola, transformando meu mundo - do qual eu tinha pensado que o havia afastado para sempre - num pesadelo da vida 
real? 
No queria saber. Quaisquer que fossem seus motivos para voltar, eu no queria saber. S queria me afastar dele, ir para a aula, para qualquer lugar, qualquer um... 
... desde que longe dele. 
- Bem - falei, fechando com fora a porta do armrio. 
Mal sabia o que estava fazendo. Tinha enfiado a mo dentro e apanhado as cegas os primeiros livros em que meus dedos tocaram. - Tenho de ir. 
Ele olhou os livros nos meus braos, os que eu estava segurando quase como um escudo, como se fossem me proteger do que quer que fosse (e tive certeza de que havia 
alguma coisa) que ele guardava para mim. Para ns. 
- Voc no vai achar a - disse Paul com um movimento cifrado de cabea para os livros nos meus braos. 
Eu no sabia do que ele estava falando. No queria saber. 
S sabia que queria sair dali, e depressa. Cee Cee continuou ao meu lado, olhando perplexa do meu rosto para o de Paul. A qualquer segundo, eu sabia, ela comearia 
a fazer perguntas, perguntas as quais eu no ousava responder... porque ela no acreditaria, mesmo que eu tentasse. 
Mesmo assim, mesmo no querendo, ouvi-me perguntando, como se as palavras fossem arrancadas involuntariamente dos lbios: 
- No vou achar o que aqui? 
- As respostas que voc est procurando. - A expresso nos olhos azuis de Paul era intensa. - O motivo pelo qual voc, logo voc, foi escolhida. E o que, exatamente, 
voc . 
Dessa vez eu no tinha de perguntar o que ele queria dizer. Sabia. Sabia como se ele tivesse dito as palavras em voz alta. Paul estava falando do dom que ns dois 
compartilhvamos, do qual ele parecia ter um controle to melhor do que eu - e do qual parecia ter um conhecimento to superior.
Enquanto Cee Cee ficava ali parada, olhando ns dois como se estivssemos conversando numa lngua estranha, Paul continuou com sua fala macia: 
- Quando estiver pronta para ouvir a verdade sobre o que voc , vai saber onde me encontrar. Porque eu vou estar aqui mesmo. 
E ento ele se afastou, aparentemente no percebendo todos os olhares femininos que atraia de minhas colegas, enquanto se movia com uma graa de pantera pela passagem 
coberta. 
Com os olhos violeta ainda arregalados por trs dos culos, Cee Cee me espiou, interrogativamente. 
- O que esse cara estava falando? E quem, afinal de contas,  Jesse?

Captulo 2

Eu no podia contar, claro. No podia contar a ningum sobre Jesse, porque, francamente, quem acreditaria? Eu s conhecia uma pessoa - uma pessoa viva, pelo menos
- que sabia toda a verdade sobre gente como Paul e eu, e isso somente porque ele era como ns. Sentado diante de sua escrivaninha de mogno pouco mais tarde, no 
consegui evitar um gemido.
- Como isso pode ter acontecido? - perguntei. 
O padre Dominic, diretor da Academia da Misso Junipero Serra, estava sentado atrs de sua mesa gigantesca, parecendo paciente. Era uma expresso que caia bem no 
bom padre que, segundo os boatos, ficava mais bonito a cada ano. Com quase 65, era um Adonis de cabelos brancos e culos. 
E tambm estava muito pesaroso. 
- Suzannah, sinto muito. Eu estive to preocupado com os preparativos para o novo ano escolar, para no mencionar a festa do padre Serra no prximo fim de semana, 
que no olhei as listas de matrcula. - Ele balanou a cabea branca com cabelos bem cortados. - Sinto muito, muito mesmo. 
Fiz uma careta. Ele sentia muito. Ele sentia muito? E eu? 
No era ele que tinha de estar nas mesmas salas que Paul Slater. Duas salas, na verdade: a de reunies e a de histria americana. Durante duas horas inteiras por 
dia eu teria de ficar ali sentada e olhar o cara que tinha tentado acabar com meu namorado e me deixar morta. E eu nem estava contando a chegada de manha e o almoo. 
Era outra hora, sem dvida! 
- Apesar de no saber honestamente o que poderia ter feito para impedir que ele fosse matriculado - disse o padre Dom, folheando a ficha de Paul. - As notas, as 
avaliaes dos professores... tudo  exemplar. Lamento dizer que, no papel, Paul Slater  um estudante muito melhor do que voc quando se matriculou nesta escola.
- No se pode dizer nada sobre a moral de uma pessoa a partir de um punhado de provas de escola. - Eu me sentia meio defensiva com esse assunto, j que minhas notas 
eram suficientemente medocres para eu ser recusada pela Academia da Misso h oito meses, quando minha me anunciou que iramos nos mudar para a Califrnia de modo 
que ela pudesse se casar com Andy Ackerman, o homem de seus sonhos, agora meu padrasto. 
- No - disse o padre Dominic, tirando os culos com um gesto cansado e limpando-os na batina preta e comprida. Notei sombras roxas sob seus olhos. - No, no se 
pode - concordou ele com um suspiro profundo, recolocando a armao de metal sobre o nariz perfeitamente aquilino. - Suzannah, voc tem realmente certeza de que 
os motivos desse rapaz so to pouco nobres? Talvez Paul esteja procurando orientao.  possvel que, com a influncia correta, ele possa ver os erros que tem cometido... 
- , padre Dom - falei com sarcasmo. - E talvez este ano eu seja eleita Rainha do Baile. 
O padre Dominic no pareceu aprovar. Diferentemente de mim, o padre Dominic sempre tendia a pensar o melhor sobre as pessoas, pelo menos at o comportamento delas 
provar que sua suposio sobre sua bondade inerente estivesse errada. Era de imaginar que, no caso de Paul Slater, ele j tivesse visto o bastante para formar uma 
base slida de julgamento sobre o cara, mas aparentemente no. 
- Vou presumir, at termos visto algo que prove o contrrio - disse o padre D. - que Paul esteja aqui na Academia da Misso porque quer aprender. No somente o currculo 
normal da dcima-primeira srie, Suzannah, mas tambm o que voc eu temos a lhe ensinar. Vamos esperar que Paul esteja arrependido dos atos do passado e realmente 
deseje se emendar. Creio que Paul est aqui para um recomeo, como voc no ano passado, se  que se recorda. E  nosso dever, como seres humanos caridosos, ajud-lo 
a fazer isso. At que sejamos convencidos do contrrio, devemos dar ao Paul o benefcio da dvida.
Achei aquilo o pior plano que j tinha escutado na vida. 
Mas a verdade  que no tinha qualquer prova de que Paul estava ali para causar problema. Pelo menos ainda no. 
- Bom - disse o padre D., fechando a pasta de Paul e se recostando na cadeira. - Eu no vejo voc h algumas semanas. Como vai, Suzannah? E como vai o Jesse? 
Senti o rosto esquentar. As coisas estavam feias, quando a simples meno ao nome de Jesse podia me deixar ruborizada, mas era assim que a coisa estava. 
- Hmm - falei, esperando que o padre D. no notasse minhas bochechas em chamas. - Bem. 
- timo - disse o padre Dom, empurrando os culos para cima no nariz e olhando para sua estante, distraidamente. - H um livro que ele disse que queria pegar emprestado... 
Ah, sim, aqui est. - O padre Dom ps nos meus braos um gigantesco livro encadernado em couro (que devia pesar pelo menos uns cinco quilos). - Teoria crtica desde 
Plato - disse com um sorriso. - Jesse deve gostar disso. 
Eu no duvidava. Jesse gostava de alguns dos livros mais chatos que a humanidade conhecia. Talvez fosse por isso que no estava reagindo a mim. Quero dizer, no 
do modo como eu queria. Porque eu no era suficientemente chata. 
- Muito bem - disse o padre D. distraidamente. Dava para ver que ele estava com muita coisa na cabea. As visitas do arcebispo sempre o deixavam nervoso, e essa, 
para a festa do padre Serra (que varias organizaes vinham tentando sem sucesso tornar um santo) seria um p no saco particularmente grande, pelo que eu podia ver. 
- S vamos ficar de olho no nosso jovem amigo, o Sr. Slater - continuou o padre Dom - e ver como as coisas andam. Pode ser que ele se acomode, Suzannah, num ambiente 
estruturado como o que oferecemos aqui na academia. 
Funguei. No pude evitar. O padre D. realmente no tinha idia do que estava enfrentando. 
- E se isso no acontecer? - perguntei. 
- Bem, vamos atravessar essa ponte quando, e se, necessrio. Agora v. Voc no quer desperdiar toda a sua hora de almoo aqui comigo.
Relutante, deixei a sala do diretor, levando o velho tomo cheio de poeira que ele tinha me dado. A nvoa da manh tinha se dispersado, como sempre acontecia por 
volta das onze horas, e agora o cu era de um azul brilhante. No ptio, beija-flores trabalhavam nos hibiscos. A fonte, rodeada por meia dzia de turistas de bermuda 
(a misso, alm de uma escola, tambm era um marco histrico e possua uma baslica e at mesmo uma loja de presentes que figuravam como pontos importantes em qualquer 
programao de nibus de turismo) borbulhava ruidosamente. As copas das palmeiras, de um verde profundo, oscilavam preguiosas no alto, a brisa suave do mar. Era 
outro dia estupendo em Carmel. 
Ento por que eu me sentia to pssima? 
Tentei dizer a mim mesma que estava reagindo com exagero. Que o padre Dom estava certo - ns no sabamos quais eram os motivos de Paul para vir a Carmel. Talvez 
ele realmente tivesse virado uma nova pagina. 
Ento por que eu no conseguia tirar da cabea aquela imagem - a imagem dos meus pesadelos? O corredor comprido e escuro e eu correndo por ele, procurando desesperadamente 
uma sada, achando apenas nvoa. Era um sonho que eu tinha uma vez em cada noite, e do qual nunca deixava de acordar suando. 
Sinceramente, no sei o que era mais apavorante: o pesadelo ou o que estava acontecendo agora, acordada. O que Paul estava fazendo aqui? Ainda mais perturbador: 
como  que Paul parecia saber tanto sobre o talento que nos dois compartilhvamos? No existe nenhuma publicao especializada. No existem conferncias e seminrios. 
Quando voc pe a palavra mediador em qualquer mecanismo de busca na Internet, s recebe coisas sobre advogados e conselheiros de famlia. Hoje em dia eu continuo 
praticamente to sem pistas como quando era pequena e s sabia que era... bem, diferente das outras crianas da vizinhana. 
Mas Paul... Paul parecia achar que tinha algum tipo de resposta.
Entretanto, o que ele poderia fazer a respeito? Nem mesmo o padre Dominic afirmava saber exatamente o que os mediadores - por falta de uma palavra melhor - eram, 
de onde tnhamos vindo e exatamente qual era a extenso de nossos talentos... e ele era mais velho do que ns dois juntos! Claro, ns podemos ver e falar com os 
mortos - e ate beij-los e dar socos neles. Ou melhor, com o esprito daqueles que morreram deixando coisas inacabadas, algo que descobri aos seis anos, quando meu 
pai, que faleceu de um sbito ataque cardaco, voltou para um pequeno papo ps-enterro. 
Mas era isso? Quer dizer, era s disso que os mediadores eram capazes? Segundo Paul, no. 
Apesar das garantias do padre Dominic, de que Paul provavelmente tinha boa inteno, eu no podia ter tanta certeza. Pessoas como Paul no agiam sem bons motivos. 
Ento o que ele estava fazendo em Carmel? Poderia ser apenas que, agora que descobrira o padre Dom e eu, desejasse um relacionamento por alguma vontade de estar 
com gente do mesmo tipo? 
Era possvel. Claro,  igualmente possvel que Jesse realmente me ame e que s esteja fingindo que no, j que um relacionamento romntico entre ns dois realmente 
no poderia ser um negcio muito certo... 
. E talvez eu seja indicada para Rainha do Baile, como venho desejando... 
Ainda estava tentando no pensar nisso durante o almoo - no negcio do Paul, nem no negcio de Rainha do Baile - quando, espremida num banco do lado de fora entre 
Adam e Cee Cee, eu puxei a argola de uma lata de refrigerante diet e quase engasguei com o primeiro gole depois de Cee Cee falar: 
- E a, desembucha. Quem  esse tal de Jesse? Dessa vez, por favor, responda. 
Foi refrigerante para tudo que  canto, principalmente pelo meu nariz. Parte caiu no meu suter Benetton. 
Cee Cee no foi nem um pouco solidria. 
-  diet - disse ela. - No vai manchar. Ento, por que a gente no conheceu o cara?
-  - disse Adam, superando a diverso inicial por ver refrigerante saindo por minhas narinas. -E como  que esse tal de Paul conhece o cara e a gente no? 
Enxugando-me com um guardanapo, olhei na direo de Paul. Ele estava sentado num banco no muito longe, rodeado por Kelly Prescott e outras pessoas populares de 
nossa turma, todos gargalhando de alguma histria que ele tinha acabado de contar. 
- Jesse  s um carinha - falei, porque tive a sensao de que no conseguiria me livrar das perguntas. No desta vez. 
- S um carinha - repetiu Cee Cee. - S um carinha que aparentemente voc est namorando, segundo esse tal de Paul. 
- Bem - falei, desconfortvel. - , acho que estou. Mais ou menos. Quero dizer...  complicado. 
Complicado? Meu relacionamento com Jesse fazia a Teoria crtica desde Plato parecer um cozinho travesso. 
- Ento - disse Cee Cee, cruzando as pernas e mordiscando contente umas cenourinhas de um saco em seu colo. - Conte. Onde vocs se conheceram? 
Eu no podia acreditar que estava ali sentada, falando de Jesse com meus amigos. Meus amigos, que eu tanto havia me esforado para manter no escuro com relao a 
ele. 
- Ele... ... ele mora no meu bairro - falei. No havia sentido em contar a verdade absoluta. 
- Ele estuda na RLS? - quis saber Adam, referindo-se a escola Robert Louis Stevenson e passando a mo por cima de mim para pegar uma cenourinha de Cee Cee. 
- Hmm... No exatamente. 
- No diga que ele estuda na Carmel. - as olhos de Cee Cee ficaram arregalados. 
- Ele no est mais na escola - falei, j que eu sabia que, dada  natureza de Cee Cee, ela nunca descansaria enquanto no soubesse tudo. - Ele... ... j se formou. 
- Uau! - disse Cee Cee. - Um homem mais velho. Bem, no  de espantar que voc esteja mantendo em segredo. Ento ele faz o que? Faculdade? 
- Na verdade, no. Ele ... ... est dando um tempo. Meio que para... se encontrar.
- Hmpf. - Adam se recostou no banco e fechou os olhos, deixando o sol forte do meio-dia acariciar seu rosto. - Um preguioso. Voc poderia conseguir coisa melhor,
Suze. Voc precisa e de um cara com uma tica profissional boa e slida. Um cara como... Ei, eu sei: eu!
Cee Cee, que estava de olho em Adam desde que eu conhecia os dois, o ignorou.
- H quanto tempo vocs esto namorando? - perguntou. 
- No sei. - Agora eu estava me sentindo pssima. - Tudo  meio novo. Quero dizer, eu o conheo h um tempo, mas o negcio do namoro...  novo. E no  realmente... 
Bem, eu no gosto de falar disso. 
- De que? - Uma sombra pairou sobre nosso banco. 
Franzindo a vista, levantei os olhos e vi David, meu meio-irmo, ali parado, com o cabelo ruivo brilhando como um halo ao sol quente. 
- Nada - falei depressa. 
Dentre todo mundo na minha famlia - e sim, eu pensava nos Ackerman, meu padrasto e os filhos dele, como parte de minha famlia, a pequena famlia que antigamente 
era formada apenas por mim e mame, depois da morte de meu pai - David, de 13 anos, era o mais prximo de saber a verdade a meu respeito. Isto , que eu no era 
apenas a adolescente meio descontente que fingia ser. 
E mais, David sabia sobre Jesse. Sabia, e no entanto no sabia. Porque ainda que ele, como todo mundo em casa, tivesse notado minhas sbitas mudanas de humor e 
a ausncia misteriosa da sala ntima da famlia todas as noites, nem podia imaginar o que havia por trs de tudo. 
Agora estava na frente do nosso banco (o que era bastante ousado, j que os caras do segundo grau no tendiam a aceitar tranqilamente que gente da oitava srie 
como David viesse ao que eles consideravam o seu lado do ptio) tentando parecer que aquele era o seu lugar, o que, considerando seu corpo de cinqenta quilos, o 
aparelho nos dentes e as orelhas de abano, no poderia estar mais longe da verdade.
- Voc viu isso? - perguntou ele, enfiando um pedao de papel debaixo do meu nariz. 
Peguei o papel. Por acaso era um folheto anunciando uma festa na piscina da Pine Crest Road, 99, na prxima noite de sexta-feira. Os convidados deveriam levar roupa 
de banho, se quisessem ter um pouco de diverso "quente e borbulhante". Ou se optassem por no levar roupa de banho, tudo bem, particularmente se fossem do sexo 
feminino. 
Havia no folheto um desenho grosseiro de uma garota bbada e com peitos grandes, tomando cerveja em lata. 
- No, voc no pode ir - falei, devolvendo o folheto a David, com uma fungada. - Voc  muito novo. E algum deveria mostrar isso ao orientador da sua turma. O 
pessoal da oitava srie no deveria fazer festas assim. 
Cee Cee, que tinha apanhado o folheto com David, falou: 
- Ei, Suze. 
- Srio - continuei. - E estou surpresa com voc, David. Achei que era mais esperto. Nada de bom acontece nessas festas. Claro, algumas pessoas se divertem. Mas 
aposto dez contra um que algum vai levar socos na barriga ou bater a cabea em alguma coisa.  sempre divertido at algum se machucar. 
- Suze. - Cee Cee passou o folheto na frente da minha cara, a centmetros do meu nariz. - Pine Crest Road, 99.  a sua casa, no ? 
Arranquei o folheto da mo dela, boquiaberta. 
- David! Em que voc estava pensando? 
- No fui eu - exclamou David, com a voz esganiada subindo mais duas ou trs oitavas. - Me mostraram na aula de estudos sociais. Brad estava distribuindo. Uns caras 
da stima srie pegaram, at... 
Virei os olhos na direo de meu meio-irmo Brad. Ele estava encostado no mastro de basquete, tentando parecer maneiro, o que era bem difcil para um cara cujo crtex 
cerebral era coberto, pelo que eu sabia, por WD-40. 
- Com licena - falei me levantando. - Tenho de ir cometer um assassinato. - Ento fui at a quadra de basquete, com o folheto laranja na mo. 
Brad me viu chegando. Notei o ar de puro pnico que passou por suas feies quando seu olhar pousou no que havia na minha mo.
Ele se empertigou e tentou correr, mas eu fui mais rpida. Acuei-o perto do bebedouro e levantei o folheto para que ele visse. 
- Voc realmente acha - perguntei casualmente _ que mame e papai vo deixar voc fazer essa... essa... essa sei l o qu? 
O pnico no rosto de Brad tinha se transformado em desafio. Ele esticou o queixo e falou: 
- Bem, ... o que eles no souberem no vai causar mal. 
- Brad. - Algumas vezes eu sentia pena dele. Sentia mesmo. O cara era um otrio completo. - Voc no acha que eles vo notar quando olharem pela janela do quarto 
e virem um punhado de garotas nuas na piscina nova? 
- No. Porque eles no vo estar em casa na sexta  noite. Papai tem aquela palestra em So Francisco e sua me vai com ele, lembra? 
No, eu no lembrava. De fato eu me perguntei se ao menos tinham me dito. Ultimamente eu vinha passando muito tempo no quarto, verdade, mas tanto a ponto de no 
saber de uma coisa importante como meus pais estarem fora durante uma noite inteira? Achava que no... 
- E  melhor voc no contar - disse Brad com um veneno inesperado. - Ou vai se arrepender. 
Olhei-o como se ele fosse pirado. 
- Eu vou me arrepender? - falei rindo. - Hmm, desculpe, Brad, mas se seu pai descobrir sobre essa festa que voc esta planejando, voc  que vai ficar de castigo 
pelo resto da vida, no eu. 
- De jeito nenhum - disse Brad. O olhar de desafio tinha sido substitudo por outro ainda menos atraente, quase de corrupo. - Porque se voc ao menos pensar em 
dizer alguma coisa, eu conto sobre o cara que voc deixa entrar no seu quarto toda noite.

Captulo 3

Deteno.
 o que voc pega na Academia da Misso Junipero Serra quando banca a otria e d um soco no seu meio-irmo no ptio e par acaso um professor v.
- No entendo o que deu em voc, Suze - disse a Sra. Elkins, que, alm de dar aula de biologia para a nona e a dcima sries, tambm era encarregada de ficar depois 
da aula com os delinqentes juvenis como eu. - E logo no primeiro dia de aula.  assim que voc quer comear o novo ano? 
Mas a Sra. Elkins no entendia. E eu no podia exatamente lhe contar. Quero dizer, como ia contar que de repente tudo tinha ficado demais? Que a descoberta de que 
meu meio-irmo sabia de uma coisa que eu tinha lutado para esconder do resto da famlia durante meses (alm de descobrir que um monstro dos meus sonhos estava atualmente 
percorrendo os corredores da minha escola disfarado de gato elegante) tinha feito com que eu me derretesse como um batom Maybelline deixado ao sol? 
No podia contar. Apenas recebi o castigo em silncio, olhando os minutos do relgio se arrastarem lentamente. Nem eu nem os outros prisioneiros seriamos libertados 
antes das quatro horas. 
- Espero que voc tenha aprendido uma lio, Suze. - disse a Sra. Elkins quando essa hora finalmente chegou. - Voc no est sendo um bom exemplo para as crianas 
menores, est, brigando na escola desse jeito? 
Eu? Eu no estava sendo um bom exemplo? E Brad? Era Brad que estava planejando ter sua Oktoberfest pessoal na nossa sala. E no entanto Brad me tinha na palma da 
mo. E sabia disso. 
-  - tinha dito ele na hora do almoo, quando fiquei ali parada olhando-o numa perplexidade absoluta, incapaz de acreditar no que ouvi. - Voc se acha to esperta, 
no , deixando o cara entrar no seu quarto toda noite, no ? E como  que ele entra? Por aquela sua janela em cima do telhado da varanda? Bem, acho que o segredinho 
acabou, no ? Ento fique quieta com relao a minha festa, e eu fico quieto sobre esse tal de Jesse.
Fiquei to pasma com a notcia de que Brad podia ouvir - de que tinha ouvido - Jesse, que durante vrios minutos no pude formular uma frase coerente, tempo em que 
Brad trocou cumprimentos com vrios membros de seu grupo que vieram dar um tapa na sua mo e dizer coisas como: "Cara! Festa na piscina. Eu j estou l!" 
Finalmente consegui destravar o maxilar e perguntei: 
- Ah, ? Bom, e o Jake? Quero dizer, Jake no vai deixar voc ficar com um punhado de seus amigos para farrear. 
Brad s me olhou como se eu fosse doida. 
- Est brincando? Quem voc acha que vai dar a cerveja? Jake vai roubar um barril onde ele trabalha. 
Estreitei os olhos para ele. 
- Jake? Jake vai pegar cerveja para voc? De jeito nenhum. Ele nunca... - Ento a compreenso baixou. - Quanto voc vai pagar a ele?
- Cem pratas. Exatamente metade do que falta para aquele Camaro que ele est querendo. 
Havia pouca coisa que Jake no faria para pr as mos num Camaro que fosse seu, eu tinha plena conscincia disso. 
Sem sada, encarei-o mais um pouco. 
- E David? - perguntei finalmente. - David vai contar. 
- No vai - disse Brad cheio de confiana. - Porque se contar eu chuto a bunda magra dele daqui at o Alasca. E  melhor voc no tentar defend-lo, seno sua me 
vai ganhar uma bela fatia de torta de Jesse. 
Foi ento que eu o acertei. No pude evitar. Foi como se meu punho tivesse mente prpria. Num minuto estava do meu lado, no outro afundando na barriga de Brad. 
A luta acabou num segundo. Meio segundo. O Sr. Gillarte, o novo treinador de atletismo, nos separou antes que Brad tivesse chance de me dar um soco tambm. 
- Para longe - ordenou ele me empurrando, enquanto se curvava para cuidar de Brad que ofegava freneticamente. 
Ento eu sai dali. Direto para o padre D., que estava parado no ptio, supervisionando a colocao dos fios de luzinhas em volta do tronco de uma palmeira.
- O que eu posso lhe dizer, Suzannah? - disse ele, parecendo exasperado quando terminei de explicar a situao. - Algumas pessoas so mais perceptivas do que outras. 
- Ta, mas o Brad? - Eu tinha de manter a voz baixa porque havia alguns jardineiros por perto, todos ajudando a montar os enfeites da festa do padre Serra que ia 
acontecer no sbado, o dia seguinte  bacanal na piscina do Brad. 
- Bem, Suzannah. Voc no poderia esperar que Brad guardasse segredo para sempre. Sua famlia acabaria descobrindo. 
Talvez. O que eu no podia avaliar era como Brad, logo ele, sabia sobre Jesse quando alguns dos membros mais inteligentes de minha famlia - como Andy, por exemplo, 
ou mame - no faziam a mnima idia. 
Por outro lado, Max, o cachorro da famlia, sempre soube do Jesse - nem chegava perto do meu quarto por causa dele. E num nvel intelectual, Brad e Max tinham muito 
em comum... ainda que Max fosse um pouquinho mais inteligente, claro.
- Espero sinceramente - disse a Sra. Elkins, quando finalmente soltou a mim e meus colegas prisioneiros - no ver voc aqui de novo este ano, Suze. 
- Eu tambm, Sra. E. - respondi, pegando minhas coisas. 
Depois dei no p. 
L fora era uma tarde clara e quente de setembro no norte da Califrnia, o que significava que o sol era ofuscante, o cu to azul que doa, e  distncia dava para 
ver a espuma branca do Pacfico se enrolando na praia de Carmel. Eu tinha perdido todas as caronas possveis para casa (Adam, que ainda era ansioso para levar todo 
mundo a qualquer lugar com seu fusca verde esportivo, e, claro, Brad, que tinha herdado o Land Rover de Jake, que agora tinha um veIho Honda Civic, mas s at obter 
o carro de seus sonhos) e eram mais de trs quilmetros de caminhada at a Pine Crest Road, 99. Quase tudo morro acima. 
Eu tinha chegado ao porto da escola quando meu cavaleiro de armadura brilhante apareceu. Pelo menos foi o que imaginei que ele se achava. Mas no estava num palafrm 
branco.
Dirigia um conversvel BMW prateado, com a capota convenientemente baixada. Era o que parecia. - Entre - disse ele, enquanto eu estava parada na frente da misso, 
esperando o sinal de trnsito rnudar para atravessar a estrada. - Entre. Eu Ihe dou uma carona. 
- No, obrigada - falei tranqilamente. - Prefiro andar. 
- Suze. - Paul parecia entediado. - Entre no carro. 
No. - Veja bem, eu tinha aprendido minha lio, pelo menos no quesito "entrar em carros de caras que tinham tentado me matar". E isso no iria acontecer de novo. 
Especialmente com Paul, que no somente havia tentado me matar uma vez, mas que tinha me apavorado tanto ao fazer isso que eu revivia continuamente o incidente nos 
sonhos. - Eu j disse. Vou andar. 
Paul balanou a cabea, rindo consigo mesmo. - Realmente voc  uma figura - disse ele. 
- Obrigada. - o sinal mudou, e eu comecei a atravessar o cruzamento. Eu conhecia bem o lugar. No precisava de ajuda. 
Mas foi exatamente o que obtive. Paul dirigiu o carro ao meu lado, na alucinante velocidade de trs quilmetros por hora. 
- Voc vai me acompanhar at em casa? - perguntei enquanto comevamos a subir a ladeira que dava nome as Colinas de Carmel. Era uma coisa boa o fato de essa rua 
em particular no ter trfego pesado s quatro da tarde, caso contrrio Paul poderia simplesmente ter enlouquecido alguns dos meus vizinhos, engarrafando o nico 
caminho para a civilizao, dirigindo daquela maneira. 
- Vou. Isto , a no ser que voc pare de bancar a teimosa e entre no carro. 
- No, obrigada - falei de novo. 
Continuei andando. Fazia calor. Eu estava comeando a me sentir meio mida com o suter. Mas de jeito nenhum ia entrar no carro daquele cara. Fui andando pela calada, 
com cuidado para evitar qualquer planta que se parecesse com meu inimigo mais mortal (pelo menos antes de Paul ter aparecido), o sumagre-venenoso, e xinguei em silncio 
a Teoria crtica desde Plato, que parecia estar ficando mais pesada nos meus braos a cada passo.
- Voc est errada em no confiar em mim - observou Paul enquanto ia subindo o morro ao meu lado em seu serpentomvel prateado. - Ns dois somos iguais, voc sabe. 
- Sinceramente espero que no seja verdade - falei. Contra alguns inimigos a educao podia ser uma dissuaso to forte quanto um punho. No estou brincando. Experimente 
um dia desses. 
- Desculpe desapont-la - disse Paul. - Mas . O que o padre Dominic lhe disse? Para no ficar sozinha comigo? Para no acreditar numa palavra do que eu digo? 
- De jeito nenhum - falei no mesmo tom distante. - O padre Dominic acha que eu deveria lhe dar o benefcio da dvida. 
Por trs de seu volante forrado de couro, Paul pareceu surpreso. 
- Verdade? Ele disse isso? 
- Ah, disse - falei, notando um lindo amontoado de botes-de-ouro crescendo na borda da rua e desviando-me cuidadosamente para o caso de eles estarem escondendo 
algum ramo perigoso de sumagre-venenoso. - O padre Dominic acha que voc esta aqui porque quer se ligar com os nicos outros mediadores que conhece. Ele acha que 
nosso dever como seres humanos caridosos  deixar que voc se emende e ajud-lo pelo caminho do que  certo. 
- Mas voc no concorda com ele? - Paul estava me olhando atentamente. Bem, e por que no olharia? Considerando como estava indo devagar, no precisaria ficar de 
olho na rua nem nada. 
- Olha - falei, desejando ter uma faixa ou alguma coisa para prender o cabelo. Ele estava comeando a grudar na nuca. O prendedor de cabelo, de tartaruga, que eu 
tinha posto de manh, tinha desaparecido misteriosamente. - o padre Dominic  a melhor pessoa que eu j conheci. S vive para ajudar os outros. Ele acredita genuinamente 
que os seres humanos so bons por natureza e que, se forem tratados assim, vo reagir de acordo. 
- Mas, pelo que estou vendo, voc no concorda, no ?
- Eu acho que ns dois sabemos que o padre Dom est vivendo num mundo de sonho. - Olhei direto em frente enquanto subia o morro, esperando que Paul no adivinhasse 
que o corao batendo forte no tinha nada a ver com o exerccio, e tudo com sua presena. - Mas porque no quero frustrar o cara, vou manter comigo mesma minha 
opinio pessoal, de que voc  um psicopata manipulador. 
- Psicopata? - Paul pareceu deliciado ao ser descrito desse modo... mais uma prova de que ele era exatamente o que eu achava. - Gosto da palavra. Eu j fui chamado 
de um monte de coisas, mas nunca de psicopata. 
- No foi um elogio - esclareci, j que ele parecia estar entendendo assim. 
- Eu sei.  isso que torna a coisa to divertida. Voc  uma garota incrvel, sabe! 
- T, t - falei irritada. Eu nem conseguia insultar o sujeito. - S diga uma coisa. 
- O qu? 
- Naquela noite em que ns nos encontramos... - apontei para o cu -... voc sabe, l em cima. 
Ele assentiu. 
- Sei. O qu  que tem? 
- Como voc chegou l? Quero dizer, ningum exorcizou voc, certo? 
Paul sorriu. Para minha perplexidade vi que eu tinha feito a pergunta que ele mais queria ouvir. 
- No, ningum me exorcizou. E voc no precisava de que ningum a exorcizasse tambm. 
Isso quase me derrubou. Parei de repente. 
- Voc est dizendo que eu simplesmente posso sair andando l por cima sempre que quiser? - perguntei, realmente pasma. 
- H muita coisa que voc pode fazer e ainda no sabe, Suze - disse Paul, ainda rindo preguiosamente. - Coisas com as quais voc nunca sonhou. Coisas que eu posso 
mostrar. 
O tom sedoso de sua voz no me enganou. Paul era charmoso, era verdade, mas tambm era mortal. 
-  - falei, rezando para que ele no pudesse ver como meu corao estava batendo rpido atravs de toda aquela seda cor-de-rosa. - Tenho certeza de que sim. 
- Srio, Suze. O padre Dominic  um cara fantstico. No estou negando. Mas no passa de um mediador. Voc  um pouquinho mais do que isso.
- Sei. - Encolhi os ombros e comecei a andar de novo. 
Tnhamos chegado finalmente ao topo do morro, e eu entrei na sombra de alguns pinheiros gigantes dos lados da rua. Meu alvio por finalmente estar fora do calor 
era palpvel. S queria me livrar de Paul com a mesma facilidade. 
- Ento durante toda a minha vida as pessoas disseram que eu sou uma coisa, e de repente voc aparece e diz que eu sou outra, e eu deveria simplesmente acreditar? 
- Sim. 
- Porque voc  to digno de confiana! - zombei, parecendo um pouquinho mais segura do que me sentia. 
- Porque eu sou tudo que voc tem - corrigiu ele. 
- Bom, isso no  grande coisa, ? - Olhei-o irritada. - Ou ser que preciso observar que, na ltima vez em que vi voc, voc me deixou perdida no inferno? 
- No era o inferno - disse Paul, com outra de suas viradas caractersticas de olhos. - E voc acabou achando a sada. 
- E o Jesse? - Meu corao estava batendo mais forte do que nunca, porque isso, claro, era o que realmente importava. No o que ele tinha feito ou tentado fazer 
comigo, mas o que tinha feito com Jesse... o que eu morria de medo de que ele tentasse fazer de novo. 
- Eu pedi desculpas por aquilo. - Paul pareceu irritado. - Alm do mais, tudo acabou bem, no foi? E como eu disse, Suze, voc  muito mais poderosa do que imagina. 
S precisa de algum para mostrar seu verdadeiro potencial. Voc precisa de um mentor - um mentor de verdade, e no de um padre de sessenta anos que considera o 
padre Junipero No-sei-das-quantas o princpio e o fim do universo. 
- Certo. E imagino que voc se acha o sujeito certo para bancar o Sr. Miyagi para o meu Karat Kid. 
- Algo do tipo.
Estvamos virando a esquina para o numero 99 da Pine Crest Road, empoleirado num morro que dava para o vale de Carmel. Meu quarto, na frente da casa, tinha vista 
para o oceano.  noite a nvoa soprava do mar, e quase dava para v-la caindo em fiapos sobre o peitoril se eu deixasse a janela aberta. Era uma bela casa, uma das 
mais antigas de Carmel, que j tinha sido uma penso por volta de 1850. Nem tinha reputao de ser assombrada. 
- O que diz, Suze? - Paul estava com um dos braos pendurado casualmente no encosto do banco do carona, ao lado. - Jantar esta noite? Eu pago. Vou lhe contar coisas 
sobre voc, sobre o que voc , que ningum mais neste planeta sabe. 
- Obrigada - falei, entrando no meu quintal coberto de agulhas de pinheiro, sentindo-me insanamente aliviada. Bem, e por que no? Eu tinha sobrevivido a um encontro 
com Paul Slater sem ser jogada em outro plano de existncia. Era uma tremenda realizao. - Mas no, obrigada. Vejo voc na escola amanh.
Ento fui andando pelo grosso tapete de agulhas de pinheiro at a entrada de veculos, enquanto atrs de mim ouvia Paul gritando: 
- Suze! Suze, espera! 
S que no esperei. Fui direto pela entrada de veculos at a varanda da frente, subi a escada, abri a porta e entrei. 
No olhei para trs. No olhei para trs nem uma vez. - Estou em casa - gritei, para o caso de ter algum em baixo que ligasse a mnima para isso. Tinha. Peguei-me 
sendo interrogada par meu padrasto, que estava preparando o jantar e parecia ansioso em saber tudo sobre o "meu dia". Depois de contar e obter nutrio na forma 
de uma ma e um refrigerante diet, subi a escada para o segundo andar e abri a porta do meu quarto. 
Havia um fantasma sentado no parapeito da janela. Ele ergueu os olhos quando entrei. 
- Ol - disse Jesse.

Captulo 4

No falei com Jesse sobre Paul. 
Provavelmente devia ter falado. Tinha muita coisa que eu provavelmente devia ter contado a Jesse, mas ainda no tinha conseguido exatamente. 
S que eu sabia o que aconteceria se contasse: Jesse ia querer entrar num tremendo confronto com o cara, e o resultado seria algum sendo exorcizado de novo... e 
esse algum seria Jesse. E eu realmente no me achava capaz de suportar. Isso no. De novo, no. 
Por isso fiz segredo da matrcula sbita de Paul na Academia da Misso. Bom, as coisas estavam esquisitas entre mim e Jesse, verdade. Mas isso no significava que 
eu estivesse ansiosa por perd-lo. 
- Ento, como foi na escola? - perguntou ele. 
- Legal. - Eu estava com medo de dizer mais alguma coisa. Por um lado, me sentia preocupada com a hiptese comear a abrir o bico sobre o Paul. E por outro, bem, 
eu tinha descoberto que, quanto menos fosse dito entre Jesse e mim, no geral, melhor. Afinal, eu tinha uma tendncia a entrar num blblbl nervoso. Ainda que eu 
tivesse descoberto que geralmente o papo furado impedia Jesse de se desmaterializar (como ele tendia a fazer com mais freqncia agora, com um rpido pedido de desculpas, 
sempre que qualquer silncio incmodo surgisse entre ns) isso no parecia provocar um desejo semelhante da parte dele, de ficar falando. Jesse estivera quase insuportavelmente 
quieto desde ... 
Bem, desde o dia em que ns nos beijamos. 
No sei o que acontece com os caras, num dia do um beijo de lngua e no outro fingem que a gente no existe. Mas esse era o tratamento que eu vinha recebendo de 
Jesse ultimamente. Puxa, h menos de trs semanas ele tinha me pego nos braos e me dado um beijo que eu senti por toda a espinha. Eu me derreti no seu abrao, pensando 
que finalmente, depois de tanto tempo, poderia revelar meus verdadeiros sentimentos, o amor secreto que senti por ele desde o minuto - bem, pelo menos quase - em 
que entrei no meu quarto novo e descobri que o lugar j estava ocupado.
No importava que o ocupante tivesse respirado pela ltima vez h mais de um sculo e meio.
Eu deveria saber, acho, que no era uma boa se apaixonar por um fantasma. Mas esse  o negcio com os mediadores. Para ns os fantasmas tm tanta matria quanto 
qualquer ser vivo. A no ser pela coisa imortal, no havia motivo no mundo para Jesse e eu, se quisssemos, no termos o caso trrido com o qual eu vinha sonhando 
desde que ele se recusou pela primeira vez a me chamar de outra coisa que no fosse meu nome inteiro, Suzannah, o nome que ningum, alm do padre Dom, jamais usava. 
S que no aconteceu nenhum caso trrido. Depois daquele primeiro beijo - que foi interrompido pelo meu meio-irmo mais novo - no houve outro. De fato, Jesse pediu 
desculpas profusas, depois pareceu me evitar intencionalmente - mesmo eu tendo feito questo de lhe dizer que, por mim, tudo estava bem ... mais do que bem. 
Agora eu no podia deixar de ficar pensando se tinha cedido muito. Jesse provavelmente achava que eu era fcil, ou algo do tipo. Quero dizer, na poca em que ele 
era vivo, as damas davam tapas em homens que fossem to ousados como ele tinha sido.
At mesmo homens que se pareciam com Jesse, com olhos escuros brilhantes, cabelo preto e grosso, barriga parecendo uma tbua de esfregar roupa e sorrisos irresistivelmente 
sensuais. 
Ainda acho difcil acreditar que algum possa ter odiado um sujeito desses o bastante para mat-lo, mas foi exatamente assim que Jesse acabou assombrando meu quarto, 
o quarto em que foi estrangulado h 150 anos. 
Dadas as circunstncias, eu realmente no achei que houvesse sentido em contar a Jesse os detalhes do meu dia. S entreguei o Teoria crtica desde Plato e disse: 
- O padre Dominic mandou lembranas. 
Jesse pareceu satisfeito com o livro. Azar o meu estar apaixonada por um cara que se sentia mais atrado pela teoria crtica do que pela idia da minha lngua em 
sua boca.
Jesse folheou o livro enquanto eu jogava na cama o contedo da minha mochila. J estava lotada de dever de casa, e era s o primeiro dia de aula. Dava para ver que 
a dcima-primeira seria cheia de diverso e aventura. Puxa, com Paul Slater e trigonometria, o que poderia ser mais empolgante? 
Eu deveria ter dito alguma coisa a Jesse sobre o Paul. Deveria ter dito: "Ei, adivinha s. Lembra aquele cara, o Paul, cujo nariz voc tentou quebrar? Pois , agora 
ele estuda na minha escola." 
Porque se eu tivesse sido casual a respeito, talvez no fosse grande coisa. Quero dizer, , Jesse odiava o cara; e com bons motivos. Mas eu poderia ter tirado a 
importncia do fato de que Paul poderia ser o filho de Sat. Quero dizer, o cara usa um relgio Fossil. At que ponto ele poderia ser maligno? 
Mas no momento em que eu estava juntando coragem para dizer "Ah, , e aquele tal de Paul Slater, lembra? Ele apareceu na minha sala de reunies hoje de manh", Brad 
gritou para cima, dizendo que o jantar estava pronto.
Como meu padrasto d uma tremenda importncia a esse negcio de todo mundo se juntar como uma famlia na hora das refeies e de partirmos o po juntos, eu fui obrigada 
a sair de perto de Jesse (no que ele parecesse se importar), descer e conversar com a famlia ... um tremendo sacrifcio, considerando o que poderia estar fazendo: 
disponibiIizando-me para mais beijos do homem dos meus sonhos. 
Mas j que a noite, como na maioria das noites, no parecia a ponto de render nenhum abrao apaixonado, desci a escada num tremendo mau humor. Andy tinha preparado 
bife fajitas, um dos seus melhores pratos. Eu precisava dar crdito  minha me por ter achado um cara que no somente resolvia tudo em casa, mas que alm disso 
era praticamente um chef de cozinha. Como mame e eu tnhamos vivido praticamente de comida para viagem antes de ela se casar de novo, esta era sem dvida uma evoluo. 
Mas o fato era que o Sr. Conserta-tudo tinha vindo com trs filhos adolescentes. Essa parte ainda me deixava meio na dvida.
Brad arrotou quando eu entrei na sala de jantar. S que ele havia dominado a arte de arrotar palavras. A palavra que ele arrotou quando eu entrei foi: "Babaca." 
- Olha s quem fala - foi minha resposta espirituosa. 
- Brad - disse Andy com severidade. - V pegar o creme azedo, por favor. 
Revirando os olhos, Brad se levantou de seu lugar  mesa e foi de m vontade para a cozinha. 
- Oi, Suzinha - disse minha me, aproximando-se e desalinhando meu cabelo afetuosamente. - Como foi o primeiro dia de aula? 
S minha me, de todos os seres humanos do planeta, tem permisso de me chamar de Suzinha. Felizmente eu j havia deixado isso abundantemente claro para meus meios-irmos, 
de modo que eles nem davam mais risinhos quando ela falava assim. 
No achei que seria adequado responder com sinceridade  pergunta de minha me. Afinal de contas ela no sabe que sua filha nica  um elemento de ligao entre 
os vivos e os mortos. Ela no conhecia Paul, nem sabia que ele tentara me matar uma vez, nem sabia da existncia de Jesse. Minha me acha simplesmente que eu estou 
demorando a acontecer, que sou uma garota tomando ch de cadeira, que logo vai tomar tino e arranjar namorados de monto. O que  surpreendentemente ingnuo para 
uma mulher que trabalha como jornalista de TV, ainda que seja apenas uma emissora local afiliada. 
Algumas vezes invejo mame. Deve ser legal viver no planeta dela. 
- Meu dia foi maneiro - foi como respondi  pergunta de mame. 
- No vai ser to bom amanh - observou Brad enquanto voltava com o creme azedo. 
Minha me tinha ocupado seu lugar numa cabeceira da mesa e estava desdobrando o guardanapo. Nos s usamos guardanapos de pano. Outro Andyismo.  mais ecologicamente 
correto e torna a apresentao da comida mais Marrtha Stewart. 
- Verdade? - disse mame, e suas sobrancelhas, escuras como as minhas, subiram. - Por qu?
- Amanh  o dia em que a gente faz as indicaes para o diretrio estudantil - disse Brad, sentando-se de novo. - E Suze vai perder o cargo de vice-presidente da 
turma. 
Sacudindo meu guardanapo e colocando-o delicadamente no colo - junto com a cabea gigantesca de Max, o cachorro dos Ackerman, que passava cada refeio com o focinho 
apoiado na minha coxa, esperando o que casse do meu garfo no colo, uma prtica a qual eu agora estava to acostumada que nem notava mais - falei, respondendo ao 
olhar interrogativo de mame: 
- No fao idia do que ele est falando. Brad pareceu inocente. 
- Kelly no pegou voc depois da escola?
No exatamente, dado que eu tinha ficado de castigo depois da aula, algo que Brad sabia perfeitamente bem. Mas ele pretendia me torturar sobre isso durante um tempo, 
dava para ver. 
- No - falei - Por qu? 
- Bem, Kel j pediu a outra pessoa para entrar na chapa dela este ano. Aquele cara novo, Paul No-sei-das-quantas. - Brad encolheu os ombros, dos quais seu grosso 
pescoo de lutador brotava como um tronco de arvore entre dois pedregulhos. - De modo que eu acho que o reino de Suze como vice-presidente  finito. 
Minha me me olhou com ar preocupado. 
- Voc no sabia disso, Suzinha? 
Foi minha vez de dar de ombros. 
- No. Mas  legal. Eu nunca me vi realmente como membro da diretoria estudantil. 
Mas essa resposta no teve o efeito desejado. Minha me apertou os lbios e disse: 
- Bem, eu no gosto disso. Um garoto novo chega e toma o lugar de Suzinha. No  justo. 
- Pode no ser justo - observou David - mas  a ordem natural das coisas. Darwin provou que os mais fortes da espcie tendem a ter mais sucesso, e Paul Slater  
um espcime fsico soberbo. Cada pessoa do sexo feminino que entra em contato com ele, pelo que eu notei, tem uma propenso ntida a exibir o comportamento de ajeitar 
as penas. 
Minha me achou um tanto divertido esse ultimo comentrio.
- Minha nossa - falou em tom ameno. - E voc, Suzinha? Paul Slater faz com que voc exiba um comportamento de ajeitar as penas? 
- Nem de longe - respondi. 
Brad arrotou de novo. Dessa vez, quando fez isso, disse: "Mentirosa." 
Encarei-o, irritada. 
- Brad. Eu no gosto de Paul Slater. 
- No foi o que me pareceu quando vi vocs dois no corredor coberto hoje de manh. 
- Errado - falei acalorada. - Voc no poderia estar mais errado. 
- Ah - disse Brad. - Desista, Suze. Definitivamente estava acontecendo uma exibio de penas. S que voc estava com tanto fixador no cabelo que seus dedos ficaram 
presos. 
- Chega - disse minha me enquanto eu tomava flego para negar isso tambm. - Vocs dois. 
- Eu no gosto de Paul Slater - falei de novo, s para o caso de Brad no ter me ouvido da primeira vez. - Certo? Na verdade eu o odeio. 
Minha me pareceu incomodada. 
- Suzinha? Estou surpresa com voc.  errado dizer que odeia algum. E como j poderia odiar o pobre coitado? Voc s o conheceu ontem. 
- Ela conhece ele de antes - disse Brad. - Do vero em Pebble Beach. 
Encarei-o furiosa mais um pouco. - Como voc sabe isso? 
- Paul me contou - disse Brad dando de ombros. 
Com uma ponta de pavor - seria bem o estilo de Paul abrir o bico com minha famlia sobre o negcio de eu ser mediadora, s para mexer comigo - perguntei, tentando 
parecer casual: 
- Ah, ? O que mais ele disse? 
- S isso - disse Brad. Ento sua voz ficou sarcstica. - Por mais que possa ser uma surpresa, Suze, as pessoas tm outras coisas para conversar, alm de falar de 
voc. 
- Brad - disse Andy num tom de alerta, enquanto saia da cozinha carregando uma bandeja com tiras de carne chiando e outra com tortilhas macias e fumegantes. - Cuidado. 
- Depois, baixando as bandejas, seu olhar se fixou na cadeira vazia ao meu lado. - Cad o Jake? 
Todos nos entreolhamos com expresso vazia. Eu nem tinha registrado a ausncia de meu meio-irmo mais velho.
Nenhum de ns sabia onde Jake estava. Mas todos sabamos, pelo tom de voz de Andy, que quando Jake chegasse em casa seria um homem morto. 
- Talvez ele tenha ficado retido numa aula - disse minha me. - Voc sabe que  a primeira semana na faculdade, Andy. Talvez o horrio dele no seja muito regular 
durante um tempo. 
- Eu perguntei a ele hoje cedo se ia chegar a tempo para o jantar, e ele falou que sim - disse Andy irritado. - Se ia se atrasar, no mnimo deveria dar um telefonema. 
- Talvez ele esteja preso em alguma fila de registro - disse mame, querendo tranqiliz-lo. - Venha, Andy. Voc fez um jantar magnfico. Seria uma pena no se sentar 
e comer antes que fique frio. 
Andy sentou-se, mas no parecia muito ansioso para comer. 
-  que quando algum se d ao trabalho de fazer uma bela refeio,  educado que todo mundo aparea na hora certa ... - disse ele, num discurso que j tnhamos 
ouvido aproximadamente duzentas vezes. 
Enquanto Andy estava dizendo isso  porta da frente bateu, e a voz de Jake soou no saguo: 
- Pode ficar de camisa, eu j estou aqui - Jake conhecia bem o pai 
Mame lanou um olhar para Andy por cima das tigelas de alface picada e queijo, que estvamos passando. O olhar dizia: Est vendo? Eu falei. 
- Oi - disse Jake entrando na sala de jantar em seu passo lento de sempre. - Desculpe o atraso. Fiquei preso na livraria. As filas para comprar livros estavam inacreditveis. 
O olhar de "no falei?" de mame se aprofundou. Tudo que Andy fez foi resmungar. 
- Voc teve sorte. Desta vez. Sente-se e coma. - Ento, para Brad, falou: - Passe o molho.
S que Jake no se sentou para comer. Em vez disso ficou ali parado, com uma das mos no bolso da frente dos jeans, e outra ainda segurando as chaves do carro. 
- Ah - disse ele. - Escutem...
Todos ns olhamos, esperando que alguma coisa interessante acontecesse, como Jake dizer que a pizzaria tinha bagunado com o horrio dele de novo e que ele no poderia 
ficar para o jantar. Isso geralmente resultava em grandes fogos de artifcio da parte de Andy. 
Mas em vez disso Jake falou: 
- Eu trouxe uma pessoa. Espero que esteja tudo bem. Como meu padrasto preferiria ter mil pessoas apinhadas em volta da mesa de jantar do que a ausncia de um nico 
de ns, disse em tom magnnimo: 
- timo, timo. Tem o bastante para todo mundo. Pegue pratos e talheres na bancada. 
Ento Jake foi pegar um prato, garfo e faca, enquanto a "pessoa" surgia, numa postura meio frouxa, aparentemente tendo esperado na sala de estar, sem dvida pasmo 
com a quantidade enorme de fotos de famlia que minha me tinha posto em todas as paredes de l. 
Infelizmente a pessoa que Jake tinha trazido no era da variedade feminina, por isso no poderamos pegar no p dele mais tarde. Mesmo assim, como diria David, Neil 
Jankow, como foi apresentado, era um espcime interessante. Era bem arrumado, o que o destacava da maioria dos amigos de Jake. Seus jeans no pendiam frouxos em 
algum ponto no meio das coxas, mas estavam adequadamente presos a cintura com um cinto, fato que o colocava um ponto acima da maioria dos rapazes de sua idade. 
Mas isso no significava que fosse um gato. De jeito nenhum. Era quase dolorosamente magro, com pele oleosa, e tinha cabelos louros meio compridos. Mesmo assim pude 
ver que minha me o aprovava, j que era cuidadosamente educado, chamando-a de senhora - "Muito obrigado por me deixar ficar para o jantar, senhora"- se bem que 
a deduo de que minha me tinha feito o jantar era meio machista, j que Andy tinha preparado tudo. 
Mesmo assim ningum pareceu se ofender, e foi aberto o espao para o jovem Sr. Neil  mesa. Ele se sentou e, acompanhando Jake, comeou a comer ... no com muito 
empenho, mas com uma apreciao que parecia no ser fingida.
Logo ficamos sabendo que Neil freqentava com Jake as aulas de Introduo  Literatura Inglesa. Como Jake, Neil estava entrando na NoCal - a gria da cidade para 
a Faculdade Estadual do Norte da Califrnia. Como Jake, Neil era da regio. Na verdade, sua famlia vivia no vale. Seu pai era dono de vrios restaurantes na rea, 
inclusive um ou dois onde eu j tinha comido. Como Jake, Neil no tinha muita certeza de que carreira seguiria, mas, tambm como Jake, esperava curtir a faculdade 
muito mais do que o segundo grau, j que tinha programado o horrio para no ter nenhuma aula de manh, por isso podia passa-la dormindo ou, se por acaso acordasse 
antes das onze, aproveitar algumas ondas na praia de Carmel antes da primeira aula. 
No fim do jantar eu tinha muitas perguntas sobre Neil. 
Tinha uma grande, sobre uma coisa especfica. Era algo que, com toda a certeza, no havia incomodado ningum alm de mim. No entanto eu realmente sentia que merecia 
algum tipo de explicao, pelo menos. No que eu pudesse dizer algo a respeito. No com tantas pessoas em volta. 
E isso era parte do problema. Havia muita gente em volta. E no s as pessoas reunidas  mesa. No, havia o cara que tinha entrado na sala e ficado ali durante todo 
o jantar, bem atrs da cadeira de Neil, olhando-o em silncio completo, com um ar maligno. 
Esse cara, diferente de Neil, era bonito. De cabelos escuros e covinha no queixo, dava para ver que, por baixo dos jeans Dockers e da plo preta, ele era ... ele 
tinha malhado muito, sem qualquer dvida, para cultivar aqueles trceps, para no mencionar o que eu achava que seria uma barriga com msculos parecendo uma tbua 
de lavar roupa. 
Esta no era a nica diferena entre esse cara e o amigo de Jake, Neil. Tambm havia o pequeno detalhe de que Neil, pelo que eu sabia, estava notavelmente vivo, 
ao passo que o cara atrs dele estava, bem ... 
Morto.

Captulo 5

Era a cara de Jake, trazer para casa um convidado mal-assombrado.
No que Neil parecesse saber que era mal-assombrado. Parecia perfeitamente ignorante da presena fantasmagrica atrs dele - assim como o resto de minha famlia, 
com exceo de Max. No minuto em que Neil se sentou, Max disparou para fora da sala de jantar com um ganido que fez Andy balanar a cabea e dizer: - Esse cachorro 
est ficando a cada dia mais neurtico. 
Pobre Max. Sei como ele se sente. 
S que, diferente do cachorro, eu no podia fugir da sala de jantar e me esconder em outra parte da casa, como queria. Quero dizer, se fizesse isso provocaria um 
monte de perguntas desnecessrias. 
Alm disso eu sou uma mediadora. Lidar com os mortos  meio inevitvel para mim. 
Ainda que definitivamente haja momentos em que eu deseje poder sair dessa. Aquele era um desses momentos. 
No que eu pudesse fazer alguma coisa. No, eu estava grudada na mesa, tentando engolir fajitas na brasa enquanto era encarada por um morto, um final fantstico 
para um dia muito menos do que perfeito.
O morto, de sua parte, parecia bastante chateado. Bem, e por que no? Quero dizer, ele estava morto. Eu no fazia idia de como ele havia se separado de sua alma, 
mas devia ter sido sbito, porque ainda no parecia muito acostumado com aquilo. Sempre que algum pedia alguma coisa que estivesse perto dele, ele estendia a mo 
... e o objeto era arrancado debaixo de seus dedos fantasmagricos por um dos vivos  mesa, o que o deixava irritado. Mas deu para notar que a maior parte de sua 
animosidade era reservada a Neil. Cada pedao de fajita que o novo amigo de Jake pegava, cada batata frita que ele mergulhava em seu guacamole, parecia enfurecer 
mais o morto. Os msculos de sua mandbula tremiam, e seus pulsos se apertavam convulsivamente cada vez que Neil respondia em sua voz calma: 
"Sim, senhora" ou "No, senhora", a qualquer das muitas perguntas que mame fazia.
Finalmente no pude suportar mais - era arrepiante ficar ali sentada  mesa com aquele fantasma furioso que s eu podia ver... e eu estou acostumada a ser olhada 
por fantasmas - por isso me levantei e comecei a retirar os pratos de todo mundo, ainda que fosse a vez de Brad fazer isso. Ele me olhou boquiaberto - proporcionando 
a todos ns uma viso muito linda de um bife meio mastigado que ele tinha na boca - mas no falou nada. Acho que tinha medo de que, se dissesse, isso me arrancaria
da iluso de que era minha noite de tirar os pratos. Ou isso ou ele achou que eu estava tentando cair nas suas boas graas para ele no me dedurar sobre o "cara"
que eu estava recebendo  noite no quarto. 
De qualquer modo, minha ao de tirar os pratos pareceu um sinal de que o jantar estava acabado, j que todo mundo se levantou e foi para a varanda, olhar a piscina 
nova que Andy ainda mostrava com orgulho a todos que passavam pela porta da frente, quer pedissem para ver ou no. 
Foi enquanto eu estava na cozinha enxaguando os pratos antes de coloc-los na lavadora que a sombra ambulante de Neil e eu ficamos sozinhos. Ele parou to perto 
de mim - olhando atravs da porta deslizante, de vidro, para os que estavam na varanda - que eu pude estender a mo molhada e puxar sua camisa sem ningum notar. 
Dei-lhe um tremendo susto. Ele girou, com o olhar furioso e incrdulo ao mesmo tempo. Sem dvida no tinha notado que eu podia v-lo. 
- Ei - sussurrei para ele, enquanto todos os outros falavam sobre cloro e sobre o flan que Andy tinha feito de sobremesa. - Ns dois temos de conversar. 
O cara ficou chocado. 
- Voc ... consegue me ver? - gaguejou ele. 
- Obviamente. 
Ele piscou, depois olhou pela porta de vidro. 
- Mas eles ... eles no podem? 
-No. 
- Por qu? Quero dizer, por que voc e no ... eles. 
- Porque eu sou uma mediadora. 
Ele ficou inexpressivo. - Uma o qu? 
- Espere um segundo - falei, porque pude ver mame vindo subitamente da varanda para a porta de vidro.
- Brr - disse ela enquanto entrava e fechava a porta. - Fica frio l fora quando o sol baixa. Como est indo com os pratos, Suzinha? Precisa de ajuda? 
- No - falei toda animada. - Tudo bem. 
- Tem certeza? Eu achava que era a vez do Brad limpar a mesa. 
- No faz mal - falei com um sorriso que esperava que ela no notasse que era completamente forado. 
No funcionou. 
- Suzinha, querida. Voc no est chateada, est? Com o que Brad estava dizendo sobre o tal garoto ser indicado para vice-presidente no seu lugar? 
- Ah ... - falei, olhando o garoto fantasma, que pareceu bastante irritado com a interrupo. Eu no podia culp-lo. Acho que foi pouco profissional da minha parte 
ter uma sesso de reforo do elo entre me e filha no meio de uma mediao. - No, srio, mame. Na verdade eu me sinto bem com relao a isso. 
E no estava mentindo. No estar no diretrio estudantil este ano me liberaria um bocado de tempo. Tempo com o qual eu no tinha idia do que iria fazer, claro, 
j que aparentemente no iria gast-lo sendo levada as alturas por Jesse. Mesmo assim, a esperana  a ltima que morre. 
Mame continuou parada perto da porta, preocupada. - Bem, Suzinha querida, voc vai ter de substituir isso por outra atividade extracurricular, voc sabe. As faculdades 
procuram esse tipo de coisa nos candidatos. Faltam menos de dois anos para a sua formatura. Voc vai nos deixar em breve.
Nossa! Mame nem sabia sobre Jesse, e mesmo assim fazia todo o possvel para nos manter separados, sem saber que o prprio Jesse estava cuidando disso sozinho. 
- Tudo bem, mame - falei, olhando desconfortavelmente para o garoto fantasma. Quero dizer, eu no estava exatamente empolgada por ele ouvir tudo isso. - Eu vou 
entrar na equipe de natao. Isso deixa voc feliz? Ter de me levar para os treinos s cinco da manh todo dia?
- Isso no foi muito convincente, Suzinha - disse mame em voz seca. - Sei perfeitamente que voc nunca vai entrar para a equipe de natao. Voc  obcecada demais 
com o cabelo e com o que aquela qumica da piscina pode fazer com ele. 
E ento ela foi para a sala de estar, deixando o garoto fantasma e eu sozinhos na cozinha. 
- Certo - falei em voz baixa. - Onde  que ns estvamos? 
O cara s balanou a cabea. 
- Ainda no acredito que voc pode me ver - falou em voz chocada. - Quero dizer, voc no sabe ... voc no pode saber como .  como se, em todo lugar aonde eu 
fosse, as pessoas olhassem atravs de mim. 
-  - falei jogando para o lado a toalha de pratos que eu tinha usado para enxugar as mos. - Isso  porque voc est morto. A questao : O que deixou voc nesse 
estado? 
O garoto fantasma ficou pasmo com o meu tom de voz. 
Acho que fui meio rude. Mas afinal de contas eu no estava tendo o melhor dos dias. 
- Voc  ... - Ele me olhou um tanto cautelosamente. - Quem voc disse mesmo que era? 
- Meu nome  Suze. Sou uma mediadora. 
- Uma o qu? 
- Mediadora. Meu trabalho  ajudar os mortos a passar para o outro lado ... para a prxima vida, ou sei l o que. Qual  o seu nome? 
O garoto fantasma piscou de novo. - Craig. 
- Certo. Bem, escute, Craig. Alguma coisa est errada, porque eu duvido tremendamente de que o universo pretenda que voc fique na minha cozinha como parte de toda 
a sua experincia ps-vida. Voc precisa ir em frente. 
Craig franziu as sobrancelhas escuras. 
- Em frente para onde? 
- Bem, isso  voc quem vai descobrir quando chegar l. 
De qualquer modo, a grande pergunta no  para onde voc vai, mas por que ainda no chegou l. 
- Quer dizer ... - Os olhos de Craig se arregalaram. - Voc quer dizer que isto aqui no  ... l? 
- Claro que no - falei, achando meio divertido. - Voc acha que, depois de morrer, todo mundo vai para Pine Crest Road, 99? 
Craig encolheu os ombros largos.
- No. Acho que no.  s que ... quando eu acordei, voc sabe, eu no sabia aonde ir. Ningum podia ... voc sabe. Me ver. Quero dizer, eu fui para a sala de estar, 
e minha me estava chorando como se no conseguisse parar. Foi meio assustador. 
Ele no estava brincando. 
- Tudo bem - falei, com mais gentileza do que antes. -  assim que acontece algumas vezes. S que no  o normal. A maioria das pessoas vai direto para a prxima 
... bem, fase de conscincia. Sabe, para a prxima vida, ou para a danao eterna, se ferraram com tudo na ultima. Esse tipo de coisa. - Os olhos dele meio se arregalaram 
diante das palavras danao eterna, mas como eu nem tinha certeza de haver uma coisa assim, me apressei: - O que ns temos de descobrir agora  por qu voc no 
foi. Quero dizer, por qu no foi em frente logo. Alguma coisa obviamente est segurando voc. Ns precisamos ... 
Mas nesse ponto o exame da piscina - a preciosa piscina de Andy, que daqui a menos de uma semana estaria cheia de vomito e cerveja - terminou, e todo mundo voltou 
para dentro. 
Sinalizei para Craig me seguir e subi a escada, at onde eu achava que poderamos falar sem ser interrompidos. 
Ao menos pelos vivos. Jesse, por outro lado, era uma histria diferente. 
- Nombre de dios - disse ele, espantado das pginas da Teoria Crtica desde Plato quando entrei de volta no quarto com Craig logo atrs. Spike, o gato de Jesse, 
arqueou as costas antes de ver que era s eu (com outro dos meus incmodos amigos fantasmas) e se encostou em Jesse. 
- Desculpe - falei. Ao ver o olhar de Jesse passar par mim e se grudar no garoto fantasma, fiz as apresentaes: - Jesse, este  Craig. Craig, Jesse. Vocs dois 
devem se dar bem. Jesse tambm est morto. 
Mas Craig pareceu achar a viso de Jesse (que, como sempre, estava vestido no auge da moda do ultimo ano em que esteve vivo, mais ou menos 1850, inclusive com botas 
de couro pretas indo at os joelhos, calas pretas justas e uma grande camisa bufante de gola aberta) um pouco demais.
Tanto, de fato, que teve de se sentar pesadamente (ou pelo menos to pesadamente quanto algum sem matria poderia) na beira da minha cama. 
- Voc  um pirata? - perguntou Craig. 
Jesse, diferentemente de mim, no achou isso muito divertido. Acho que no posso culp-lo. 
- No - disse em tom chapado. - No sou. 
- Craig - falei, tentando manter o rosto srio, e fracassando apesar do olhar que Jesse me lanou. - Verdade, voc precisa pensar. Tem de haver um motivo para ainda 
estar aqui em vez de onde deveria estar. Qual voc acha que pode ser o motivo? O que est segurando voc? 
Craig finalmente afastou o olhar de Jesse. 
- No sei. Talvez o fato de que eu no deveria estar morto? 
- Certo - falei tentando ser paciente. Porque o negcio, claro,  que todo mundo acha isso. Que morreu jovem demais. Tive gente que apagou aos 104 anos reclamando 
comigo sobre a injustia disso tudo. 
Mas eu tento ser profissional. Quero dizer, afinal de contas a mediao  o meu servio. No que eu seja paga nem nada, a no ser que conte, sabe, em termos de carma. 
Assim espero. 
- Certamente d para ver por qu voc se sente assim - continuei. - Foi de repente? Quero dizer, voc no estava doente nem nada, estava? 
Craig ficou indignado. 
- Doente? Est brincando? Eu sou capaz de levantar 120 quilos no supino e corro oito quilmetros todo dia. Para no mencionar que eu era da equipe de remo da NoCal. 
E ganhei a corrida de catamar do Iate Clube de Pebble Beach trs anos seguidos. 
- Ah - falei. No era de espantar que o sujeito parecesse ter um corpo to marombado debaixo da camisa plo. - Ento sua morte foi acidental? 
- Sem dvida que foi acidental- disse Craig, cutucando um dedo no meu colcho para enfatizar. - Aquela tempestade veio de lugar nenhum. Virou a gente antes que eu 
tivesse chance de ajustar a vela. Fiquei preso embaixo do barco. 
- Ento ... - falei hesitante. - Voc se afogou? 
Craig balanou a cabea ... no em resposta a minha pergunta, mas de frustrao.
- Isso no devia ter acontecido - falou, olhando os sapatos sem ver ... mocassins, do tipo que caras como ele, que curtem barcos, usam sem meias. - No deveria ter 
sido eu. Eu era da equipe de natao no segundo grau. Fui o primeiro do distrito em estilo livre. 
Eu ainda no entendia. 
- Sinto muito - falei. - Eu sei que no parece justo. Mas as coisas vo melhorar, garanto. 
- Verdade? - Craig ergueu o olhar dos sapatos, com os olhos castanhos parecendo me prender na parede. - Como? Como as coisas vo melhorar? Para o caso de voc no 
ter notado, eu estou morto. 
- Ela quer dizer que as coisas vo melhorar para voc quando voc se mudar - disse Jesse, vindo em meu socorro. Ele parecia ter superado a observao sobre o pirata. 
- Ah, as coisas vo melhorar, ? - Craig soltou um riso amargo. - Como melhoraram para voc? Parece que voc andou esperando um bom tempo para se mudar, meu chapa. 
Qual  o problema? 
Jesse ficou quieto. Realmente no havia nada que ele pudesse falar. Claro que ele ainda no sabia por que no tinha passado deste mundo para o outro. Nem eu. Mas 
o que quer que estivesse prendendo Jesse neste tempo e neste lugar segurava-o com muita fora: j o mantinha aqui h um sculo e meio, e mostrava todos os sinais 
de continuar segurando (eu esperava egoisticamente) pelo menos durante meu tempo de vida, se no por toda a eternidade. 
E ainda que o padre Dom insistisse em que um dia desses Jesse iria deduzir o que o mantinha na Terra e que era melhor eu no me ligar demais a ele porque chegaria 
o dia em que eu nunca mais iria v-lo de novo, esses conselhos bem-intencionados tinham cado em ouvidos surdos. Eu j estava ligada. De monto. 
E no estava trabalhando muito para me desligar. 
- A situao de Jesse  meio especial - falei com Craig no que esperava que fosse uma voz tranqilizadora, tanto por ele quanto por Jesse. - Tenho certeza de que 
a sua nem de longe  to complicada. 
- Isso mesmo - disse Craig. - Porque eu nem deveria estar aqui.
- Certo - falei - E vou fazer o mximo para que voc passe para a sua prxima vida ... 
Craig franziu a testa. Era a mesma expresso que tinha mantido por todo o jantar, olhando para Neil, o amigo de Jake. 
- No - disse ele. - No foi isso que eu quis dizer. Quis dizer que eu no devia estar morto. 
Assenti. Eu tinha ouvido esse papo antes, vezes sem conta. Ningum quer acordar e descobrir que no est mais vivo. Ningum. 
-  difcil - falei. - Eu sei que . Mas com o tempo voc vai se acostumar  idia, garanto. E as coisas vo melhorar assim que ns descobrirmos exatamente o que 
o est segurando ... 
- Voc no entende - disse Craig, balanando a cabea morena. -  o que eu estou tentando lhe dizer. O que est me segurando  o fato de que no era eu que devia 
estar morto. 
Falei hesitante: 
- Bem ... pode ser. Mas no h nada que eu possa fazer a respeito. 
- O que voc quer dizer? - Craig ficou de p no meu quarto, furioso. - O que voc quer dizer com no pode fazer nada a respeito? Ento o que eu estou fazendo aqui? 
Achei que voc poderia me ajudar. Achei que voc disse que era a mediadora. 
- E sou - falei olhando rapidamente para Jesse, que parecia to pasmo quanta eu. - Mas eu no determino quem vive ou morre. Isso no  comigo. No faz parte do meu 
trabalho. 
Craig, com a expresso transformada em nojo, falou: 
- Bem, ento obrigado por nada - e comeou a ir para a porta do meu quarto. 
Eu no iria impedi-lo. Quero dizer, eu no queria ter mais nada a ver com ele. Ele parecia o tipo de cara grosso e metido a besta. Se no queria minha ajuda, ei, 
no era problema meu. 
Foi Jesse quem o fez parar. 
- Voc - disse ele, numa voz bastante profunda. E autoritria. A ponto de fazer Craig parar. - Pea desculpas  ela. 
O cara na porta virou a cabea lentamente para olhar Jesse. 
- De jeito nenhum - foi o que teve a falta de sensatez de dizer.
Um segundo depois ele no estava saindo - nem atravessando - aquela porta. No. Estava grudado nela. Jesse estava segurando um dos braos de Craig no que parecia 
ser um ngulo muito doloroso s costas, e estava encostado firmemente contra ele.
- Pea desculpas  jovem dama - sibilou Jesse. - Ela est tentando lhe fazer uma gentileza. No se vira as costas a algum que est tentando fazer uma gentileza. 
Epa. Para um cara que parece no querer nada comigo, Jesse certamente pode ficar irritado com o modo como outras pessoas me tratam. 
- Desculpe - disse Craig numa voz abafada contra a madeira da porta. Parecia estar sentindo dor. S porque voc est morto, claro, no significa que seja imune  
ferimentos. Sua alma se lembra, ainda que o corpo no exista mais. 
- Assim est melhor - disse Jesse, soltando-o. 
Craig se afrouxou contra a porta. Mesmo ele sendo meio escroto, senti pena do cara. Puxa, ele tinha tido um dia ainda pior do que eu, estando morto e coisa e tal. 
-  s que no  justo, sabe! - disse Craig num tom sofrido enquanto esfregava o brao que Jesse quase havia quebrado. - No devia ter sido eu. Eu  que devia ter 
sobrevivido, no o Neil. 
Olhei-o com surpresa. 
- Ah? Neil estava com voc no barco? 
- Catamar - corrigiu Craig. - E sim, claro que estava. 
- Ele era seu parceiro de vela? 
Craig me lanou um olhar de nojo. Depois, com um olhar nervoso para Jesse, modificou-o rapidamente para um desdm educado. 
- Claro que no. Voc acha que nos teramos virado se Neil tivesse a mnima idia do que estava fazendo? Pelo direito, ele  que deveria estar morto. No sei o que 
mame e papai estavam pensando. Leve Neil no catamar com voc. Voc nunca leva o Neil. Bem, espero que agora eles estejam felizes. E olha onde eu fui parar. Estou 
morto. E meu irmo estpido foi que sobreviveu.

Captulo 6

Bom, pelo menos agora eu sabia por qu Neil tinha ficado meio quieto durante o jantar: tinha perdido o nico irmo.
- O cara no conseguia nadar nem at o outro lado da piscina sem ter um ataque de asma - insistiu Craig. - Como pode ter se agarrado  lateral de um catamar durante 
sete horas, em ondas de trs metros, antes de ser resgatado? Como? 
Eu tambm no podia explicar. Assim como no sabia como iria explicar a Craig que era a sua crena de que o irmo deveria estar morto que mantinha sua alma na Terra. 
- Talvez voc tenha sido acertado na cabea - sugeri hesitante. 
- E da? - Craig me encarou furioso, fazendo-me saber que tinha acertado na mosca. - O otrio do Neil, que no seria capaz de fazer uma flexo na barra nem se fosse 
para salvar a vida, ele conseguiu se segurar. E eu, o cara cheio de trofus de natao? , fui eu que me afoguei. No existe justia no mundo. E  por isso que eu 
estou aqui, e Neil est l embaixo comendo a droga das fajitas.
Jesse ficou solene. 
- Ento seu plano  vingar sua morte tirando a vida do seu irmo, como achou que a sua foi tirada? 
Eu me encolhi. Pela expresso de Craig dava para ver que nada do tipo lhe havia ocorrido. Lamentei a sugesto de Jesse. 
- De jeito nenhum, cara - disse Craig. Em seguida, parecendo ter pensado bem, acrescentou: - Eu posso fazer isso? Quero dizer, matar algum? Se eu quisesse? 
- No - falei ao mesmo tempo em que Jesse dizia: 
- Sim, mas voc estaria arriscando sua alma imortal... 
Craig no me ouviu, claro. S ouviu Jesse. 
- Legal! - disse ele, olhando para as mos. 
- Nada de mortes - falei em voz alta. - No vai haver fratricdio. No no meu turno. 
Craig me olhou, aparentemente surpreso. 
- Eu no vou matar Neil. 
Balancei a cabea.
- Ento o que ? O que est segurando voc? Houve ... no sei. Alguma coisa ficou sem ser dita entre vocs dois? Quer que eu diga a ele, por voc? O que quer que 
seja? 
Craig me olhou como se eu fosse pirada. 
- Para o Neil? Est brincando comigo? Eu no tenho nada para dizer ao Neil. O cara  um panaca, olha s, andando com um sujeito que nem o seu irmo. 
Ainda que eu no tenha meus meios-irmos em grande estima - com a exceo de David, claro - isso no significava que pudesse ficar ali parada enquanto algum falava 
mal deles na minha cara. Pelo menos no do Jake, que, na maior parte do tempo, era bem inofensivo. 
- O que tem de errado com meu irmo? - perguntei meio acalorada. - Quero dizer, meu meio-irmo?
- Bom, na verdade no tenho nada contra ele. Mas sabe ... bem, quero dizer. Eu sei que Neil  s um calouro, impressionvel e coisa e tal, mas eu avisei, no se 
chega a lugar nenhum na NoCal a no ser que voc ande com os surfistas. 
Nesse ponto eu j tinha ouvido tudo que podia suportar de Craig Jankow. 
- Certo - falei, indo at a porta do quarto. - Bem, foi um prazer conhecer voc, Craig. Voc ter notcias minhas. Ah, e teria mesmo. Eu saberia como encontr-lo, 
bastaria procurar Neil e podia apostar dez contra um que acharia Craig andando atrs. 
Craig pareceu ansioso. 
- Quer dizer que voc no vai tentar me levar de volta  vida? 
- No. Quero dizer, bom, eu vou descobrir por que voc ainda est aqui, e no onde deveria estar. 
- Certo - disse Craig. - Vivo. 
- Acho que ela quer dizer no cu - disse Jesse. Jesse no curtia muito o papo de reencarnao, como eu. 
Craig, que tinha ficado olhando Jesse cheio de nervosismo desde o incidente perto da porta, pareceu alarmado. 
- Ah - disse ele, com as sobrancelhas escuras levantadas. - Ah. 
- Ou em sua prxima vida - falei, com um olhar significativo para Jesse. - Ns no sabemos de verdade. No , Jesse?
Jesse, que tinha se levantado porque eu me levantei - e Jesse era nada menos do que um cavalheiro diante das damas - falou com bvia relutncia: 
- No. No sabemos. 
Craig foi at a porta, depois olhou para ns dois. 
- Bem - disse ele. - Vejo vocs por a, acho. - Depois olhou para Jesse e falou: -E,  ... desculpe ter chamado voc de pirata. Verdade. 
Jesse respondeu, carrancudo: -Tudo bem. 
Ento Craig foi embora. E Jesse soltou os bichos. 
- Suzannah, esse garoto significa encrenca. Voc deve entreg-lo ao padre Dominic.
Suspirei e me sentei no banco perto da janela, de onde Jesse tinha acabado de se levantar. Spike, como era seu costume quando eu me aproximava e Jesse estava por 
perto, rosnou para mim, para deixar claro a quem pertencia ... ou seja, no a mim, ainda que fosse eu que pagasse por sua comida e pela caixa de areia. 
- Ele vai ficar bem, Jesse - falei - Vamos ficar de olho nele. Ele s precisa de um tempinho. Puxa, o cara acabou de morrer. 
Jesse balanou a cabea, com os olhos escuros relampejando. 
- Ele vai tentar matar o irmo. 
- Bem, . Agora que voc ps a idia na cabea dele. 
- Voc precisa ligar para o padre Dominic. - Jesse foi at o telefone e o pegou. - Diga que ele precisa se encontrar com esse garoto, o irmo, e avisar a ele. 
- Epa! V com calma, Jesse. Eu posso cuidar disso sem ter de arrastar o padre Dominic. 
Jesse me olhou duvidando. O negcio  que, mesmo quando parece duvidar, Jesse  o cara mais gato que eu j vi. Quero dizer, ele no tem uma aparncia perfeita nem 
nada assim - tem uma cicatriz atravessando a testa do lado direito, limpa e branca como um risco de giz, e, como j observei antes, ele  meio fora de moda. 
Mas em todos os outros sentidos o cara  o prprio teso, desde o topo dos cabelos pretos cortados curtos ate as botas de montaria, e com mais de um metro e oitenta 
de msculos nem um pouco cadavricos entre uma ponta e outra. 
Uma pena que seu interesse por mim parea ser completamente platnico.
Talvez, se eu beijasse melhor ... Mas qual , eu no tive muita oportunidade de treinar. Os caras - os caras normais - no vm exatamente aos bandos at a minha 
porta. No que eu seja uma baranga ou coisa assim. De fato, eu me acho bem passvel, quando estou toda maquiada, com o cabelo muito bem escovado com secador. S 
que  meio difcil ter uma vida social quando a gente est sendo constantemente solicitada pelos mortos. 
- Acho que voc deveria ligar para ele - disse Jesse, estendendo o telefone para mim outra vez. - Eu estou dizendo, mi hermosa. Esse Craig tem mais coisa do que 
d para ver. 
Pisquei, mas no por causa do que Jesse tinha dito sobre Craig. No, foi pelo modo como tinha me chamado. Hermosa, em espanhol. Ele nunca tinha me chamado assim, 
nem uma vez, desde que tnhamos nos beijado. Fala srio, eu sentia tanta falta da palavra em seus lbios que fiquei curiosa com o que significava e procurei no dicionrio 
de espanhol do Brad. 
"Formosa." Num sentido de "minha bela". Era isso que significava. 
E esse no era exatamente o modo de chamar algum por quem voc sente simples
amizade. 
Pelo menos era o que eu esperava. 
Mas no dei a entender que sabia o significado da palavra, assim como no dei a entender que tinha notado que ele a deixara escapar.
- Voc est exagerando, Jesse. Craig no vai fazer nada com o irmo. Ele adora o cara. S parece que ainda no se lembrou disso. E, alm do mais, mesmo que no adorasse, 
mesmo que realmente tivesse intenes homicidas com relao ao Neil, o que faz voc achar subitamente que eu no posso cuidar disso? Quero dizer, qual , Jesse! 
At parece que eu no estou acostumada com fantasmas sedentos por sangue. 
Jesse ps o fone no gancho com tanta fora que eu pensei que ele tinha quebrado o plstico do aparelho. 
- Isso foi antes - disse ele rapidamente. 
Encarei-o. L fora tinha fica do escuro, e a nica luz no meu quarto era a pequenina, sobre a penteadeira. Em seu brilho dourado Jesse parecia ainda mais fantasmagrico 
do que o usual.
- Antes do qu? 
S que eu sabia. Eu sabia.
- Antes de ele chegar - disse Jesse, com uma certa quantidade de nfase amarga no pronome. - E no tente negar, Suzannah, voc no dormiu uma noite inteira desde 
ento. Eu vejo voc se revirando. Algumas vezes voc grita no sono. 
Eu no precisava perguntar quem era ele. Eu sabia. Ns dois sabamos. 
- Isso no  nada - falei, mesmo que, claro, no fosse verdade. Era alguma coisa. Era definitivamente alguma coisa. S que no o que Jesse aparentemente achava. 
- Quero dizer, no estou falando que no fiquei apavorada quando ns dois achamos que estvamos presos naquele ... lugar. E, , algumas vezes eu tenho pesadelos 
com isso. Mas vou superar, Jesse. Vou superar. 
- Voc no  invulnervel, Suzannah - disse Jesse franzindo a testa. - Por mais que pense que . 
Fiquei um bocado surpresa com o fato de ele ter notado. Na verdade, eu tinha comeado a me perguntar se isso talvez fosse porque eu no agia de modo suficientemente 
vulnervel - ou feminino, certo - para ele s ter me agarrado e beijado aquela vez, e nunca ter tentado de novo. 
S que, claro, assim que ele me acusou de ser vulnervel, eu precisava negar que isso fosse verdade. 
- Eu estou bem - insisti. No havia sentido em dizer a ele que Paul Slater quase tinha me causado um ataque cardaco. - Eu disse, eu j superei, Jesse. E mesmo que 
no tivesse superado, isso no vai me impedir de ajudar Craig. Ou Neil. 
Mas parecia que ele no estava escutando. 
- Deixe o padre Dominic cuidar desse. - Jesse olhou para a porta atravs da qual Craig tinha acabado de passar. Literalmente. - Voc ainda no est preparada.  
cedo demais. 
Nesse momento eu adoraria ter contado a ele sobre Paul... contado em tom casual, como se no fosse nada, para provar que era exatamente isso que significava para 
mim ... nada.
S que, claro, no era. E nunca seria. 
- Sua solicitude  apreciada, mas desnecessria - falei sarcstica para esconder o desconforto com aquilo tudo, com o fato de que estava mentindo para ele. No somente 
sobre Paul, mas sobre mim tambm. - Eu posso cuidar de Craig Jankow, Jesse. 
Ele franziu a testa de novo. Mas dessa vez dava para ver que Jesse estava realmente chateado. Se algum dia ns realmente namorssemos, eu sabia que seria necessrio 
assistir a um monte de programas da Oprah antes que Jesse superasse seu machismo do sculo XIX. 
- Eu vou pessoalmente contar ao padre Dominic - disse ele em tom ameaador, com os olhos escuros parecendo negros como nix  luz de minha penteadeira. 
- timo. Esteja  vontade.
O que no era o que eu queria dizer, claro. O que eu queria dizer era: Por que? Por que ns no podemos ficar juntos, Jesse? Eu sei que voc quer. Nem se incomode 
em negar. Eu senti quando voc me beijou. Posso no ter muita experincia nesse departamento, mas sei que no estou errada. Voc gosta de mim, pelo menos um pouquinho. 
Ento qual  o problema? Por que voc esteve me dando gelo desde aquele dia? POR QU? 
Qualquer que fosse o motivo,Jesse no iria revelar naquela hora. Em vez disso trincou o maxilar e disse: - timo, eu vou. 
- V - ataquei de volta.
Um segundo depois ele tinha sumido. Puf, assim. Bem, quem precisava dele? 
Certo. Eu. Admito. 
Mas tentei decididamente tir-lo da cabea. E me concentrei no dever de trigonometria. 
Ainda estava me concentrando nele quando chegou o quarto tempo de aula - laboratrio de informtica, para mim - no dia seguinte. Estou dizendo: no existe nada mais 
devastador para a capacidade de estudo de uma garota do que um fantasma bonito que acha que sabe tudo. 
Claro, eu deveria estar trabalhando num texto de quinhentas palavras sobre a Guerra Civil, que originalmente tinha sido passado para toda a 11 srie por nosso orientador, 
o Sr. Walden, que no tinha apreciado o comportamento de alguns de ns durante as indicaes para os cargos no diretrio estudantil naquela manh. 
Em particular, o Sr. Walden no tinha apreciado meu comportamento, quando depois de Kelly ter indicado Paul para vice-presidente e recebido a aprovao, Cee Cee 
levantou a mo e me indicou tambm para vice-presidente. 
- Ai - gritou Cee Cee quando eu lhe dei um chute, com fora, por baixo da carteira. - O que h de errado com voc? 
- Eu no quero ser vice-presidente - sibilei para ela. - Baixe o brao. 
Isso resultou em muitos risinhos, que s morreram quando o Sr. Walden, que jamais fora o professor mais paciente do mundo, jogou um pedao de giz na porta da sala 
e disse que era melhor todos ns colocarmos em dia o conhecimento sobre histria americana - quinhentas palavras sobre a Batalha de Gettysburg, para ser exato. 
Mas minha objeo chegou tarde demais. A indicao feita por Cee Cee foi confirmada por Adam, e aprovada um segundo depois, apesar de meus protestos. Agora eu estava 
concorrendo  vice-presidente da turma (Cee Cee era minha gerente de campanha, e Adam, cujo av tinha lhe deixado uma bela poupana, o principal colaborador financeiro) 
contra o aluno novo, Paul Slater, cujo modo blas e aparncia estonteante j haviam garantido quase todos os votos femininos da turma.
No que eu me importasse. No queria mesmo ser vice-presidente. J estava com as mos suficientemente ocupadas, com o negcio de ser mediadora, com a trigonometria 
e meu suposto namorado morto. No precisava me preocupar com poltica, alm disso tudo. 
No tinha sido uma boa manh. As indicaes j haviam sido bem ruins e trabalho passado pelo Sr. Walden foi um belo complemento. 
E, claro, ainda tinha o Paul. Ele havia piscado sugestivamente para mim na sala de reunies, como se para dizer ol. 
E se tudo isso no bastasse, eu tinha optado estupidamente por usar um sapatinho Jimmy Choo novo em folha, comprado por uma frao do preo normal numa ponta de 
estoque no vero. Era lindo, e combinava perfeitamente com a saia de brim Calvin Klein que eu tinha vestido com uma blusa de gola rul rosa-choque. 
Mas  claro que o sapato estava me matando. Eu j tinha bolhas dolorosas, em carne viva, em volta da base de todos os dedos, e os band-aids que a enfermeira tinha 
me dado para cobri-los, para ao menos cambalear entre as aulas, no estavam exatamente cumprindo seu papel. Meus ps pareciam a ponto de cair. Se eu soubesse onde 
Jimmy Choo morava, teria cambaleado direto at a porta dele e lhe dado um soco no olho. 
Por isso estava ali sentada no laboratrio de informtica, sem os sapatos e com os dedos latejando dolorosamente, trabalhando no dever de trigonometria quando deveria 
estar fazendo a redao, quando uma voz que eu tinha passado a conhecer to bem quanta a minha prpria me deu um susto dizendo, perto do ouvido: 
- Sentiu falta de mim, Suze?

Captulo 7

- Me deixa em paz - falei com mais calma do que sentia. 
- Ah, qual , Suze Simon - disse Paul, pegando uma cadeira ali perto, girando-a e depois montando nela. - Admita. Voc no me odeia tanto quanto diz. 
- Eu no apostaria nisso. - Bati o lpis no caderno, com o que esperava que fosse irritao mas que, na verdade, era tenso nervosa. - Olha, Paul, eu tenho muito 
trabalho para fazer ... 
Ele puxou o caderno das minhas mos. - Quem  Craig Jankow? 
Espantada, percebi que tinha rabiscado o nome na margem da folha. 
-Ningum. 
- Ah, isso  bom. Eu achei que talvez ele tivesse me substitudo no seu afeto. Jesse sabe? Quero dizer, sobre esse tal de Craig? 
Encarei-o irritada, esperando que ele confundisse meu medo com fria e fosse embora. Mas Paul no pareceu captar a mensagem. Eu esperava que ele no pudesse ver 
como minha pulsao estava batendo rpido na garganta ... ou que, se visse, no confundisse com alguma coisa que no era. Paul no ignorava sua boa aparncia, infelizmente. 
Estava usando jeans pretos que se ajustavam em todos os lugares certos e uma camisa plo verde-oliva, de mangas curtas. Ela fazia destacar a profundidade de seu 
bronzeado do tnis e do golfe. Dava para ver que as outras garotas no laboratrio de informtica - Debbie Mancuso, por exemplo - estavam espiando Paul especulativamente, 
depois olhavam de volta para os monitores, tentando fingir que no tinham ficado de olho nele h um minuto. 
Provavelmente ferviam de cime porque ele estava falando comigo, logo eu, a nica garota da turma que no deixava Kelly Prescott lhe dizer o que fazer e que no 
considerava Brad Ackerman um teso. 
Mal sabiam o quanto eu teria gostado se Paul Slater no tivesse me escolhido para me brindar com sua companhia. - Por acaso Craig est morto - sussurrei, s para 
o caso de algum estar ouvindo. 
- E da? - Paul riu para mim. - Eu achava que voc gostava deles. 
- Voc  insuportvel. - Tentei arrancar o caderno dele, mas ele o segurou fora do meu alcance.
Paul pareceu meditativo enquanto examinava os problemas da minha folha. 
- H algo a ser dito sobre se ter um namorado morto, acho - disse Paul. - Quero dizer, voc no precisa ficar apresentando-o aos pais, j que eles no podem v-lo 
mesmo ... 
- Craig no  meu namorado - sibilei, com raiva por me ver numa situao em que precisava explicar alguma coisa a Paul Slater. - Eu estou tentando ajud-lo. Ele 
apareceu na minha casa ontem ... 
- Ah, meu Deus. - Paul revirou seus olhos azuis expressivos. - No  outro daqueles casos de caridade do qual voc e o bom padre esto sempre falando ... 
Falei com alguma indignao: 
- Ajudar as almas perdidas a achar o caminho  o meu trabalho, afinal de contas. 
- Quem disse isso? Fiquei sem resposta. 
- Bem ... s ... s  - gaguejei. - Quero dizer, o que mais eu deveria fazer? 
Paul pegou um lpis numa mesa prxima e comeou a resolver, rpida e facilmente, os problemas da minha folha. 
- Fico imaginando. No me parece justo que entreguem a gente esse negcio de mediador no nascimento sem ao menos um contrato ou uma lista de benefcios. Quero dizer, 
eu nunca assinei um contrato para ser mediador. Voc assinou? 
- Claro que no - falei, como se isso no fosse uma coisa da qual eu reclamasse, com quase exatamente as mesmas palavras, sempre que via o padre Dominic. 
- E como voc sabe em que consistem as suas responsabilidades profissionais? Eu sei, voc acha que deve ajudar os mortos a ir para o seu destino final porque assim 
que faz isso eles param de pegar no seu p, e voc pode continuar com a vida. Mas eu tenho uma pergunta. Quem lhe disse que essa era a sua obrigao? Quem lhe disse 
como isso era feito, ao menos? 
Fiquei perplexa na hora. Ningum tinha me dito isso. 
- Bem, meu pai tinha dito, mais ou menos. E depois uma para-normal que minha melhor amiga, Gina, tinha me apresentado, na cidade onde nasci. E depois o padre Dom, 
claro ...
- Certo - disse Paul, venda pela minha expresso que aparentemente eu no tinha uma resposta direta. - Ningum lhe disse. Mas e se eu dissesse que sei? E se eu dissesse 
que descobri uma coisa, uma coisa que data dos primeiros tempos da comunicao escrita, que descrevia exatamente os mediadores, ainda que no fossem chamados assim 
na poca, e dizendo qual  o verdadeiro propsito deles, para no mencionar as tcnicas? 
Continuei perplexa diante dele. Paul parecia to ... bem, convincente. E certamente parecia sincero. 
- Se voc realmente tivesse alguma coisa assim - falei hesitante. - Acho que eu diria ... me mostre. 
- timo - disse Paul, parecendo satisfeito. - Venha hoje  minha casa depois das aulas, e eu mostro. 
Eu me levantei da cadeira to rpido que praticamente virei-a. 
- No - falei, pegando meus livros e agarrando-os com fora diante do corao que batia loucamente, como se quisesse ao mesmo tempo escond-lo e proteg-lo. - De 
jeito nenhum. 
- Hmmm. Foi o que pensei. Voc quer saber, mas no quer arriscar sua reputao. 
- No  com minha reputao que eu estou preocupada - informei, conseguindo manter a voz mais acida do que trmula. -  com minha vida. Voc tentou me matar uma 
vez,lembra? 
Falei essas palavras um pouco alto demais, e notei vrias pessoas me olhando curiosamente por cima dos monitores. 
Mas Paul s pareceu entediado. 
- No vem com isso de novo. Escute, Suze, eu lhe disse ... Bem, acho que no importa o que eu disse. Voc vai acreditar no que quiser. Mas, srio, voc poderia ter 
sado de l quando quisesse. 
- Mas Jesse no - rosnei. - Poderia? Graas a voc. 
- Bem - disse Paul dando de ombros, desconfortvel. 
- No. Jesse no. Mas, verdade, Suze, voc no acha que est exagerando? Puxa, qual  o problema? O cara j est morto ... 
- Voc  um porco - falei, com a voz trmula dando uma convico meio fajuta  declarao. 
Ento comecei a me afastar. Digo que comecei porque no fui muito longe antes que a voz calma de Paul me fizesse parar.
- Ah, Suze. Voc no est esquecendo alguma coisa? 
Virei a cabea para encar-lo furiosa. 
- Ah, quer dizer, eu me esqueci de dizer para voc no falar de novo comigo? Sim. 
- No - disse Paul com um sorriso torto. - Aqueles sapatos ali embaixo no so seus? - Ele apontou para os meus Jimmy Choo, sem os quais eu ia sair da sala. Como 
se a irm Ernestine no fosse ter um derrame cerebral se me visse andando descala pela escola. 
- Ah - falei, furiosa porque minha sada dramtica tinha sido estragada. - . - E voltei  mesa para enfiar os ps nos sapatos. 
- Antes de ir, Cinderela - disse Paul, ainda sorrindo -, talvez voc queira isto. - Ele estendeu meu dever de trigonometria. Dava para ver, com um nico olhar, que 
ele havia terminado tudo e, pelo que se podia presumir, sem erros. 
- Obrigada - falei, pegando o caderno, sentindo-me mais sem graa a cada segundo. Quero dizer, por que, exatamente, eu sempre perdia o controle com esse cara? , 
ele tinha tentado me matar, e matar o Jesse, uma vez. Pelo menos foi o que pensei. Mas ele ficava dizendo que eu estava errada. E se eu estivesse errada? E se Paul 
no fosse o monstro que eu sempre pensei? E se ele fosse ... 
E se ele fosse como eu? 
- E quanto a esse tal de Craig - acrescentou Paul. 
- Paul. - Deixei-me cair na cadeira ao lado dele. Eu tinha sentido o olhar da Sra. Tarentino, a professora designada para supervisionar o laboratrio de informtica, 
cravado em mim. Ficar se levantando e sentando de novo no laboratrio no era considerada uma coisa adequada, a no ser que voc estivesse indo  impressora e voltando. 
Mas esse no foi o nico motivo para eu ter me sentado de novo. Admito. Tambm estava curiosa. Curiosa com o que ele diria em seguida. E essa curiosidade era quase 
mais forte do que o meu medo. 
- Srio - falei - Obrigada. Mas no preciso da sua ajuda. 
- Acho que precisa. O que esse tal de Craig quer, afinal de contas? 
- O que todo fantasma quer - falei, cansada. - Estar vivo de novo.
- Bem, claro. Quero dizer, o que ele quer alm disso? 
- Ainda no sei - falei, dando de ombros. - Craig tem uma coisa com o irmo mais novo ... acha que ele  que deveria ter morrido. Jesse acha ... - parei de falar, 
subitamente consciente de que Jesse era a ltima pessoa sobre quem eu queria falar com Paul. 
Mas Paul pareceu apenas educadamente interessado. 
- Jesse acha o qu? 
Vi que era tarde demais para manter Jesse de fora. Suspirei e disse: 
- Jesse acha que Craig vai tentar matar o irmo. Voc sabe. Por vingana. 
- O que, claro, vai lev-lo exatamente a lugar nenhum - disse Paul, sem parecer nem um pouco surpreso. - Quando  que eles vo aprender? Agora, se ele quisesse ser 
o irmo, j seria diferente. 
- Ser o irmo? - Olhei-o com curiosidade. - O que voc quer dizer? 
- Voc sabe. - Paul deu de ombros. - Transferncia de alma. Ocupar o corpo do irmo. 
Isso era um pouco demais para uma manh de tera-feira. Quero dizer, eu j tivera uma noite pssima graas a esse cara. Depois, ouvir uma coisa assim sair de sua 
boca ... bem, s digamos que eu no estava num momento de inteligncia mxima, de modo que o que aconteceu depois no pode ser descrito como minha culpa. 
- Ocupar o corpo do irmo? - ecoei. Eu tinha baixado os livros at ficarem no meu colo. Agora estendi a mo e segurei os braos da cadeira do computador, com as 
unhas se cravando na espuma barata. - Do que voc est falando? 
Uma das sobrancelhas escuras de Paul subiu. 
- No soa familiar, hein? O que o bom padre andou ensinando a voc? No muito, aparentemente. 
- De que voc est falando? Como algum pode tomar o corpo de outro? 
- Eu lhe disse. - Paul se recostou na cadeira e cruzou as mos na nuca. - H um monte de coisas que voc no sabe em relao a ser um mediador. E muito mais que 
eu posso lhe ensinar, se voc me desse a chance.
Encarei-o. Realmente no fazia idia do que ele estava falando, com esse negcio de troca de corpo. Parecia algo do canal de fico cientfica na TV a cabo. E eu 
no tinha certeza se Paul estava s jogando conversa fora, alguma coisa, qualquer coisa, para conseguir que eu fizesse o que ele queria. 
Mas e se no estivesse? E se houvesse realmente um meio de ... 
Eu queria saber. Meu Deus, eu queria saber mais do que jamais quis alguma coisa na vida. 
- Certo - falei, sentindo o suor que tinha brotado nas palmas das mos, deixando os braos da cadeira escorregadios com a umidade. Mas no me importava. Meu corao 
estava na garganta, e mesmo assim eu no me importava. - Certo, eu vou  sua casa depois das aulas. Mas s se voc me contar sobre ... sobre isso. 
Alguma coisa relampejou nos olhos azuis de Paul. S um brilho, e eu o vi s por um momento antes de aquilo sumir de novo. Era uma coisa animalesca, quase feroz. 
Eu no podia dizer exatamente o que tinha sido. 
S soube que no minuto seguinte Paul estava sorrindo para mim - sorrindo, e no rindo. 
- timo - disse ele. - Eu pego voc no porto principal s trs. Esteja l na hora certa, seno eu vou embora sozinho.

Captulo 8

Claro que eu no ia me encontrar com ele. Quero dizer, apesar de amplas evidncias em contrrio, no sou estpida. No passado encontrei vrias pessoas em vrias 
situaes e me vi, horas depois, amarrada numa cadeira, jogada numa dimenso paralela, forada a vestir mais ou cruelmente maltratada de outras formas. No ia me 
encontrar com Paul Slater depois das aulas. No mesmo. 
E acabei indo. 
Bom, o que mais eu deveria fazer? A isca era forte demais. Quero dizer, provas documentadas sobre mediadores? Alguma coisa sobre pessoas poderem ocupar o corpo de 
outras? Nem todos os pesadelos sobre corredores compridos e cheios de nvoa do mundo iriam me impedir de finalmente descobrir a verdade sobre o que eu era e o que 
podia fazer. Tinha passado muitos anos imaginando exatamente isso, para deixar uma oportunidade dessas escapar entre os dedos. Diferente do padre Dominic, eu nunca 
fui capaz de meramente aceitar as cartas que vinham para a minha mo... Queria saber por que tinham sido dadas a mim, e como. Tinha de saber. 
E se, para descobrir, eu tivesse de passar um tempo com algum que regularmente assombrava meu sono, que fosse. Valia o sacrifcio. 
Ou pelo menos eu esperava que valesse. 
Adam e Cee Cee no ficaram contentes com isso, claro. 
Quando terminou a ltima aula do dia, eles me encontraram no corredor - eu estava mancando visivelmente, graas aos meu sapatos, mas Cee Cee no notou. Estava ocupada 
demais consultando a lista que tinha feito na aula de biologia. 
- Certo - disse ela. - Temos de ir direto ao Safeway para comprar pinceis atmicos, purpurina, cola e papelo. Adam, sua me ainda tem aquelas tachas na garagem, 
de quando ela fez aquele curso de estofamento Amish? Porque a gente poderia us-las para os cartazes pedindo votos para Suze. 
- Ah ... - falei, mancando ao lado deles. - Pessoal. 
- Suze, ns podemos levar as coisas  sua casa, para montar? Acho que a gente poderia levar  minha casa, mas vocs conhecem minhas irms. Elas provavelmente vo 
passar de patins por cima.
- Pessoal- falei. - Olha. Eu agradeo isso, e tudo o mais. De verdade. Mas no posso ir com vocs.
J tenho planos. 
Adam e Cee Cee trocaram olhares. 
- ? - perguntou Cee Cee. - Vamos encontrar o misterioso Jesse, ? 
- Ahn. No exatamente... 
Nesse momento Paul passou por ns no corredor. Ele me disse, notando que eu estava mancando: 
- Deixa que eu trago o carro at a porta do lado. Assim voc no tem de andar at o porto. - E foi andando. 
Adam me deu um olhar escandalizado.
- Confraternizando com o inimigo! - exclamou ele. - Que vergonha, moa! 
Cee Cee estava igualmente perplexa. 
- Voc vai sair com ele? - Ela balanou a cabea de modo que os cabelos branco-louros e lisos brilharam. - E Jesse? 
- Eu no vou sair com ele - falei desconfortavelmente. - Ns s ... estamos trabalhando num projeto juntos. 
- Que projeto? - Os olhos de Cee Cee ficaram estreitos por trs das lentes dos culos. - Para que aula? 
- ... - Eu troquei o peso de um p para o outro, esperando algum alvio dos sapatos cruis, sem soluo. - No  para a escola.  mais para ... para ... a igreja. 
No momento em que a palavra me saiu da boca eu soube que tinha cometido um erro. Cee Cee no se importaria de ficar sozinha com Adam - de fato, ela provavelmente 
adoraria - mas no iria me deixar escapar sem um bom motivo. 
- Igreja? - Cee Cee parecia furiosa. - Voc  judia, Suze, para o caso de eu ter de lembrar. 
- Bem, tecnicamente, no. Quero dizer, meu pai era, mas minha me no  ... - Uma buzina soou logo atrs do porto ornamentado perto do qual ns estvamos. - Epa, 
 o Paul. Tenho de ir. Desculpe. 
Ento, andando bastante rpido para uma garota que sentia pontadas de dor subindo pelas pernas a cada passo, fui at o conversvel de Paul e subi no banco do carona 
com alvio por estar sentada de novo, sentindo que finalmente iria descobrir uma ou duas coisas sobre quem - ou o qu - eu realmente era ...
Mas tinha um sentimento igualmente forte de que no gostaria do que iria descobrir. De fato, parte de mim se perguntava se eu no estaria cometendo o pior erro da 
minha vida. 
No ajudou muito o fato de Paul, com os culos escuros e o sorriso fcil, parecer um astro de cinema. Verdade, como  que eu podia ter tantos pesadelos com esse 
cara que era claramente o sonho de qualquer garota normal? No deixei de notar os olhares de inveja lanados na minha direo, vindos de todo o estacionamento. 
- Por acaso eu mencionei - perguntou Paul, enquanto eu prendia o cinto de segurana - que acho esses sapatos uma coisa? 
Engoli em seco. Eu nem sabia o que ele queria dizer. S podia presumir, por seu tom de voz, que era algo bom. 
Eu realmente queria fazer isso? Valia a pena? 
A resposta veio l do fundo ... to fundo que eu percebi que sabia o tempo todo: Sim. Ah, sim. 
- S dirija - falei, com a voz saindo mais rouca do que o normal, porque eu estava tentando no demonstrar o nervosismo. 
E ele dirigiu. 
A casa aonde me levou era uma impressionante construo de dois andares, na lateral de um penhasco perto da praia de Carmel. Era feita quase toda de vidro, para 
aproveitar a vista do oceano e do pr-do-sol. 
Paul pareceu notar que eu estava impressionada, j que disse: 
-  do meu av. Ele queria uma casinha na praia para a aposentadoria. 
- Certo - falei, engolindo em seco. A "casinha" do vov Slater na praia devia ter custado uns cinco milhes de dlares. - E ele no se incomoda em ter algum dividindo 
o espao de repente? 
- Est brincando? - Paul deu um risinho enquanto estacionava o carro numa das vagas da garagem para quatro veculos. - Ele mal sabe que eu estou aqui. O cara vive 
cheio de remdios o tempo todo. 
- Paul - falei, desconfortvel.
- O qu? - Paul piscou para mim por trs de seus Ray - Bans. - Eu s estou declarando um fato. O velho praticamente vive na cama, e deveria estar num equipamento 
de suporte a vida, mas fez uma tremenda confuso quando ns tentamos lev-lo para uma clnica. Ento, quando eu sugeri me mudar para ficar de olho nas coisas, meu 
pai concordou.  uma situao sem lado ruim. O velho pode ficar em casa - com enfermeiros para cuidar dele, claro - e eu posso freqentar a escola dos meus sonhos, 
a Academia da Misso. 
Senti o rosto esquentar, mas tentei manter o tom de voz leve. 
- Ah, ento seu sonho  freqentar uma escola catlica? 
- , se voc estiver l - disse Paul em tom igualmente leve ... mas no to sarcstico. 
Meu rosto ficou imediatamente vermelho como um sorvete com calda de morango. Mantendo-o virado para Paul no notar, falei com afetao: 
- No acho isso uma boa idia, afinal de contas. 
- Relaxa, garota. O enfermeiro do velho est aqui, para o caso de voc ... sabe ... sofrer de alguma dvida feminina sobre ficar sozinha em casa comigo. 
Segui a direo em que Paul estava apontando. No fim de uma entrada de veculos circular estava um Toyota Celica enferrujado. No falei nada, principalmente porque 
estava meio pasma com a facilidade com que Paul parecia ter lido minha mente. Eu estivera ali sentada, sofrendo de dvidas sobre a coisa toda. No havia exatamente 
levantado o assunto com meus pais, mas tinha certeza de que no tinha permisso de ir  casa de algum cara enquanto os pais dele no estivessem l. 
Por outro lado, se nesse caso eu no fosse, nunca descobriria o que precisava descobrir - e agora estava convencida de que essa era uma coisa de que eu realmente 
precisava. 
Paul saiu de trs do volante e rodeou at o meu lado do carro, abrindo a porta para mim. 
- Voc vem, Suze? - perguntou quando eu no me mexi para tirar o cinto de segurana. 
- Ah - falei, olhando nervosa para a grande casa de vidro. Ela parecia perturbadoramente vazia, apesar do Toyota.
Paul pareceu ler meu pensamento de novo. 
- Quer parar com isso, Suze? - disse ele, revirando os olhos. - Sua virtude no corre perigo da minha parte. Juro que vou manter as mos longe de voc. Isto aqui 
so negcios. Mais tarde haver bastante tempo para diverso. 
Tentei dar um sorriso tranqilo, para ele no suspeitar de que no estou acostumada a que as pessoas - certo, os caras - me digam esse tipo de coisa todo dia. Mas 
a verdade  que, claro, no estou. E fiquei incomodada com o modo como isso fez com que eu me sentisse quando Paul disse. Puxa, eu nem gostava do cara, mas a cada 
vez que ele dizia algo assim - sugerindo que me achava, no sei, especial, isso me lanava um arrepio pela coluna ... e no era uma coisa ruim. 
Era isso. No era uma coisa ruim. Que negcio era esse? 
Puxa, eu nem gosto do Paul. Estou totalmente apaixonada por outro. E, , Jesse atualmente no d sinais de compartilhar meus sentimentos, mas no  por causa disso 
que, de repente, eu vou comear a sair com Paul Slater ... no importa o quanto ele seja lindo com seu Ray-Ban. 
Sa do carro. 
- Deciso sabia - comentou Paul, fechando a porta do veculo. 
Havia uma espcie de sensao definitiva na batida daquela porta. Tentei no pensar no que podia estar entrando enquanto seguia Paul pelos degraus de cimento at 
a larga porta de vidro da casa de seu av, descala, com os Jimmy Choos numa das mos e a bolsa de livros na outra. 
Dentro da casa dos Slater estava fresco e silencioso ... to silencioso que no dava para ouvir as ondas batendo a menos de trinta metros abaixo. Quem quer que tivesse 
decorado aquele lugar tinha um gosto que tendia para o moderno, de modo que tudo parecia liso, novo e desconfortvel. A casa, eu imaginei, devia ser glida de manh, 
quando a nvoa chegava, j que tudo nela era feito de vidro ou metal. Paul me guiou por uma escada circular, de ao, que ia da porta da frente at a cozinha hi-tech, 
onde todos os instrumentos brilhavam agressivamente.
- Coquetel? - perguntou ele, abrindo a porta de vidro de um armrio de bebidas. 
- Muito engraado. S gua, por favor. Onde est seu av? 
- No fim do corredor - disse Paul enquanto pegava duas garrafas d'gua com grife, na enorme geladeira Sub-Zero. Ele devia ter notado meu olhar nervoso por cima do 
ombro, porque acrescentou: - V dar uma olhada, se no acredita. 
Fui dar uma olhada. No que eu no confiasse nele ... bem, certo, era isso. Mas teria sido muita ousadia dele mentir sobre uma coisa que eu poderia verificar to 
facilmente. E o que eu faria se o av dele no estivesse ali? Quero dizer, de jeito nenhum eu iria embora antes de descobrir o que tinha vindo saber. 
Felizmente parecia que eu no precisaria ir embora. Ao ouvir alguns sons fracos, segui-os at um longo corredor de vidro, at chegar a um cmodo em que havia uma 
televiso widescreen, ligada. Diante do aparelho estava um homem muito velho numa cadeira de rodas de aparncia muito hi-tech. Ao lado da cadeira de rodas, numa 
cadeira moderna que parecia muito desconfortvel, estava um cara meio novo, com uniforme azul de enfermeiro, lendo uma revista. Ele ergueu os olhos quando eu apareci 
na porta e sorri. 
- Oi - disse ele. 
- Oi - falei de volta, e entrei hesitante no quarto. Era um belo quarto, com uma das melhores vistas da casa, pelo que imaginei. Tinha sido mobiliado com uma cama 
hospitalar, com equipamento de soro, estrutura ajustvel e estantes de metal onde havia molduras e mais molduras com retratos. Principalmente fotos em preto-e-branco 
de pessoas dos anos 1940, a julgar pelas roupas. 
- Hm - falei ao velho na cadeira de rodas. - Oi, Sr. Slater. Eu sou Suzannah Simon. 
O velho no disse nada. Nem afastou o olhar do programa de perguntas e respostas que passava diante dele. Era quase totalmente careca e coberto de manchas de velhice, 
e estava babando um pouco. O enfermeiro notou isso e se inclinou com um leno para enxugar a boca do velho.
- Olha s, Sr. Slater - disse o enfermeiro. - A moa bonita disse oi. O senhor no vai dizer oi tambm? 
Mas o Sr. Slater no falou nada. Em vez disso, Paul, que tinha entrado no quarto atrs de mim, falou: 
- Como vo as coisas, vov? Teve outro dia emocionante diante da tela? 
O Sr. Slater no deu sinal de notar Paul tambm. O enfermeiro disse: 
- Ns tivemos um dia bom, no tivemos, Sr. Slater? Demos uma bela volta no quintal dos fundos, ao redor da piscina, e colhemos uns limes. 
- Fantstico - disse Paul com entusiasmo forado. Depois pegou minha mo e comeou a me arrastar para fora do quarto. Admito que ele no puxou com fora. Eu estava 
achando aquilo bem assustador, e sa de boa vontade. O que diz muito, considerando como me sentia com relao a Paul e tudo mais. Quero dizer, o fato de haver algum 
que me assustasse mais do que ele. 
- Tchau, Sr. Slater - falei, sem esperar resposta ... o que foi uma boa coisa, j que no recebi nenhuma. 
No corredor, perguntei em voz baixa: 
- O que h com ele? Alzheimer? 
- No - disse Paul, entregando-me uma das garrafas d'gua azul-escuras. - Os mdicos no sabem exatamente. Ele fica bastante lcido, quando quer. 
- Verdade? - Eu achei difcil acreditar. Em geral as pessoas lcidas conseguem manter controle sobre a prpria saliva. - Talvez ele s esteja ... voc sabe. Velho. 
-  - disse Paul com outro de seus caractersticos sorrisos amargos. - Provavelmente  isso mesmo. - Depois, sem elaborar mais, abriu uma porta  direita e disse: 
- aqui. O que eu queria mostrar a voc. 
Segui-o at o que, claramente, era seu quarto. Era umas cinco vezes maior do que o meu - e a cama de Paul era umas cinco vezes maior do que a minha. Como o resto 
da casa, tudo era muito liso e moderno, com muito metal e vidro. Havia at uma mesa de vidro - ou Plexiglas, provavelmente - onde estava um laptop de ltima gerao, 
novo em folha.
No quarto de Paul no havia nenhuma coisa do tipo pessoal que sempre parecia estar espalhada no meu como revistas, meias sujas, esmalte de unha ou caixas de biscoitos 
Girl Scout meio comidos. Era como um quarto de hotel muito moderno, muito frio.
- Est aqui - disse Paul, sentando-se na beira da cama do tamanho de um barco. 
-  - falei, agora mais amedrontada do que nunca ... e no somente porque Paul estava batendo no espao vazio ao seu lado no colcho. No, tambm era o fato de que 
a nica cor no quarto, alm da roupa que Paul e eu estvamos usando, era o que eu podia ver pelas enormes janelas panormicas: o cu azul, azul, e abaixo o mar azul 
mais escuro. - Claro que sim. 
- Estou falando srio - disse Paul, e parou de bater no colcho como se quisesse que eu sentasse ao lado. Em vez disso enfiou a mo debaixo da cama e puxou uma caixa 
de plstico transparente, do tipo em que a gente guarda suteres de l durante o vero. 
Depois de pr a caixa ao lado dele na cama, Paul tirou a tampa. Dentro havia o que parecia uma quantidade de artigos de jornais e revistas, todos cuidadosamente 
recortados. 
- Verifique estes - disse Paul, desdobrando cuidadosamente um antiqssimo artigo de jornal e abrindo-o sobre a colcha cinza-ardsia para que eu visse. Era do Times 
de Londres, e datava de 18 de junho de 1952. Havia a foto de um homem parado diante do que parecia a parede de um tmulo egpcio, cheio de hierglifos. A manchete 
sobre a foto e a matria dizia: "Teoria de arquelogo  zombada pelos cticos." 
- O Dr. Oliver Slaski -  esse cara da foto - trabalhou anos para traduzir o texto na parede do tmulo de Tutancamon - explicou Paul. - Ele chegou  concluso de 
que no Egito antigo havia um pequeno grupo de xams que tinham capacidade de viajar ao reino dos mortos sem, de fato, morrer. Esses xams eram chamados, pelo que
o Dr. Slaski pode traduzir, de deslocadores.
Eles podiam se deslocar deste plano da existncia ao prximo e eram contratados pela famlia dos mortos como guias para os espritos, para garantir que seus entes 
queridos terminassem onde deveriam, em vez de ficar andando sem objetivo pelo planeta. 
Eu tinha me sentado na cama enquanto Paul falava, de modo a olhar melhor a foto que ele estava indicando. Antes estivera hesitando em fazer isso - realmente no 
queria ficar perto de Paul, especialmente considerando a coisa da cama e tudo. 
Mas agora mal percebia como estvamos sentados perto. 
Inclinei-me para a frente, para olhar a foto, at meu cabelo roar no papel rachado e amarelo. 
- Deslocadores - falei, atravs de lbios que tinham ficado estranhamente frios, como se tivesse posto Carmex neles. S que no tinha. - O que ele queria dizer era 
mediadores. 
- No acho. 
- No - falei. Estava me sentindo meio sem flego. Bem, voc tambm ficaria, se durante toda a vida tivesse imaginado por que era to diferente de todo mundo que 
conhecia, e de repente, um dia, descobrisse. Ou pelo menos encontrasse alguma pista muito importante. -  exatamente isso que significa, Paul - exclamei. - O arcano 
nove do baralho do tar, o eremita, mostra um velho segurando uma lanterna, como esse cara est fazendo - falei, indicando o sujeito no hierglifo. - Ele sempre 
aparece quando minhas cartas so lidas. E o eremita  um guia espiritual, algum que supostamente leva os mortos ao seu destino. E certo, o cara nos hierglifos 
no  velho, mas os dois esto fazendo a mesma coisa ... Ele certamente quer dizer mediadores, Paul - falei, com o corao martelando contra as costelas. Aquilo 
era grande. Realmente grande. O fato de haver provas documentadas da existncia de pessoas como eu ... eu nunca esperava ver uma coisa dessas. Mal podia esperar 
para contar ao padre Dominic. - Tem de ser isso.
- Mas no  s isso que eles eram, Suze - disse Paul, enfiando a mo de novo na caixa de acrlico e pegando um mao de papis, tambm amarelados pelo tempo. - Segundo 
Slaski, que escreveu esta tese a respeito, no Egito antigo havia os mdiuns comuns, ou, se voc prefere, os mediadores. Mas tambm havia deslocadores. E isso - disse 
Paul, me olhando intensamente do outro lado da cama, mas no muito longe, j que estvamos inclinados, separados apenas por uns trinta centmetros, com as pginas 
da tese do Dr. Slaski entre ns -  o que voc e eu somos, Suze. Deslocadores. 
De novo senti o arrepio. Que subiu e desceu pela minha coluna, fez os plos do meu brao ficarem de p. No sei o que era - a palavra, deslocadores, ou o modo como 
Paul dizia. Mas aquilo teve um efeito em mim ... um tremendo efeito. Como enfiar o dedo num bocal de lmpada. 
Balancei a cabea e falei numa voz de pnico: 
- No. Eu, no. Eu sou apenas uma mediadora. Quero dizer, se eu fosse uma deslocadora, no teria de me exorcizar daquela vez ... 
- Voc no precisava ter feito isso - interrompeu Paul, com a voz profunda e calma, comparada ao guincho agudo em que a minha havia se transformado. - Voc poderia 
ter entrado l e sado sozinha, apenas visualizando o lugar. Podia fazer isso agora mesmo, se quisesse. 
Meu queixo caiu. Acima das pginas da tese do Dr. Slaski, notei que os olhos de Paul estavam muito brilhantes. Quase pareciam luzir como olhos de gato. No dava 
para saber se ele estava dizendo a verdade ou simplesmente tentando mexer com minha cabea. Conhecendo Paul, nenhuma das hipteses teria me surpreendido. Ele parecia 
sentir prazer em falar as coisas bruscamente e depois ver como a pessoa - certo, como eu - reagia. 
- De jeito nenhum - foi como reagi  sua sugesto de que eu era alguma coisa alm do que sempre pensei. Ainda que o motivo para eu estar em seu quarto fosse porque, 
no fundo, sabia que no era. 
- Tente - insistiu Paul. - Visualize na cabea. Voc sabe como  o lugar agora.
 Claro que sabia. Graas a ele eu tinha ficado presa l durante os 15 minutos mais longos de minha vida. Ainda estava presa l, toda noite, nos sonhos. Mesmo agora 
podia ouvir o corao martelando nos ouvidos enquanto percorria aquele corredor longo e escuro, com a nvoa em redemoinhos e depois se dividindo em volta das minhas 
pernas. Ser que Paul realmente achava que, mesmo por um segundo, eu quereria visitar aquele lugar de novo? 
- No - falei. - No, obrigada ... o sorriso de Paul ficou maroto. 
- No diga que Suze Simon tem medo de alguma coisa. 
- Seus olhos pareciam brilhar mais do que nunca. - Voc sempre age como se fosse imune ao medo, assim como algumas pessoas so imunes  catapora. 
- Eu no estou com medo - menti com indignao fingida. - S no estou com vontade de ... como  que se chama mesmo? Ah, , me deslocar agora. Talvez mais tarde. 
Neste momento quero perguntar sobre a outra coisa que voc falou. A coisa de quando algum toma conta do corpo de outra pessoa. Transferncia de alma. 
O sorriso de Paul ficou mais largo. 
- Eu achei que isso atrairia sua ateno. 
Eu sabia a que ele estava se referindo - ou pensei que sabia, pelo menos. Podia sentir o rosto ficando quente. Mas ignorei as bochechas incandescentes e disse, com 
o que esperava que parecesse uma indiferena tranqila: 
- Parece interessante.  mesmo possvel? - Segurei as pginas amarrotadas da tese que estava entre ns. - O Dr. Slaski fala disso? 
- Talvez - disse Paul, pondo a mo sobre as folhas datilografadas de modo que eu no pudesse levant-las. 
- Paul - falei, puxando as folhas. - S estou curiosa. Quero dizer, voc j fez isso? Funciona mesmo? Craig realmente poderia tomar o corpo do irmo? 
Mas Paul no queria largar os papis do Dr. Slaski. 
- Mas no  por causa de Craig que voc est perguntando, ? - Seus olhos azuis se cravaram em mim. No havia mais a menor sugesto de sorriso em seu rosto. - Suze, 
quando voc vai entender?
Foi ento que finalmente notei como seu rosto estava perto do meu. S a centmetros de distncia. Comecei instintivamente a me afastar, mas os dedos que tinham segurado 
os papis do Dr. Slaski subitamente se levantaram e seguraram meu pulso. Olhei a mo de Paul. Sua pele bronzeada parecia muito escura em contraste com a minha. 
- Jesse est morto - disse Paul. - Mas isso no significa que voc precise agir como se tambm estivesse. 
- Eu no ajo - protestei. - Eu ... 
Mas no consegui terminar meu pequeno discurso, porque bem no meio dele Paul se inclinou e me beijou.

Captulo 9

No vou mentir para voc. Foi um beijo bom. Senti at nos coitados dos dedos dos ps cheios de bolhas.
O que no quer dizer que devolvi o beijo. Definitivamente no ... 
Bem, certo. Pelo menos no muito. 
Foi s que, voc sabe, Paul beijava muito bem. E eu no era beijada h muito tempo. Era bom saber que algum, pelo menos, me queria. Mesmo que esse algum fosse 
uma pessoa que eu desprezava. Ou pelo menos algum que eu tinha bastante certeza de que desprezava. 
A verdade  que foi meio difcil lembrar se eu desprezava Paul ou no. Pelo menos enquanto ele me beijava de modo to completo. Quero dizer, no  todo dia - infelizmente 
- que h um gato me agarrando e me beijando. Na verdade isso s havia acontecido um punhado de vezes. 
E quando Paul Slater fez isso ... bem, s digamos que a ltima coisa que eu esperava era gostar disso. Puxa, era o mesmo cara que tinha tentado me matar no fazia 
muito tempo ... 
S que agora ele estava dizendo que isso no era verdade, que eu nunca tinha corrido perigo. 
Mas eu sabia que era mentira. Estava correndo bastante perigo - no de ser morta, mas de perder completamente a cabea por um cara que era ruim para mim em todos 
os sentidos e ainda pior para o cara que eu amava. Porque era exatamente assim que Paul Slater me deixava sentindo. Como se fosse capaz de fazer qualquer coisa - 
qualquer coisa - para ser beijada por ele mais um pouco. 
O que era simplesmente errado. Porque eu no estava apaixonada por Paul Slater. Certo, o cara por quem eu estava apaixonada ... 
a) estava morto, e 
b) aparentemente no tinha um interesse real num relacionamento comigo. 
Mas isso no significava que eu achasse que podia me jogar em cima do primeiro gostoso que por acaso aparecesse. Quero dizer, uma garota tem de ter princpios ... 
Como o de se guardar para o cara de quem ela gosta de verdade, mesmo que por acaso ele seja estpido demais para perceber que os dois so perfeitos um para o outro.
Assim, mesmo que o beijo de Paul tivesse feito com que eu sentisse vontade de passar o brao pelo seu pescoo e beij-lo de volta - o que, no calor do momento, eu 
posso ter feito ou no - isso teria sido errado, errado, ERRADO. 
Por isso tentei me afastar. 
S que deixa eu dizer: lembra aquela mo segurando o meu pulso? Era como ferro. Ferro. 
E pior ainda, graas a eu t-lo encorajado devolvendo o beijo um pouquinho, metade de seu corpo terminou em cima do meu, pressionando-me na cama e provavelmente 
amarrotando tremendamente a tese do Dr. Slaski. Sabia que aquilo no estava sendo nada bom para a minha saia Calvin Klein. 
Ento eu estava com uns oitenta quilos de um cara de 17 anos em cima de mim, o que, voc sabe, no  nenhum piquenique, quando no  o cara que voc quer que esteja 
em cima de voc. Ou mesmo que seja, mas com voc fazendo o maior esforo para permanecer fiel a outro ... a algum que, pelo que voc saiba, nem mesmo a quer. Mas 
tanto faz. 
Consegui afastar os lbios dos de Paul por tempo suficiente para dizer numa espcie de voz estrangulada, j que ele estava esmagando meus pulmes: 
- Me larga. 
- Qual , Suze. No diga que voc no esteve pensando nisso durante toda a tarde - disse ele num tom de voz que, sinto muito dizer, pareceu carregado. De paixo. 
Ou pelo menos de alguma coisa. Lamento ainda mais dizer que aquele som empolgou cada nervo do meu corpo. Puxa, aquela paixo era por mim. Eu, Suze Simon, sobre quem 
nenhum cara j havia se sentido to passional. Pelo menos que eu soubesse. 
- Na verdade - falei satisfeita em poder responder sendo sincera. - Na verdade, no. Agora saia de cima de mim. 
Mas Paul s continuou me beijando - no na boca, porque eu tinha virado a cabea totalmente para o lado, mas no pescoo e, num determinado momento, numa parte da 
minha orelha.
- Isso tem a ver com o negcio do diretrio estudantil? - perguntou ele entre os beijos. - Porque eu no ligo a mnima para ser vice-presidente da sua turma estpida. 
Se est furiosa com isso, basta dizer, e eu abandono a disputa. 
- No, isso no tem nada a ver com o negcio do diretrio - falei, ainda tentando arrancar o pulso dos dedos dele e tambm manter o pescoo longe de sua boca. Seus 
lbios pareciam ter um efeito curioso na pele da minha garganta. Faziam com que ela parecesse pegar fogo. 
- Ah, meu Deus. No  o Jesse, ? - Eu podia sentir o gemido de Paul reverberar por todo o meu corpo. - Desista, Suze. O cara est morto. 
- Eu no disse que tinha alguma coisa a ver com Jesse. - Eu parecia na defensiva, mas no me importei. - Voc me ouviu dizendo que tinha alguma coisa a ver com o 
Jesse? 
- No precisava. Est escrito em seu rosto. Suze, pense bem. Aonde a coisa iria dar, com esse cara? Quero dizer, voc vai ficar mais velha e ele vai continuar exatamente 
com a idade que tinha quando bateu as botas. E mais, ele vai levar voc ao baile de formatura? E ao cinema? Vocs vo ao cinema juntos? Quem dirige o carro? Quem 
paga? 
Agora eu estava realmente furiosa com ele. Mais porque Paul estava certo, claro, do que por qualquer outra coisa. E tambm porque ele estava presumindo que Jesse 
ao menos compartilhava meus sentimentos, o que, infelizmente, eu sabia no ser verdadeiro. Por que outro motivo ele ficaria longe de mim com tanta assiduidade nessas 
ltimas semanas? 
Ento Paul enfiou a faca mais fundo. 
- Alm disso, se os dois fossem realmente certos um para o outro, voc ao menos estaria aqui? E estaria me beijando como beijou h um minuto? 
Isso deu resultado. Agora eu estava furiosa. Porque ele estava certo. Era verdade. Ele estava certo. 
E isso partiu o meu corao. Pior do que Jesse j havia feito. 
- Se voc no me largar - falei com os dentes trincados -, eu vou enfiar o dedo no seu olho. 
Paul deu um risinho. Mas notei que ele parou de rir quando meu polegar apertou o canto de seu olho.
- Ai! - gritou ele, rolando depressa para longe de mim. - Que diab ... 
Eu estava de p e fora da cama mais rpido do que voc poderia falar atividade paranormal. Peguei os sapatos, a bolsa e o que restava de minha dignidade e me mandei. 
- Suze! - gritou Paul do quarto. - Volta aqui! Suze! 
No prestei ateno. Continuei correndo. Passei pelo quarto do av - ele ainda estava assistindo  uma velha reprise de Family Feud - depois desci a escada circular 
at a porta da frente.
E teria conseguido chegar se um Hell's Angel de 150 quilos no tivesse se materializado subitamente entre mim e a porta.
Isso mesmo. Num minuto meu caminho estava livre, e no outro estava bloqueado por Bob Motoqueiro. Ou devo dizer, pelo fantasma de Bob Motoqueiro.
- Epa - falei enquanto quase trombava com ele. O cara tinha bigode virado para cima e braos muito tatuados, cruzados diante do peito. Alm disso estava (e eu no 
deveria ter de dizer) muito morto. - De onde voc veio? 
- No importa, mocinha - disse ele. - Acho que o Sr. Slater ainda quer trocar uma palavrinha com voc. 
Ouvi passos no alto da escada e olhei. Paul estava l, ainda com uma das mos sobre o olho. 
- Suze - disse ele. - No v. 
- Capangas? - gritei para ele, incrdula. - Voc tem capangas fantasmas para cumprir suas ordens? O que voc ? 
- Eu j disse. Sou um deslocador. Voc tambm. E voc est exagerando com relao a isso tudo. No podemos simplesmente conversar, Suze? juro que vou manter as mos 
longe de voc. 
- Onde foi que eu ouvi isso antes? 
Ento, quando Bob Motoqueiro deu um passo ameaador na minha direo, eu fiz a nica coisa que, nas circunstncias, achei que poderia fazer. Levantei um dos meus 
Jimmy Choos e bati na cabea do cara. 
Tenho certeza de que esse no  o objetivo para o qual o Sr. Choo desenhou aquele sapato especfico. Com um Bob Motoqueiro muito surpreso e incapacitado, foi apenas 
uma questo de empurr-lo fora do caminho, abrir a porta e correr feito uma doida. Coisa que fiz, com o maior entusiasmo.
Eu estava disparando pela comprida escada de cimento que ia da porta de Paul at a entrada de veculos quando o ouvi gritando: 
- Suze! Suze, volte! Desculpe o que eu falei sobre o Jesse. No foi a srio. 
Virei-me na entrada de veculos, para encar-lo. Lamento dizer que respondi  sua declarao fazendo um gesto grosseiro com o dedo.
- Suze. - Paul tinha tirado a mo do rosto, de modo que pude ver que seu olho no estava pendurado fora da rbita, como eu esperava. S parecia vermelho. - Pelo 
menos me deixe levar voc para casa. 
- No, obrigada - gritei, parando para calar os Jimmy Choos. - Prefiro ir andando. 
- Suze. So uns oito quilmetros daqui  sua casa. 
- Nunca mais fale comigo, por favor - falei, e comecei a andar, esperando que ele no tentasse vir atrs. Porque, claro, se ele viesse, e se tentasse me beijar de 
novo, havia uma chance muito boa de que eu retribusse o beijo. Agora eu sabia disso. Sabia muito bem. 
Ele no me seguiu. Desci por sua entrada de veculos e sai na estrada diante do mar (criativamente chamada de Scenic Drive) com o que restava de minha auto-estima 
mais ou menos intacta. S quando estava fora das vistas da casa de Paul eu arranquei os sapatos e disse o que queria dizer durante todo o tempo em que estava me 
afastando com o mximo de altivez que pude. E que foi: 
- Ai, ai, ai!
Sapatos idiotas. Meus dedos estavam em frangalhos. De jeito nenhum eu poderia andar com aqueles calados torturadores. Pensei em jog-los no mar, o que teria sido
fcil, considerando que o oceano estava abaixo de mim. 
Por outro lado os sapatos custavam seiscentas pratas. 
Admito que tinha comprado par uma frao disso, mas mesmo assim. A viciada em compras que havia em mim no permitiria um gesto to disparatado. 
Ento, segurando os sapatos, comecei a descer descala at a estrada, mantendo a ateno para pedaos de vidro ou qualquer planta espinhenta que pudesse estar crescendo 
ao lado da pista.
Paul estivera certo com relao a uma coisa: era uma caminhada de oito quilmetros da casa dele at a minha. Pior, era cerca de um quilmetro e meio da casa dele 
at a primeira estrutura comercial onde eu talvez achasse um telefone pblico, do qual poderia sair ligando por a, para conseguir algum que me pegasse. Acho que 
eu poderia ir at uma das casas enormes dos vizinhos de Paul, tocar a campainha e pedir para usar o telefone. Mas isso seria embaraoso demais, no ? No, um telefone 
pblico. Era disso que eu precisava. E logo acharia um. 
S havia uma falha real no meu plano: o clima. Ah, no me entenda mal. Era um lindo dia de setembro. No havia uma nuvem no cu. 
Esse era o problema. O sol batia implacavelmente sobre a Scenic Drive. Devia fazer pelo menos trinta e poucos graus - ainda que a brisa fresca do mar no deixasse 
parecer desconfortvel. Mas o pavimento sob os ps descalos no era afetado pela brisa. A rua, que parecera confortavelmente quente sob as solas dos ps quando 
sai disparada da casa muito fria de Paul, na verdade estava quentssima. Queimando. Tipo capaz de fritar um ovo. 
No havia nada que eu pudesse fazer a respeito, claro. 
No podia pr os sapatos de volta. Minhas bolhas doam mais do que as solas dos ps. Talvez, se um carro tivesse passado, eu tentasse pedir carona - mas provavelmente 
no. Estava muito sem graa com minhas dificuldades, para explic-las a um estranho. Alem disso, dada a minha sorte, eu provavelmente pediria carona a um assassino 
em srie e pularia da frigideira -literalmente - para o meio do fogo. 
No. Continuei andando, xingando a mim e a minha estupidez. Como eu podia ser to idiota a ponto de concordar em ir  casa de Paul Slater? Verdade, a coisa que ele 
me mostrou sobre os deslocadores foi interessante. E aquela coisa sobre transferncia de alma ... se realmente isso existisse. Eu nem queria pensar no que significava. 
Pr uma alma no corpo de outra pessoa.
Deslocamento, falei comigo mesma. Concentre-se na coisa do deslocamento. Melhor isso, claro, do que a coisa da transferncia de alma ... ou pior, o tpico ainda 
mais desagradvel de como eu podia ser levada pelos beijos de algum que no era o cara por quem eu estava apaixonada. 
Ou seria que, depois da aparente rejeio de Jesse, eu estava simplesmente aliviada ao ver que era atraente para algum ... mesmo algum de quem eu no gostava particularmente? 
Porque eu no gostava de Paul Slater. No mesmo. 
Acho que o fato de ter tido pesadelos com ele nas ltimas semanas era prova suficiente disso ... no importando o quanto meu corao traioeiro pudesse bater quando 
seus lbios se encostavam nos meus. 
A sensao de me concentrar nisso, em vez de nos ps extremamente doloridos, era boa. O progresso era lento, descendo a Scenic Drive sem qualquer proteo do cascalho 
e, claro, do pavimento quente sob a sola dos ps. Claro, de certo modo eu sentia que a dor era uma punio pelo meu mau comportamento. Certo, Paul tinha me atrado 
 sua casa com promessas de revelar informaes que eu desejava tremendamente. Mas mesmo assim eu deveria ter resistido, sabendo que algum como ele teria um objetivo 
oculto. 
E esse objetivo provavelmente envolveria minha boca. O que me irritava era que, durante cerca de um minuto, l, eu no tinha me importado. Verdade. Eu tinha at 
gostado. Suze m. Suze muito m. 
Ah, meu Deus. Eu estava ferrada. 
E finalmente, depois de cerca de meia hora de passos hesitantes e dolorosos, tive a viso mais linda do mundo: um caf  beira do mar. Corri para l (bem, andei 
o mais rpido que pude com os ps que pareciam ter sido decepados nos tornozelos) mentalmente fazendo uma lista de para quem eu poderia ligar em segurana, quando 
chegasse. Mame? Nunca. Ela faria perguntas demais e provavelmente me mataria por ter concordado em ir  casa de um garoto que ela no conhecia. Jake? No. De novo, 
ele faria perguntas demais. Brad? No, ele preferiria me deixar perdida, j que me odiava. Adam?
Teria de ser Adam. Era a nica pessoa que eu conhecia e que no somente viria todo feliz me pegar mas que adoraria o papel de salvador ... para no mencionar que 
adoraria ouvir como Paul tinha me assediado sexualmente sem depois ter vontade de transformar Paul em picadinho. Adam teria o bom senso de saber que Paul Slater 
poderia lhe dar um pau em qualquer dia da semana. Eu no mencionaria a Adam, claro, a parte em que eu tinha assediado Paul sexualmente de volta. 
O Sea Mist Caf - o restaurante para o qual eu estava mancando - era um restaurante chique com mesas do lado de fora e estacionamento com manobrista. Era tarde demais 
para o almoo e cedo demais para o jantar, de modo que no havia clientes, s os empregados arrumando tudo para a agitao do fim de tarde. Enquanto eu chegava mancando, 
um garom estava escrevendo os pratos do dia no quadro-negro perto da porta. 
- Ei - falei a ele na minha voz mais animada, menos tipo "olha pra mim, eu sou uma vtima". 
O garom me olhou. Se notou minha aparncia desalinhada e descala, no comentou. Virou-se de novo para o quadro-negro. 
- Ns s comeamos o servio do jantar s seis - disse ele. 
- Hm ... - Vi que seria mais difcil do que eu pensara. - Tudo bem. S quero usar seu telefone pblico, se vocs tiverem um. 
- L dentro - disse o garom com um suspiro. Depois, com o olhar me examinando sarcasticamente, acrescentou: - no pode entrar sem sapato. 
- Eu tenho sapatos - falei, segurando os Jimmy Choos. - Est vendo? 
Ele revirou os olhos e se voltou de novo para o quadro-negro. 
No sei por que o mundo tem de ser to povoado por tanta gente desagradvel. No sei mesmo. Realmente  preciso um esforo para ser grosseiro. Algumas vezes me espanta 
a quantidade de energia que as pessoas gastam sendo escrotas. 
Dentro do Sea Mist estava fresco e sombreado. Passei mancando pelo balco, em direo a um pequeno letreiro que tinha visto assim que meus olhos se ajustaram  luz 
fraca (com parada ao sol chamejante l fora) que dizia Telefone/Banheiros.
Era uma caminhada um tanto longa ate o Telefone/Banheiros para uma garota com o que eu tinha certeza de que eram enormes queimaduras de terceiro grau nas solas dos 
ps. Eu tinha andado a metade do caminho quando ouvi a voz de um cara dizendo o meu nome. 
Tive certeza de que era Paul. Bom, quem mais poderia ter sido? Paul tinha me seguido de sua casa e queria pedir desculpas. 
E provavelmente dar em cima de mim de novo. 
Bem, se ele achava que eu iria perdo-lo - quanto mais beij-lo de novo - ia ver s, deixe-me dizer. Bem, na verdade, talvez a parte do beijo ... 
No. No. 
Virei-me lentamente. 
- Eu j disse - falei, mantendo a voz calma com esforo. - Eu no quero falar com voc de novo ... 
Minha voz ficou no ar. No era Paul Slater que estava atrs de mim. Era o amigo de Jake da faculdade, Neil Jankow. Neil Jankow, o irmo de Craig, parado ali perto 
do balco segurando uma prancheta, parecendo mais magro do que nunca ... e agora que eu sabia pelo que ele havia passado, mais triste do que nunca tambm. 
- Susan? - disse ele hesitante. - Ah,  voc. Eu no tinha certeza. 
Fiquei sem reao diante dele. E de sua prancheta. E do barman que estava perto dele, segurando uma prancheta igual. Depois me lembrei do que Neil tinha dito, que 
seu pai era dono de restaurantes em Carmel. Percebi que o pai de Craig e Neil Jankow devia ser dono do Sea Mist Caf. 
- Neil- falei - Ol, sou eu, Suze. Como ... como voc vai? 
- Bem - disse Neil, com o olhar indo at meus ps extremamente sujos. - Voc ... voc est bem? 
Eu soube imediatamente que a preocupao em sua voz era sincera. Neil Jankow estava preocupado comigo. Eu, uma garota que ele s havia conhecido na vspera. Cujo 
nome ele nem tinha guardado direito. O fato de que ele pudesse estar to preocupado comigo enquanto outras pessoas (principalmente Paul Slater, e sim, eu estava 
disposta a admitir agora, Jesse) podiam ser to, to ms, me trouxe lgrimas aos olhos. 
- Estou legal - falei.
E ento, antes que eu pudesse evitar, toda a histria saiu num jorro. Nada sobre os fantasmas e a coisa de ser mediadora, claro. Mas o resto, pelo menos. No sei 
o que me deu. Eu s estava ali parada no meio do caf do pai do Neil, dizendo: 
- E ento ele veio para cima de mim, e eu disse para ele ficar longe, e ele no quis, por isso eu tive de enfiar o dedo no olho dele, e depois corri, mas meus sapatos 
estavam doendo muito, e eu tive de tirar, e no tenho um celular de modo que no pude ligar para ningum e este  o primeiro lugar com telefone publico que eu pude 
achar ... 
Antes que eu terminasse, Neil estava ao meu lado, guiando-me para o banco mais prximo, junto ao balco, e fazendo com que eu me sentasse nele. Falou todo nervoso: 
- Ei. Ei, agora est tudo bem. - Estava claro que ele no tinha muita experincia em lidar com garotas histricas. Ficava dando tapinhas no meu ombro e oferecendo 
coisas, tipo limonada e tiramisu grtis. 
- Eu ... aceito uma limonada - falei finalmente, exausta com meu recital de sofrimentos. 
- Claro. Claro. Jorge, pegue uma limonada para ela, certo? 
O barman correu para servir limonada de uma jarra que ele mantinha numa pequena geladeira atrs do balco. Colocou-a na minha frente, olhando-me com cautela, como 
se eu fosse uma luntica que poderia comear a declamar poesia New Age a qualquer minuto. Era encorajador saber que essa era a primeira impresso que eu estava causando 
nas pessoas. No. 
Bebi um pouco de limonada. Estava fria e azeda. Pousei o copo depois de alguns goles e falei a Neil, que estava me olhando preocupado: 
- Obrigada. Estou me sentindo melhor. Voc  legal. Neil ficou embaraado. 
- Hm ... Obrigado. Olha, eu tenho um celular. Quer emprestado? Voc pode ligar para algum. Talvez para o Jake, sabe? 
- Jake? Ah, meu Deus, no. Ele ... ele no entenderia. Neil estava comeando a parecer em pnico. Dava para ver que estava louco para se livrar de mim. E quem poderia 
culp-lo? 
- Certo, certo. Sua me, ento? Que tal sua me?
Balancei a cabea mais um pouco. 
- No, no. Eu no ... Quero dizer, eu no quero que eles saibam como fui estpida. 
Jorge, o barman, falou: 
- Sabe, ns praticamente terminamos aqui, Neil. Voc pode ir, se quiser 
... e lev-la junto. Ele no disse as palavras, mas o tom de voz dava a entender. Estava claro que Neil queria que a garota maluca com ps machucados sasse do seu 
bar, e rapidinho ... tipo antes que os primeiros clientes da noite comeassem a chegar. 
Neil ficou em pnico. Era muito gratificante saber naquele momento que minha aparncia era to horrorosa a ponto de os caras de faculdade hesitarem em me deixar 
entrar em seus carros. Verdade. No posso dizer como apreciei esse fato. J era suficientemente ruim eu ser chave de cadeia, mas alm disso eu parecia uma chave 
de cadeia com ps ensangentados e um caso grave de cabelos crespos, graas ao ar salino. 
Neil, que tinha pegado o celular, fechou-o e enfiou de novo no bolso de seus jeans Dockers. 
- Hmm ... - disse ele. - Acho que ... sabe, eu poderia levar voc. Se voc quiser. 
A frase deixou um pouco a desejar, mas no creio que eu pudesse ficar mais agradecida, nem se ele dissesse que conhecia um lugar que vendia Prada por atacado. 
- Isso seria muito, muito incrvel - falei rapidamente. Acho que minha fala foi meio efusiva, j que o rosto de Neil ficou rosa como minhas bolhas, e ele se afastou 
rapidamente. Murmurando que tinha de terminar umas coisas. Eu no me importava. Casa! Ia ganhar uma carona para casa! Nada de telefonemas embaraosos, nada de andar 
... Ah, graas a Deus, nada de andar. No acho que eu conseguiria ficar de p durante mais um minuto. S de olhar para os ps eu ficava meio tonta. Estavam quase 
pretos de sujeira, os band-aids tinham melado e no estavam grudando direito. Lindas feridas soltando lquido brilhavam vermelhas para mim. Eu nem queria olhar o 
que estava acontecendo nas solas. S sabia que no podia senti-las mais. Estavam totalmente entorpecidas.
- Esse foi um trabalho pssimo de pedicure - disse uma voz.

Captulo 10

Eu nem precisava virar a cabea para saber quem era. - Oi, Craig - falei com o canto da boca. Neil e Jorge estavam absorvidos demais com pedido de bebidas que estavam
terminando de discutir, para prestar ateno a mim. 
- E ento? - Craig se acomodou no banco ao lado do meu. - E assim que os mediadores trabalham? Arrebentam os ps todos, depois conseguem carona com os irmos dos 
falecidos? 
- Geralmente no - murmurei discretamente.
- Ah. - Craig brincou com uma caixa de fsforos do bar. - Porque eu ia dizer. Sabe. Grande tcnica. Realmente est fazendo um progresso fabuloso no meu caso, no 
? 
Suspirei. Fala srio, depois de tudo que eu tinha passado, no precisava das piadinhas de um defunto. 
Mas acho que merecia.
- Como voc vai? - perguntei, tentando manter o tom leve. - Sabe, com o negcio de estar morto?
- Ah, tudo bem. Adorando cada minuto. 
- Voc vai se acostumar - falei, pensando em Jesse.
- Ah, tenho certeza de que vou. - Craig estava olhando para Neil. 
Claro que eu deveria ter captado a dica. Mas no captei. Estava envolvida demais nos meus problemas... para no mencionar meus ps. 
Ento Neil entregou a prancheta a Jorge, apertou a mo dele e se virou para mim. 
- Esta pronta, Susan? 
No me incomodei em corrigir meu nome. S assenti e desci do banco do bar. Precisei olhar para garantir que meus ps tinham encostado no cho, porque no podia senti-lo. 
O cho, quero dizer. A pele embaixo dos ps tinha ficado totalmente dormente. 
- Voc realmente deu um show - foi o comentrio de Craig.
Mas ele, diferentemente do irmo, passou solicitamente um brao pela minha cintura e me guiou para a porta, onde Neil estava esperando, com as chaves do carro.
Devo ter parecido especialmente estranha enquanto me aproximava - eu estava apoiando parte do peso em Craig, o que deve ter me dado uma aparncia esquisita, j que, 
claro, Neil no podia ver Craig - porque Neil falou:
- Hm, Susan, voc tem certeza de que quer ir direto para casa? Talvez fosse bom dar um pulinho na emergncia do hospital... 
- No, no - falei tranqilamente. - Estou bem. 
- Certo - zombou Craig no meu ouvido.
Mesmo assim, com sua ajuda, consegui chegar ao carro de Neil. Como Paul, Neil tinha um BMW conversvel. Diferentemente do de Paul, o de Neil parecia ser de segunda 
mo.
- Ei! - gritou Craig ao ver o veculo. - Esse  o meu carro! Imaginei que essa era a reao natural de um cara que encontrasse o carro com outro. Sem dvida Jake 
teria dito a mesma coisa. E repetiria sem parar. 
Craig superou a indignao por tempo suficiente para me colocar no banco da frente. Eu estava para lhe dar um sorriso agradecido quando ele pulou no banco de trs. 
Mesmo ento, claro, eu no deduzi. S presumi que Craig queria ir junto. Por que no? Ele no tinha nada melhor a fazer, pelo que eu soubesse. 
Neil ligou o motor, e Kylie Minogue comeou a uivar no CD player.
- No posso acreditar que ele est ouvindo esse lixo - disse Craig enojado no banco de trs. - No meu carro. 
- Eu gosto dela - falei meio na defensiva. 
Neil me olhou. 
- Voc disse alguma coisa?
Percebendo o que tinha feito, falei rapidamente que no. 
-Ah. 
Sem outra palavra - aparentemente ele no era muito conversador - Neil tirou o carro do estacionamento do Sea Mist Caf e foi pela Scenic Drive em direo ao centro 
de Carmel, atravs do qual tinham os de passar para voltar a minha casa. Passar pelo centro de Carmel nunca foi fcil, porque geralmente est apinhado de turistas, 
e os turistas nunca sabiam onde estavam indo, porque nenhuma rua tinha nome... nem sinais de trnsito. 
Mas pode ser especialmente perigoso passar pelo centro de Carmel quando por acaso h um fantasma homicida no banco de trs.
No percebi imediatamente, claro. Estava tentando fazer, voc sabe, um pouco de mediao. Achei que, enquanto estivesse com os dois irmos juntos, poderia tentar 
resolver as coisas entre eles. Na ocasio no fazia idia de como o relacionamento deles tinha se desintegrado, claro.
- Ento, Neil- falei em tom ameno, enquanto seguamos pela Scenic Drive a uma boa velocidade. A brisa do oceano sacudia meu cabelo e dava uma sensao deliciosamente 
fresca depois do modo como o sol tinha me golpeado antes. - Ouvi falar do seu irmo. Sinto muito.
Neil no afastou o olhar da estrada. Mas vi seus dedos apertando o volante.
- Obrigado - foi tudo que ele disse em voz baixa. Geralmente  considerado grosseiro se meter nas tragdias pessoais dos outros - particularmente quando a vtima 
da tal tragdia no foi quem puxou o assunto - mas, para um mediador, ser grosseiro faz parte do servio. Falei: - Deve ter sido medonho l no barco. 
- Catamar - Craig e Neil me corrigiram ao mesmo tempo. Craig em tom de desprezo, Neil gentilmente.
- Quero dizer, catamar. Quanto tempo voc ficou agarrado? Umas oito horas?
- Sete - disse Neil em voz baixa.
- Sete horas - falei. -  muito tempo. A gua devia estar bem fria.
- Estava - disse Neil. Ele era claramente um homem de poucas palavras. Mas no permiti que isso me dissuadisse da misso.
- E, pelo que eu soube, seu irmo era campeo de natao ou algo do tipo, no e?
- Claro que sim - disse Craig no banco de trs. - Ganhei o cam...
Levantei a mo para silenci-lo. No era Craig que eu queria ouvir naquele momento.
- Campeo de natao - disse Neil, com a voz no muito mais alta do que o ronronar do motor do BMW. - Campeo de vela. E s dizer o nome de qualquer esporte, Craig 
era melhor do que qualquer um. 
- Est vendo? - Craig se inclinou para a frente. - Esta vendo? Ele  que deveria estar morto. No eu. At ele admite!
- Shhh - falei com Craig. Para Neil, disse: - Isso deve ter surpreendido as pessoas, ento. Quero dizer, quando voc sobreviveu ao acidente, e Craig no.
- Desapontado as pessoas, isso sim - murmurou Neil.
Mesmo assim eu ouvi. 
E Craig tambm.
Ele se recostou de novo no banco, parecendo triunfante. - No disse?
- Tenho certeza de que seus pais esto tristes com a perda do Craig - falei, ignorando o fantasma no banco de trs. - E voc vai ter de dar um tempo a eles. Mas 
eles esto felizes em no ter perdido voc, Neil. Voc sabe que sim.
- No esto - disse Neil em tom casual, como se estivesse falando que o cu  azul. - Eles gostavam mais do Craig. Todo mundo gostava. Eu sei o que eles esto pensando. 
O que todo mundo esta pensando. Que deveria ter sido eu. Que eu  que deveria ter morrido. No o Craig. 
Craig se inclinou para a frente de novo.
- Est vendo? - disse ele. - At Neil admite. Ele  que deveria estar aqui atrs, no eu.
Mas agora eu estava mais preocupada com o irmo vivo do que com o morto.
- Neil, voc no pode estar falando srio.
- Por que no?  a verdade. 
- No  verdade - falei. - H um motivo para voc ter sobrevivido, e Craig no.
-  - disse Craig sarcasticamente. - Algum fez confuso. Uma tremenda confuso.
- No - falei balanando a cabea. - No  isso. Craig bateu a cabea. Pura e simplesmente. Foi um acidente, Neil. Um acidente que no foi sua culpa. 
Por um momento Neil pareceu algum sobre quem o sol tinha comeado a brilhar depois de meses de chuva... como se mal ousasse acreditar.
- Voc realmente acha? - perguntou ansioso.
- Totalmente.  s isso.
Mas enquanto essa noticia parecia ter feito Neil ganhar o dia - possivelmente a semana - ela fez com que Craig desse um muxoxo.
- O que e isso? - perguntou ele. - Neil  que deveria ter morrido! No eu!
- Parece que no - falei suficientemente baixo para que s Craig pudesse ouvir.
Mas essa no foi a resposta certa. No porque no fosse verdade - porque era - mas porque Craig no gostou. Craig no gostou nem um pouquinho. 
- Se eu tenho de estar morto - declarou Craig - ele tambm deve estar.
E com isso ele saltou para a frente e agarrou o volante. Neil estava dirigindo por uma rua particularmente bonita, sombreada por rvores e apinhada de turistas. 
Galerias de arte e lojas com colchas de retalhos (do tipo que faziam minha me guinchar de deleite, e que eu evitava como se fosse a peste) ladeavam-na. Estvamos 
indo a passo de lesma porque havia um motor home na nossa frente e um nibus de turistas na frente dele. 
Mas quando Craig agarrou o volante, a traseira do motor home pareceu subitamente enorme no nosso campo de viso. Isso porque Craig tambm tinha conseguido passar 
uma perna por cima do banco de trs e enfiar o p em cima do de Neil, no acelerador, coisa que Neil no pode sentir. Ele s sabia que no tinha apertado o pedal. 
Se Neil no tivesse reagido pisando no freio com o outro p - e se eu no tivesse mergulhado no meio da confuso, puxando o volante para o outro lado - ns teramos 
ido direto na traseira daquele veculo - ou pior, num monte de turistas na calada - matando-nos, para no mencionar que levaramos juntos alguns pedestres. 
- O que h de errado com voc? - gritei para Craig. Mas foi Neil que respondeu, abalado: 
- No fui eu, juro. O volante virou sem que eu fizesse nada... 
Mas eu no estava ouvindo. Estava gritando com Craig, que parecia to pasmo quanto Neil com o que tinha acontecido. Ele ficou olhando para as mos, como se elas 
tivessem agido sozinhas, ou algo assim.
- Nunca mais faa isso - gritei para ele. - Nunca mais! Entende?
- Desculpe - exclamou Neil. - Mas no foi minha culpa, eu juro. 
Com um pequeno gemido doloroso, Craig de repente tremeluziu e desapareceu. Assim. Desmaterializou-se, deixando Neil e eu para lidar com a confuso.
Que felizmente no foi to ruim. Quero dizer, um monte de gente estava olhando para ns, porque tnhamos parado no meio da rua e gritado feito doidos. Mas nenhum 
de ns estava machucado - e ningum mais, felizmente. Nem havamos encostado na traseira do motor home. Um segundo depois ele comeou a se adiantar, e ns fomos 
atrs, com o corao na garganta.
-  melhor eu levar este carro para a reviso - disse Neil, segurando o volante com os dedos brancos. - Talvez tenha de trocar o leo, ou algo assim.
- Ou algo assim - falei. Meu corao estava martelando nos ouvidos. - Seria boa idia. Talvez voc devesse comear a andar de nibus durante um tempo. - Ou at eu 
deduzir o que fazer com seu irmo, acrescentei mentalmente.
-  - disse Neil em voz dbil. - Talvez o nibus no seja to ruim.
No sei quanto ao Neil, mas eu ainda estava meio abalada quando ele parou na frente da minha casa. Tinha sido um dia e tanto. No era sempre que eu ganhava um beijo 
de lngua e era quase assassinada no decorrer de apenas algumas horas.
Mesmo assim, apesar de como me sentia, quis dizer alguma coisa a Neil, algo que o encorajasse a no ficar to deprimido por ser o irmo sobrevivente... e tambm 
para coloc-lo de guarda contra Craig, que tinha parecido mais furioso do que nunca quando desaparecera h alguns minutos.
Mas na hora s consegui um dbil "Bem. Obrigada pela carona".
Verdade. Foi isso. Obrigada pela carona. No  de espantar que eu estivesse ganhando todos aqueles prmios de mediao. No.
No entanto Neil no parecia estar prestando muita ateno. Aparentemente s queria se livrar de mim. E por que no? Quero dizer, que rapaz de faculdade quer ficar 
com uma garota de segundo grau, meio maluca, com bolhas gigantes nos ps? Nenhum, que eu saiba.
No minuto em que eu tinha sado do carro ele partiu para longe de nossa entrada de veculos cheia de sombras, ladeada por pinheiros, aparentemente sem se preocupar 
com o acidente que quase tinha sofrido h alguns instantes.
Ou talvez estivesse to feliz par se livrar de mim que nem se incomodou com o que tinha lhe acontecido no carro.
S sei que ele foi embora, me deixando com a caminhada comprida, comprida, at a porta da frente. 
No sei como consegui chegar. No mesmo. Mas indo lentamente - como uma mulher muito, muito velha - subi a escada at a varanda, depois passei pela porta.
- Estou em casa - gritei, para o caso de haver algum que se importasse. S Max veio correndo me cumprimentar, me farejando inteira com a esperana de eu ter comida 
escondida nos bolsos. Como no tinha, ele foi logo embora, me deixando para subir a escada at o quarto. 
Subi, agonizando passo a passo. Demorei, sei l, uns dez minutos. Normalmente eu subia correndo de dois em dois degraus. Hoje no.
Sabia que teria de dar um monte de explicaes quando encontrasse finalmente algum alm de Max. Mas a pessoa que eu menos queria encarar seria, eu tinha certeza, 
a primeira que iria ver: Jesse. Jesse provavelmente estaria no meu quarto quando eu entrasse mancando. Jesse que, para comear, no entenderia o que eu estava fazendo 
na casa de Paul Slater. Jesse, de quem eu achava difcil esconder o fato de que tinha acabado de bancar o desentupidor de pia com outro cara. 
E disso eu meio que gostei.
Era culpa de Jesse, falei comigo mesma, parada com a mo na maaneta. O fato de eu ter sado e ficado com outro cara. Porque se Jesse tivesse me mostrado o mnimo
fiapo de afeto nessas ltimas semanas, eu jamais ao menos consideraria retribuir o beijo de Paul Slater. Nem em um bilho de anos. 
, era isso. Era tudo culpa de Jesse.
No que eu fosse lhe dizer isso, claro. De fato, se eu pudesse evitar, nem tocaria no nome de Paul. Precisava inventar alguma histria - qualquer histria que no 
fosse a verdade - para explicar meus pobres ps dilacerados...
... para no mencionar os lbios machucados.
Mas, para meu alvio, quando abri a porta do quarto Jesse no estava. Spike estava sentado no parapeito da janela, lavando-se. Mas no seu dono. No desta vez.
Graas a Deus.
Joguei longe a sacola de livros e os sapatos e fui para o banheiro. Eu tinha uma coisa e apenas uma coisa em mente: lavar os ps. Talvez eles s precisassem de uma 
limpeza bem feita. Talvez, se eu os encharcasse por tempo suficiente em gua quente com sabo, parte da sensao neles voltaria... 
Abri as torneiras totalmente, pus o tampo no ralo e, sentando-me na beira da banheira, passei os ps dolorosamente por cima e enfiei na gua.
Durante um ou dois segundos ficou tudo bem. De fato, foi um alvio.
Ento a gua acertou nas bolhas, e eu quase dei uma cambalhota de dor. Nunca mais, prometi, agarrando a lateral da banheira num esforo para no desmaiar. Nunca 
mais sapatos de grife. De agora em diante, para mim era estritamente Aerosoles. No importava que fossem horrendos. Nem mesmo ficar bonita valia isso.
A dor diminuiu o suficiente para eu fazer uma tentativa com uma barra de Cetaphil e uma esponja. S quando eu tinha esfregado suavemente durante quase cinco minutos 
consegui tirar a ltima camada de sujeira e vi porque as solas dos ps estavam to insensibilizadas. Porque estavam cobertas - literalmente cobertas - de bolhas 
vermelhas, algumas cheias de sangue e todas ficando maiores a cada minuto. Percebi, com horror, que iriam se passar dias - talvez at uma semana - antes que o inchao 
diminusse o bastante para eu andar normalmente de novo, quanto mais calar sapatos. 
Eu estava ali sentada xingando Paul Slater (para no mencionar Jimmy Choo) feito uma doida quando ouvi Jesse falar um palavro que, mesmo sendo em espanhol, queimou 
meus ouvidos.
- Mi hermosa, o que voc fez? 
- Jesse estava ao lado da banheira olhando meus ps. Eu havia tirado toda a gua suja e enchido a banheira de novo para enfi-los dentro, de modo que era bem fcil 
ver as bolhas furiosas atravs da gua transparente. 
- Sapatos novos - falei. Era toda a explicao em que eu podia pensar no momento. O fato de que tivera de fugir descala de um predador sexual no parecia o tipo 
de coisa que cairia bem com Jesse. Quero dizer, eu no queria exatamente ser motivo de duelos, ou coisa do tipo. 
, , eu sei: eu queria. 
Mesmo assim, ele tinha me chamado de hermosa de novo. 
Isso tinha de significar alguma coisa, no ? 
S que Jesse provavelmente chamava as irms de hermosa. Talvez at a me. 
- Voc fez isso consigo mesma de propsito? - Jesse estava olhando meus ps numa descrena absoluta. 
- Bem. No exatamente. - S que em vez de lhe contar sobre Paul e nossos beijos clandestinos em sua colcha cinza-escura, falei a uns cem quilmetros por minuto: 
-  s que eram sapatos novos, e me deram bolhas, e ento ... e ento eu perdi a carona para casa, e tive de andar, e os ps doam tanto que eu tirei os sapatos, 
e acho que a calada estava quente por causa do sol, j que queimou a sola dos ps ... 
Jesse ficou srio. Sentou-se na borda da banheira ao meu lado e disse: 
- Deixe-me ver. 
Eu no queria mostrar meus ps terrivelmente desfigurados ao cara por quem estava loucamente apaixonada desde o dia em que o conheci. Especialmente no queria que 
ele os visse, considerando que ele no sabia que eu os tinha queimado num esforo de me afastar de um cara com quem no deveria estar. 
Por outro lado, a gente deveria poder ir  casa dos garotos sem que eles pulassem em cima, beijassem a gente e fizessem com que a gente tivesse vontade de retribuir 
o beijo. Tudo era meio complicado, at para mim, e eu sou uma jovem moderna com sensibilidades do sculo XXI. S Deus sabia o que um fazendeiro de 1850 acharia disso 
tudo.
Mas pude ver, pela expresso de Jesse, que ele no iria me deixar em paz enquanto eu no lhe mostrasse meus ps estpidos. Por isso falei, revirando os olhos: 
- Quer ver? timo. Pode desmaiar. 
E tirei o p direito da gua e mostrei. 
Eu esperava no mnimo alguma expresso de nojo. Tinha certeza de que logo em seguida viria uma bronca pela estupidez - como se eu no me sentisse suficientemente 
idiota. 
Mas, para minha surpresa, Jesse no me deu uma bronca nem pareceu enojado. Simplesmente examinou meu p com o que eu descreveria como um distanciamento quase clnico. 
Quando terminou de olhar o p direito, falou: 
- Deixe-me ver o outro. 
Por isso eu pus o direito de volta na gua e tirei o esquerdo. 
De novo nada de nojo nem um grito do tipo "Suze, como voc pode ser to estpida?" O que no era muito surpreendente, j que Jesse nunca me chama de Suze. Em vez 
disso examinou o p esquerdo to cuidadosamente como tinha feito com o direito. Ao terminar, inclinou-se para trs e disse: 
- Bem, eu j vi coisa pior ... mas pouco pior. 
Fiquei chocada. 
- Voc j viu ps piores do que isso? - exclamei. - Onde? 
- Eu tinha irms, lembra? - disse ele, com os olhos escuros iluminados com alguma coisa. Eu no chamaria de diverso, porque, claro, meus ps no eram motivo de 
riso. Jesse no ousaria rir deles ... ousaria? - De vez em quando elas ganhavam sapatos novos, com resultados semelhantes. 
- Eu nunca vou andar de novo, vou? - perguntei, olhando espantada para os ps devastados. 
- Vai. S que no por um ou dois dias. Essas queimaduras parecem muito dolorosas. Vo precisar de manteiga. 
- Manteiga? - Franzi o nariz. 
- O melhor tratamento para queimaduras assim  manteiga. 
- Argh - falei. - Talvez em 1850. Agora ns contamos com o poder curativo do Neosporin. H um tubo disso no meu armrio de remdios, atrs de voc. 
Ento Jesse aplicou Neosporin em meus ferimentos. Quando terminou de colocar as bandagens nos ps - que, devo dizer, ficaram muito atraentes com uns 68 band-aids
- eu tentei me levantar.
Mas no por muito tempo. No doa, exatamente. Era s que a sensao era estranha, como se eu estivesse andando sobre cogumelos ...
Cogumelos que cresciam nas solas dos meus ps. 
- J chega - disse Jesse. Quando notei, ele havia me pegado no colo. 
S que em vez de me carregar at a cama e me acomodar nela romanticamente, voc sabe, como os caras fazem com as garotas nos filmes, ele simplesmente me largou nela, 
por isso eu ricocheteei e teria cado se no agarrasse a borda do colcho. 
- Obrigada - falei, no conseguindo afastar o sarcasmo da voz. 
Jesse pareceu no notar. 
- Sem problema - disse ele. - Quer um livro ou alguma outra coisa? Seu dever de casa? Ou eu poderia ler para voc ... 
Ele levantou a Teoria crtica desde Plato. 
- No - falei apressadamente. - O dever de casa serve. S me entregue a sacola de livros, obrigada. 
Eu estava profundamente absorvida na redao sobre a Guerra Civil- ou pelo menos era o que fingia estar fazendo. O que fazia de verdade, claro, era tentar no pensar 
em Jesse, que estava lendo no banco perto da janela. 
Eu imaginava como seria se ele me desse uns dois beijos como os de Paul. Quero dizer, se a gente pensasse bem, eu estava numa posio bem interessante, considerando 
que no podia andar. Quantos caras teriam adorado ter uma garota basicamente presa no quarto? Um monte. Menos Jesse, claro. Finalmente Andy me chamou para o jantar. 
Mas eu no iria a lugar nenhum. No porque queria ficar olhando Jesse ler mais um pouco, mas porque realmente no podia ficar de p. Finalmente David subiu para 
ver por que eu estava demorando tanto. Assim que viu os band-aids, desceu a escada correndo para chamar minha me. 
Preciso dizer que minha me foi bem menos compreensiva do que Jesse? Disse que eu merecia cada bolha, por ser to imbecil a ponto de usar sapatos novos para ir a 
escola sem antes amaci-los.
Depois andou pelo meu quarto, arrumando-o (se bem que desde que arranjei um colega de quarto do tipo quente e latino, eu me tornei bastante consciente quanto a manter 
o quarto em condies bastante boas. Quero dizer, eu no quero exatamente que Jesse veja nenhum dos meus sutis cados por a. E para dizer a verdade, ele  que 
vivia desarrumando as coisas, deixando aquelas enormes pilhas de livros e caixas de CDs abertos em toda parte. E, claro, havia Spike). 
- Honestamente, Suzinha - disse mame, franzindo o nariz ao ver o enorme gato laranja esparramado no banco da janela. - Esse gato ... 
Jesse, que educadamente tinha se desmaterializado quando mame apareceu, para me permitir alguma privacidade, ficaria muito perturbado ao ver seu bicho de estimao 
depreciado daquele jeito. 
- Como vai a paciente? - quis saber Andy, aparecendo na porta com uma bandeja contendo salmo grelhado com endro e creme frafche, sopa de pepino fria e po de fermento 
azedo assado na hora. Sabe, por mais que eu tivesse ficado infeliz com a perspectiva de mame se casar e me obrigar a mudar para o outro lado do pas e adquirir 
trs meios-irmos, eu tinha de admitir que a comida fazia tudo valer a pena. 
Bem, a comida e Jesse. Pelo menos at recentemente. 
- Ela definitivamente no vai poder ir  escola amanh - disse mame, balanando a cabea desanimada diante da viso dos meus ps. - Quero dizer, olha s, Andy. 
Voc acha que vamos ter de lev-la ... no sei...  uma clnica? 
Andy se curvou e olhou meus ps. 
- No sei se eles poderiam fazer mais alguma coisa - disse ele, admirando o admirvel trabalho de Jesse com as bandagens. - Parece que ela se cuidou muito bem. 
- Sabe do que eu provavelmente preciso de verdade? - falei - De umas revistas, umas seis Diet Cokes e um daqueles chocolates bem grandes.
- No pressione, moa - disse minha me com severidade. - Voc no vai ficar de preguia na cama amanh o dia inteiro como uma bailarina machucada. Vou ligar para 
o Sr. Walden esta noite e me certificar de que ele mande todo o seu dever de casa. E tenho de dizer, Suze, que estou muito desapontada. Voc  velha demais para 
esse tipo de absurdo. Poderia ter ligado para mim no trabalho, voc sabe. Eu teria ido busc-la. 
Ah, . E ento ela descobriria que eu no estava andando da escola para casa, como disse a todo mundo, mas da casa de um cara que tinha um Hell's Angel morto trabalhando 
para ele e que, sim, tinha tomado atitudes para cima de mim com o av babando no quarto ao lado. Atitudes as quais, pelo menos at certo ponto, eu tinha sido recproca. 
No, obrigada. 
Entreouvi Andy, enquanto os dois saiam do meu quarto, dizer baixinho a mame: 
- Voc no acha que pegou meio pesado com ela? Acho que ela aprendeu uma lio. 
Mas mame no respondeu a Andy baixinho. No, ela queria que eu ouvisse: 
- No, no acho que peguei pesado com ela. Ela vai para a faculdade daqui a dois anos, Andy, e vai morar sozinha. Se este  um exemplo do tipo de decises que ela 
vai tomar, estremeo s de pensar o que vem por a. De fato acho que devemos cancelar nossos planos de sair na noite de sexta-feira. 
- Nem pensar - ouvi Andy falando muito enfaticamente na base da escada. 
-Mas ... 
- Nada de mas. Ns vamos. 
E ento no pude ouvir mais. 
Jesse, que tinha se rematerializado no fim disso tudo, estava com um sorrisinho no rosto, tendo claramente ouvido. 
- No  engraado - falei, azeda. 
-  um pouco engraado. 
- No. No . 
- Acho que est na hora de um pouco de leitura em voz alta - disse Jesse abrindo o livro que o padre Dom tinha emprestado.
- No - gemi. - Teoria crtica desde Plato, no. Por favor, eu imploro. No e justo. Eu nem posso fugir para longe.
- Eu sei - disse Jesse com um brilho nos olhos. - Finalmente eu tenho voc onde quero ...
Tenho de admitir que minha respirao meio que ficou presa na garganta quando ele disse isso. 
Mas claro que ele no queria dizer o que eu queria que ele quisesse dizer. S quis dizer que agora poderia ler seu livro estpido em voz alta, e eu no teria como 
escapar. 
- Ha-ha - falei em voz marota, para encobrir o fato de que achava que ele queria dizer outra coisa. 
Ento Jesse levantou um exemplar da Cosmopolitan que ele tinha escondido entre as pginas da Teoria crtica desde Plato. Enquanto eu o olhava embasbacada, ele disse: 
- Peguei emprestada no quarto da sua me. Ela no vai sentir falta durante um tempo. 
Em seguida jogou a revista na minha cama. 
Quase engasguei. Quero dizer, foi a coisa mais legal - a mais legal - que algum me fazia h sculos. E o fato de que Jesse - Jesse, que eu tinha me convencido de 
que me odiava - havia feito isso me deixou positivamente de quatro. Seria possvel que ele no me odiasse? Quero dizer, eu sei que Jesse gosta de mim. Por que outro 
motivo ele viveria salvando minha vida e coisa e tal? Mas era possvel que gostasse de mim daquele modo especial? Ou s estava sendo gentil porque eu tinha me machucado? 
No importava. Pelo menos naquela hora. O fato de Jesse no estar me ignorando, para variar - qualquer que fosse o motivo - era o que importava. 
Toda feliz, comecei a ler uma matria sobre sete modos de agradar a um homem, e nem me importei de no ter um - quero dizer, um homem. Porque finalmente parecia 
que, independentemente de qualquer esquisitice que tivesse existido entre Jesse e mim desde o dia daquele beijo - aquele beijo breve demais, aquele beijo de despedaar 
os sentidos - ela estava indo embora. Talvez agora as coisas voltassem ao normal.Talvez agora ele comeasse a perceber como tinha sido estpido. Talvez agora ele 
finalmente pusesse na cabea que precisava de mim. Mais do que precisava. Me queria. 
Tanto quanto, agora eu sabia sem qualquer dvida, Paul Slater. 
Ei, uma garota pode sonhar, no pode?
E foi exatamente isso que eu fiz. Durante 18 horas abenoadas sonhei com uma vida onde o cara de quem eu gostava tambm gostava de mim. Tirei da cabea todos os 
pensamentos sobre mediao - deslocamento e transferncia de alma, Paul Slater e o padre Dominic, Craig e Neil Jankow. A ltima parte era fcil - eu pedi a Jesse 
para ficar de olho em Craig para mim, e ele concordou de boa vontade. 
E no vou mentir: foi timo. Nenhum pesadelo onde eu era perseguida em corredores compridos e cheios de nvoa em direo  uma queda sem fundo. E, no foi como naqueles 
antigos dias pr-beijo, mas chegou perto. Mais ou menos. At o dia seguinte, quando o telefone tocou. 
Atendi, e a voz de Cee Cee guinchou para mim, alta o bastante para eu ter de segurar o fone longe da cabea: 
- No posso acreditar que voc decidiu tirar o dia de folga - arengou Cee Cee. - Logo hoje! Como voc pode, Suze? A gente tinha tanta coisa da campanha para fazer! 
Demorei alguns segundos at perceber do que ela estava falando. Depois disse: 
- Ah, voc quer dizer, a eleio? Cee Cee, olha, eu ... 
- Puxa, voc deveria ver o que Kelly est fazendo. Est distribuindo chocolate. Chocolate! Com Vote em Prescott/ Slater no papel de embrulho! Certo? E o que voc 
est fazendo? Ah, est de preguia na cama porque os ps esto doendo, se o que o seu irmo disse  verdade. 
- Meio-irmo - corrigi. 
- Tanto faz. Suze, voc no pode fazer isso comigo. No me importa o que voc faa, calce pantufas de coelhinho se quiser, mas venha aqui e seja charmosa como sempre. 
- Cee Cee - falei. Era meio difcil me concentrar porque Jesse estava perto. No somente perto, mas me tocando. E, tudo bem, apenas trocando os band-aids nos meus 
ps, mas mesmo assim me distraa. - Olha, eu tenho certeza de que no quero ser vice-presidente ... 
Mas Cee Cee no queria ouvir.
- Suze - gritou ela no celular de Adam. Eu sabia que ela estava usando o celular de Adam e que estava no intervalo do almoo, porque podia ouvir o som de gaivotas 
gritando; as gaivotas vo em bandos para o ptio da escola durante o almoo, esperando agarrar alguma batata frita. E tambm pude ouvir Adam ao fundo, animando-a.
- J  suficientemente ruim que Kelly Crebro-de-Laqu Prescott seja eleita presidente de nossa turma todo ano. Mas pelo menos quando voc foi eleita vice-presidente
no ano passado houve algum fiapo de dignidade no cargo. Mas se aquele garoto rico de olhos azuis for eleito ... puxa, ele no passa de um peo da Kelly! Ele no
se importa! Vai fazer o que Kelly mandar.
Cee Cee tinha acertado uma coisa: Paul no se importava. Pelo menos no com a turma na Academia da Misso Junipero Serra. Eu no sabia o que, exatamente, importava
a Paul, j que certamente no era sua famlia ou o trabalho como mediador. Mas uma coisa que ele definitivamente no iria fazer era levar a srio o cargo de vice-presidente. 
- Escute, Cee Cee. Eu sinto muito. Mas ferrei mesmo os meus ps e realmente no posso andar. Talvez amanh. 
- Amanh? - guinchou Cee Cee. - A eleio  na sexta! A gente s vai ter um dia de campanha! 
- Bem, talvez voc pudesse concorrer no meu lugar. 
- Eu? - Cee Cee pareceu enojada. - Em primeiro lugar, eu no fui devidamente indicada. E, segundo, eu nunca vou mudar o voto masculino. Puxa, encaremos os fatos, 
Suze. Voc  que tem beleza e crebro. Voc  a Reese Witherspoon da nossa turma. Eu sou mais tipo ... Dick Cheney. 
- Cee Cee, voc est se subestimando muito. Voc ... 
- Sabe de uma coisa? - A voz de Cee Cee saiu amarga. - Esquece. Eu no me importo. No me importo com o que acontecer. Deixe Paul Slater "Olha-s-meu-BMW-novo" ser 
o vice-presidente da nossa turma. Eu desisto. 
Ela teria batido o fone se estivesse segurando um aparelho normal. Mas s pde desligar na minha cara. Tive de dizer ol mais algumas vezes, s para ter certeza, 
mas quando ningum respondeu, eu soube.
- Foi o que pareceu - disse Jesse. - Quem  essa pessoa nova, que est concorrendo com voc, que ela tem tanto medo de que vena?
E ali estava. A pergunta direta. A pergunta direta, cuja resposta sincera seria: "Paul Slater." Se eu no respondesse assim - dizendo "Paul Slater" -, realmente 
estaria mentindo para Jesse. Tudo que eu tinha lhe dito ultimamente eram meias-verdades, ou talvez mentirinhas. 
Mas esta ... Esta era a que mais tarde, se ele descobrisse a verdade, iria me ferrar. 
Na hora, claro, eu no sabia que mais tarde seria trs horas depois. S tinha presumido que mais tarde seria, voc sabe, semana que vem, no mnimo. Talvez at ms 
que vem. Quando eu j teria pensado numa soluo adequada para o problema de Paul Slater. 
Mas como achei que tinha tempo suficiente para resolver a coisa antes que Jesse ficasse sabendo, falei, em resposta  pergunta: 
- Ah,  s um cara novo. 
O que teria funcionado bem se, algumas horas depois, David no tivesse batido na porta do meu quarto e dito: - Suze? Chegou uma coisa para voc. 
-Ah, entre. 
David abriu minha porta, mas eu no pude v-lo. S podia ver, de onde estava na cama, um gigantesco buqu de rosas vermelhas. Quero dizer, devia ter pelo menos duas 
dzias. 
- Oba! - falei, levantando-me depressa. Porque mesmo naquela hora no fiz a mnima idia. Pensei que Andy tinha mandado. 
-  - disse David. Eu ainda no conseguia ver seu rosto, porque estava bloqueado por todas as flores. - Onde devo colocar? 
- Ah - falei espiando Jesse, que estava olhando as flores quase to perplexo quanta eu. - No banco da janela est bom. 
David baixou cuidadosamente as flores - que tinham vindo at com um vaso - no banco da janela, empurrando algumas almofadas para o lado para abrir lugar. Depois, 
assim que as deixou numa posio estvel, empertigou-se e disse, pegando um papel branco nas folhas verdes. 
- Aqui esta o carto. 
- Obrigada - falei, abrindo o envelope minsculo.
Fique boa logo! Com arnor. de Andy, era o que eu esperava que estivesse escrito. 
Ou Sentimos falta de voc. Da turma do primeiro ano da Academia da Misso Junipero Serra. 
Ou mesmo Voc  uma garota muito tola. Do padre Dominic. Mas o que estava escrito me chocou completamente. 
Ainda mais porque, claro, Jesse estava suficientemente perto para ler por cima do meu ombro. E at mesmo David, parado do outro lado do quarto, no tinha como no 
ler a letra grande e preta: 
Desculpe, Suze. Com amor, Paul.

Captulo 12 

De modo que, basicamente, eu era uma mulher morta.
Especialmente quando David, que, claro, no sabia que Jesse estava ali parado (ou que por acaso ele  o homem por quem sinto uma paixo que consome tudo... pelo
menos quando Paul Slater no estava me beijando), disse: 
- Isso  daquele tal de Paul? Foi o que pensei. Ele ficou me fazendo um monte de perguntas sobre por que voc no foi a escola hoje.
Eu nem pude olhar na direo de Jesse, de to mortificada que me sentia.
- Hm - falei. - .
- O que ele quer que voc desculpe? - quis saber David. - O negcio de ser vice-presidente?
- Hm. No sei.
- Porque, sabe, a sua campanha est realmente com problemas. Sem ofensa, mas Kelly est distribuindo chocolate.  melhor voc bolar alguma coisa boa bem depressa, 
caso contrrio vai perder a eleio.
- Obrigada, David. Tchau, David.
David me olhou estranhamente por um momento, como se no tivesse certeza de por que eu o estava dispensando de modo to abrupto. Depois olhou o quarto em volta, 
como se percebesse pela primeira vez que talvez no estivssemos sozinhos, ficou vermelho como uma beterraba e disse: 
- Certo, tchau. - E saiu do meu quarto como um raio. Juntando toda a coragem, virei a cabea para Jesse e falei: - Olha, no  o que voc... 
Mas minha voz ficou no ar, porque ao meu lado Jesse estava com aparncia assassina. Quero dizer, de verdade, como se quisesse matar algum. 
S que no dava para ver quem ele que ria matar, porque acho que naquele ponto eu era uma candidata to boa para o assassinato quanto Paul.
- Suzannah - disse Jesse numa voz que eu nunca o tinha ouvido usar antes. - O que  isto?
A verdade  que Jesse no tinha o direito de estar furioso. Nenhum direito. Quero dizer, ele tinha tido sua chance, no ? Tinha tido, e tinha estragado. Ele estava 
com sorte por eu no ser o tipo de garota que desiste fcil.
- Jesse. Olha. Eu ia contar. S esqueci...
- Contar o que? - A pequena cicatriz no lado direito da testa de Jesse (que, como fiquei sabendo, no era resultado de uma luta com um bandido, como sempre tinha 
presumido romanticamente, e sim, imagine s, da mordida de um cachorro) estava muito branca, sinal claro de que Jesse sentia muita, muita raiva. Como se eu no pudesse 
ver pelo tom de sua voz. - Paul Slater voltou a Carmel, e voc no me contou?
- Ele no vai tentar exorcizar voc de novo, Jesse - falei apressadamente. - Ele sabe que nunca iria se dar bem, no enquanto eu estiver par perto...
- Isso no me importa - disse Jesse cheio de desprezo... Foi voc que ele deixou para morrer, lembra? E essa pessoa freqenta a sua escola agora? O que o padre Dominic 
tem a dizer sobre isso? 
Respirei fundo.
- O padre Dominic acha que ns devemos lhe dar outra chance. Ele...
Mas Jesse no me deixou terminar. Tinha se levantado da cama e andava pelo quarto murmurando baixinho em espanhol. Eu no tinha idia do que ele estava dizendo, 
mas no parecia agradvel. 
- Olha, Jesse. Foi exatamente par isso que eu no contei a voc. Sabia que voc ia perder a cabea assim... 
- Perder a cabea? - Jesse me deu um olhar incrdulo - Suzannah, ele tentou matar voc! 
Balancei a cabea. Era preciso muita coragem, mas balancei mesmo assim.
- Ele diz que no tentou, Jesse. Diz... Paul diz que eu teria achado o caminho para fora de l sozinha. Disse uma coisa sobre a existncia de um pessoal chamado 
de deslocadores e que eu sou uma deslocadora. Diz que eles so diferentes dos mediadores, que em vez de apenas poder... voc sabe, ver e falar com os mortos, os 
deslocadores podem se mover livre mente pelo reino dos mortos, tambm...
Mas em vez de ficar impressionado com essa novidade, Jesse apenas ficou mais furioso.
- Parece que voc e ele andaram conversando um bocado ultimamente.
Se eu no soubesse, poderia achar que Jesse quase parecia... bem, com cime. Mas como sabia muito bem (como ele tinha deixado bem claro) que no sentia por mim o 
mesmo que eu sentia por ele, simplesmente dei de ombros. 
- O que eu devo fazer, Jesse? Quero dizer, agora ele freqenta a minha escola. No posso simplesmente ignor-lo. - Claro que eu tambm no precisava ir a casa dele 
e lhe dar um beijo de lngua. Mas essa era uma coisa que eu iria esconder de Jesse a todo custo. - Alm disso ele parece saber um monte de coisas. Coisas sobre mediadores. 
Coisas que o padre Dominic no sabe, talvez nem tenha sonhado...
- Ah, e tenho certeza de que Slater est todo feliz em contar tudo que sabe a voc - disse Jesse com muito sarcasmo.
- Bem, claro que est, Jesse. Quero dizer, afinal de contas ns dois temos esse dom meio incomum...
- E Paul Slater sempre foi ansioso por compartilhar informaes sobre esse dom com outros mediadores que ele conhece. 
Engoli em seco. A Jesse me pegou. Por que Paul estava ansioso para ser meu mentor? A julgar pelo modo como tinha dado em cima de mim em seu quarto, eu tinha uma 
idia muito boa. Mesmo assim era difcil acreditar que suas motivaes fossem totalmente lascivas. Havia garotas muito mais bonitas do que eu freqentando a Academia 
da Misso, garotas que ele poderia ter com muito menos problemas. 
Mas nenhuma delas, claro, compartilhava nosso dom especial.
- Olha - falei. - Voc est reagindo com exagero. Paul  um escroto, verdade, e eu no confiaria nem um pouco nele. Mas realmente no acho que ele esteja querendo 
me pegar. Ou voc. 
Jesse riu, mas no como se achasse alguma coisa engraada na situao.
- Ah, no acho que seja a mim que ele quer pegar, mi hermosa. No  para mim que ele esta mandando rosas.
Olhei as rosas.
- Bem - falei sentindo-me ruborizar. - . Entendo o que voc quer dizer. Mas acho que ele s mandou essas rosas porque se sente muito mal com o que fez. - No mencionei 
a transgresso mais recente de Paul contra mim. Deixei Jesse achar que eu estava falando do que Paul tinha feito no vero. - Quero dizer, ele no tem ningum - continuei. 
No tem mesmo. - Pensei na grande casa de vidro em que Paul morava, na moblia esparsa e desconfortvel. - Eu acho... Jesse, honestamente acho que parte do problema 
de Paul  que ele  realmente, realmente solitrio. E no sabe o que fazer a respeito, porque ningum nunca ensinou, voc sabe, como agir como um ser humano decente. 
Mas Jesse no queria aceitar nada disso. Eu podia sentir quanta pena quisesse de Paul - e parte de mim realmente sentia, e nem estou falando da parte que considerava 
Paul um beijador fantstico - mas para Jesse o sujeito era e sempre seria um canalha.
- Bem, para algum que no sabe agir como um ser humano decente - disse ele, indo at as rosas e arrancando um dos botes gordos e escarlates - ele certamente esta 
fazendo uma boa imitao de como um deles deve agir. Um que, por acaso, esteja apaixonado. 
Senti-me ficando vermelha como as rosas ao lado das quais Jesse estava imvel.
- Paul no esta apaixonado por mim - falei. - Acredite. - Porque caras apaixonados no mandam capangas tentar impedir as garotas de fugir de sua casa. Mandam? - 
E mesmo que estivesse, agora certamente no est...
- Ah, verdade. - Jesse balanou a cabea na direo do carto que eu estava segurando. - Acho que o modo como ele usou a palavra amor, e no atenciosamente, cordialmente 
ou com meus respeitos, d a entender o contrrio, no ? E o que voc quer dizer com: se estava, no est mais? - Seus olhos escuros ficaram ainda mais intensos. 
- Suzannah, aconteceu... alguma coisa entre vocs dois? Alguma coisa que voc no est me contando?
Droga! Olhei para o colo, deixando parte do cabelo esconder meu rosto, de modo que ele no visse o quanto eu estava ruborizando.
- No - falei para o lenol. - Claro que no.
- Suzannah... 
Quando levantei os olhos de novo, ele no estava mais parado perto das rosas. Em vez disso estava perto da minha cama. Tinha levantado uma das minhas mos e estava 
me olhando com aquele seu olhar escuro, impenetrvel. 
- Suzannah - disse ele de novo. Agora sua voz no era mais assassina. Em vez disso era gentil, gentil como seu toque. - Escute. Eu no estou com raiva. No de voc. 
Se houver alguma coisa... qualquer coisa... que voc queira contar, voc pode. 
Balancei a cabea com fora suficiente para fazer o cabelo chicotear minhas bochechas. 
- No. Eu j disse. No aconteceu nada. Nada mesmo. Mas mesmo assim Jesse no soltou minha mo. Em vez disso acariciou-a com um polegar calejado. 
Prendi o flego. Era isso?, me perguntei. Era possvel que depois de todas essas semanas me evitando, Jesse ia finalmente - finalmente - confessar seus verdadeiros 
sentimentos par mim? 
Mas, pensei com o corao martelando doidamente, e se no fossem os sentimentos que eu esperava? E se afinal de contas ele no me amasse? E se aquele beijo tivesse 
sido apenas ... sei l. Uma experincia ou alguma coisa assim? Um teste no qual eu no tinha passado? E se Jesse tivesse decidido que s queria ser meu amigo?
Eu morreria, s isso. Ia me deitar e morrer.
No, falei comigo mesma. Ningum segurava a mo de algum como Jesse estava segurando a minha e dizia que no a amava. De jeito nenhum. No era possvel. Jesse me 
amava. Tinha de me amar. S uma coisa - ou algum - o estava impedindo de admitir... 
Tentei encoraj-lo a fazer a confisso que eu tanto queria ouvir.
- Sabe, Jesse - falei, no ousando encar-lo, mas mantendo o olhar nos dedos que seguravam os meus. - Se h alguma coisa que voc queira me contar, voc pode. Quero 
dizer, sinta-se a vontade.
Juro que ele ia dizer alguma coisa. Juro. Finalmente consegui levantar os olhos para os dele, e juro que quando nossos olhos se cruzaram alguma coisa passou entre 
ns. No sei o que, mas alguma coisa. Os lbios de Jesse se separaram, e ele estava para dizer sei l o que, quando a porta do meu quarto se abriu subitamente. Cee 
Cee, seguida por Adam, entrou, parecendo furiosa e carregando um monte de papeles.
- Certo, garota - rosnou Cee Cee. - Chega de embromar. Precisamos cuidar dos negcios, e precisamos cuidar dos negcios agora. Kelly e Paul esto chutando a bunda 
da gente. Temos de bolar um slogan de campanha, e temos de bolar agora. Temos um dia at a eleio.
Olhei incrdula para Cee Cee, Jesse to pasmo quanto eu. Ele tinha largado minha mo como se ela pegasse fogo. - Bem, oi, Cee Cee - falei. - Oi, Adam. Legal vocs 
dois virem aqui. J ouviram falar em bater na porta? 
- Ah, por favor - disse Cee Cee. - Por qu? Porque a gente poderia interromper voc e seu precioso Jesse? 
Ao ouvir isso Jesse levantou as sobrancelhas. Muito. Ruborizando-me furiosamente - puxa, eu no queria que ele soubesse que eu andei falando dele com meus amigos 
- falei: - Cale a boca, Cee Cee. 
Mas Cee Cee, que tinha largado os papeles e agora estava espalhando pincis atmicos por toda parte, falou:
- A gente sabia que ele no estava aqui. No tem nenhum carro l embaixo. Alm disso, o Brad disse para a gente subir. 
Claro que disse.
Olhando as rosas, Adam assobiou.
- So dele? Quero dizer, do Jesse? O cara tem classe, quem quer que ele seja. 
No tenho idia de como Jesse reagiu ao ouvir isso, j que no ousei olhar na sua direo. 
- So - falei, s para no ter de dar explicaes complicadas. - Escute, pessoal, esse no  realmente um bom...
- Eca! - Cee Cee, abaixada perto de um pedao de papelo, finalmente estava em condies de dar uma boa olhada nos meus ps pela primeira vez. - Isso  nojento! 
Seus ps parecem o daquelas pessoas que tiraram do Everest...
- Aquilo foi congelamento - disse Adam, curvando-se para examinar as solas dos meus ps. - Os deles estavam pretos. Acho que Suze tem o problema oposto. Isso so 
bolhas de queimadura. 
- , so - concordei. - E doem mesmo. Ento, se no se incomodam... 
- Ah, no - disse Cee Cee. - Voc no vai se livrar de nos to facilmente, garota. Temos de conseguir um slogan de campanha. Se eu vou abusar dos meus privilgios 
de usar a copiadora com meu cargo de editora do jornal da escola para fazer panfletos - no se preocupe, eu j consegui que um punhado dos colegas da minha irm 
na quinta srie concordasse em distribuir para nos na hora do almoo - quero me certificar de que eles pelo menos digam alguma coisa boa. Ento. O que eles devem 
dizer? 
Fiquei ali sentada feito um trambolho, com a cabea totalmente cheia de apenas uma coisa: Jesse. 
- Estou dizendo - disse Adam, destampando um pincel atmico e dando uma longa cheirada na ponta. - Nosso slogan deveria ser Vote em Suze: Ela no d. mole. 
- Kelly iria adorar - disse Cee Cee com desdm. - A gente ia ganhar um processo por difamao na hora, por dar a entender que Kelly da mole. O pai dela  advogado, 
voc sabe.
Adam, terminando de cheirar o pincel, falou: - Que tal Suze Manda? 
- Isso no rima - observou Cee Cee. - Alm disso, a implicao  que o diretrio estudantil  uma ditadura, coisa que obviamente no . 
Arrisquei um olhar para Jesse, s para ver como estava reagindo a tudo isso. Mas ele no parecia estar prestando muita ateno. Estava olhando as rosas de Paul.
Meu Deus, pensei. Quando eu voltar a escola, vou matar aquele cara.
- Que tal "Quem sabe vota em Suze"? - falei, esperando apressar Cee Cee e Adam para ter alguma privacidade com meu futuro namorado de novo. 
Ajoelhada perto do papelo, Cee Cee inclinou a cabea para mim, e o sol entrando pelas janelas viradas para o oeste fizeram seu cabelo branco-louro parecer de um 
amarelo brilhante. 
- Quem sabe vota em Suze - repetiu ela devagar. - . Eu gosto disso. Muito bem, garota.
E em seguida se curvou para comear a escrever o slogan nos pedaos de papelo espalhados no piso do meu quarto. Estava claro que nem ela nem Adam iriam sair to 
cedo. 
Olhei de novo na direo de Jesse, esperando sinalizar, o mais sutilmente que pudesse, para dizer como lamentava a interrupo.
Mas vi que, para minha perplexidade, Jesse tinha desaparecido.
No era o mximo, esse cara? Puxa, a gente finalmente o pe numa posio em que parece estar pronto para fazer a grande confisso - fosse ela qual fosse - e ento 
bam. Ele desaparece na cara da gente. 
 ainda pior quando o sujeito por acaso esta morto. Porque eu nem podia mandar rastrear a placa do seu carro nem nada.
No que eu o culpasse por ir embora, acho. Quero dizer, provavelmente eu no ia querer ficar num quarto - que agora cheirava distintamente a pincel atmico - com 
umas pessoas que no me viam. 
Mesmo assim no pude deixar de me perguntar para onde ele tinha ido. Esperava que fosse para ir atrs de Neil Jankowe me impedir de ter mais um fantasma - Craig, 
o irmo de Neil - com quem lidar. E quando ele voltasse... 
S quando olhei as rosas de Paul de novo me ocorreu a parte real mente horrvel daquilo tudo. E no era a questo de quando Jesse voltaria. Na verdade era se. Porque, 
claro, se voc pensasse bem, por que o cara voltaria? 
Falei a Cee Cee e Adam que eu no estava chorando.
Disse que meus olhos estavam lacrimejando por causa de tanto pincel atmico. E eles pareceram acreditar. 
Uma pena que a nica pessoa que eu no parecia capaz de enganar era eu mesma.

Captulo 13

No demorei muito ate descobrir para onde Jesse tinha desaparecido.
Quero dizer, no demorei muito no vasto espectro das coisas. Na verdade levei mais outro dia e meio. Foi o tempo de o inchao nos ps diminuir, e eu poder enfi-los 
num par de chinelos Steve Madden e voltar  escola. 
Onde fui imediatamente chamada  sala do diretor. Srio. A coisa fez parte dos anncios matinais do padre Dom. Ele disse pelo alto-falante: 
- E vamos todos nos lembrar de lembrar aos pais sobre a festa do padre Serra, que vai acontecer na Misso amanh, a partir das dez horas. Vai haver comida, jogos, 
msica e diverso. Suzannah Simon, depois da reunio matinal, poderia vir por favor ao escritrio do diretor? 
Assim. 
Eu presumi que o padre Dom quisesse ver como eu estava. Sabe, eu tinha ficado fora da escola durante dois dias, graas aos ps. Uma pessoa legal naturalmente quereria 
saber se eu estava bem. Uma pessoa legal estaria preocupada com meu bem-estar. 
E por acaso o padre D. estava totalmente preocupado com meu bem-estar. Mas mais espiritual do que fsico. 
- Suzannah - disse ele, quando andei at sua sala. Bem, andei talvez seja uma palavra muito forte para o modo como eu circulava. Ainda estava meio mancando. Felizmente 
meus chinelos eram super-almofadados, e a larga faixa preta que os prendia aos meus ps cobria completamente a maioria dos horrorosos band-aids. 
Eu ainda me sentia meio andando sobre cogumelos. Algumas daquelas bolhas nas solas tinham ficado duras como pedras. 
- Quando voc ia me contar sobre voc e Jesse? - perguntou o padre Dominic. 
Meu queixo caiu. Estava sentada na cadeira dos visitantes, na frente da mesa dele, onde sempre me sentava quando tnhamos nossas conversas. Como sempre, eu tinha 
pego um brinquedo na gaveta de baixo do bom padre, onde ele guarda a parafernlia juvenil que os professores confiscam dos alunos. Dessa vez era um pouco de geleca.
- O que  que tem sobre mim e Jesse? - perguntei inexpressiva, porque genuinamente no tinha idia do que ele estava falando. Quero dizer, por que eu suspeitaria 
de que o padre Dominic sabia sobre mim e Jesse ... sobre a verdade entre mim e Jesse? Quero dizer, quem contaria a ele? 
- Que voc ... que vocs dois ... Acho que a expresso hoje em dia e esto ficando - disse ele finalmente. 
Num instante fiquei vermelha como o manto do arcebispo, que baixaria na nossa escola a qualquer momento. 
- Nos ... nos no estamos - gaguejei. - Ficando, quero dizer. Na verdade, nada poderia estar mais distante da verdade. No sei como ... 
E ento, num jorro de intuio, eu soube. Soube exatamente como o padre Dom tinha descoberto. Ou pelo menos pensava que sabia. 
- Paul lhe contou isso? Porque estou realmente surpresa com o senhor, padre, por ouvir um cara daqueles. Sabia que ele  parcialmente responsvel pelas minhas bolhas? 
Quero dizer, ele deu em cima de mim ... - No achei que fosse necessrio, nas circunstncias, acrescentar que eu no tinha resistido. De jeito nenhum. - E quando 
tentei ir embora, ele mandou seu HeIl's Angel me pegar ... 
O padre Dom me interrompeu. Coisa que o padre Dominic no faz com freqncia. 
- Foi o prprio Jesse que me contou. E que negocio  esse sobre voc e Paul? 
Eu estava to ocupada ficando boquiaberta que no prestei ateno  pergunta. 
- O qu? - exclamei. - Jesse contou? - Senti como se o mundo que eu conhecia subitamente plantasse bananeira, desse uma cambalhota e virasse pelo avesso. Jesse tinha 
contado ao padre Dom que a gente estava ficando? Antes mesmo de ter se incomodado em me contar? Isso no podia estar acontecendo. No comigo. Porque coisas incrivelmente 
boas assim nunca me aconteciam. Nunca. 
- O que exatamente Jesse lhe contou, padre Dom? - perguntei com cautela, porque queria me certificar de que, antes de aumentar esperanas, entendia direito a histria.
- Que vocs se beijaram. - Padre Dominic disse a palavra de modo to desconfortvel que era de pensar que havia tachinhas no assento de sua cadeira. - E devo dizer, 
Suzannah, que estou perturbado por voc no ter me contado nada disso no outro dia, quando nos conversamos. Eu nunca fiquei to desapontado com voc. Faz-me pensar 
no que mais voc est escondendo de mim ... 
- Eu no contei porque foi s uma porcaria de um beijo. E aconteceu h semanas. E desde ento, nada. Srio, padre D. - Eu imaginei se ele poderia ouvir a frustrao 
na minha voz, e descobri que nem me importava. - Nada mesmo. Um nada enorme. 
- Eu achava que ns ramos suficientemente prximos para que voc compartilhasse comigo uma coisa dessa magnitude - disse o padre Dominic, todo carrancudo. 
- Magnitude? - ecoei, esmagando a geleca no punho. - Padre D., que magnitude? No aconteceu nada, certo? - Para o meu eterno desapontamento. - Quero dizer, no o 
que o senhor est pensando. 
- Sei disso - disse o padre Dominic, srio. - Jesse  um rapaz honrado demais para se aproveitar da situao. Mas voc deve saber, Suzannah, que no posso, em boa 
conscincia, permitir que isso continue ... 
- Permitir que o que continue, padre D.? - Eu nem podia acreditar que estava tendo essa conversa. Era quase como se eu tivesse acordado no Mundo Bizarro. - Eu lhe 
disse, nada ... 
- Eu devo aos seus pais cuidar do seu bem-estar espiritual, tanto quanto do fsico - prosseguiu o padre Dominic, como se eu no tivesse falado. - E tenho uma obrigao 
para com Jesse, como confessor dele ... 
- Como o qu dele? - gritei, sentindo que ia cair da cadeira. 
- No precisa gritar, Suzannah. Creio que tenha me ouvido perfeitamente bem. - O padre Dom parecia to arrasado quanta eu estava comeando a me sentir. - O fato 
 que,  luz da ... bem, da situao atual, eu aconselhei Jesse a se mudar para a reitoria.
Agora eu realmente cai da cadeira. Bem, no cai exatamente. Tombei. Tentei pular, mas meus ps estavam machucados demais para isso. Conformei-me em saltar para cima 
do padre Dom. S que havia uma mesa enorme nos separando, por isso eu no podia, como desejava, agarrar sua batina e gritar por qu? Por qu?, na sua cara. Em vez 
disso tive de segurar a beira da mesa com muita fora e dizer, no tipo de voz aguda, de menina, que eu odeio mas que naquele ponto no consegui evitar: 
- A reitoria? A reitoria? 
- Sim, a reitoria - disse o padre Dominic defensivamente. - Ele vai ficar perfeitamente bem l, Suzannah. Sei que vai ser difcil para ele se ajustar a passar o 
tempo em outro lugar que no ... bem, o lugar onde ele morreu. Mas ns vivemos com simplicidade na reitoria. De muitas maneiras, ser parecido ao que Jesse estava 
acostumado quando era vivo ... 
Eu realmente estava tendo muita dificuldade para processar o que ouvia. 
- E Jesse concordou? - ouvi - me perguntando naquela mesma voz aguda de menina. E afinal, de quem era aquela voz? Certamente no era minha. - Jesse disse que vai 
fazer isso? 
O padre Dominic me olhou de um modo que s posso descrever como penalizado. 
- Disse. E lamento mais do que posso dizer por voc ter descoberto deste modo. Mas talvez Jesse sentisse ... e devo dizer que concordo ... que uma cena daquelas 
poderia ... bem, uma garota do seu temperamento poderia ... Bem, talvez voc pudesse ter tornado difcil... 
E ento, do nada, as lgrimas vieram. O nico aviso foi uma coceira forte no nariz. A prxima coisa que eu soube foi que estava lutando para controlar os soluos. 
Porque sabia o que o padre Dom estava tentando dizer. 
Estava tudo ali, em odioso preto-e-branco. Jesse no me amava. Jesse nunca tinha me amado. Aquele beijo ... aquele beijo tinha sido uma experincia, afinal de contas. 
At mesmo um erro. Um erro terrvel, miservel.
E agora que Jesse sabia que eu tinha mentido a ele com relao a Paul - sabia que eu tinha mentido para ele, e pior, provavelmente tinha adivinhado por que eu mentira 
... porque eu o amava, sempre iria am-lo, e no queria perd-lo ia se mudar, em vez de dizer a verdade: que no sentia o mesmo que eu. Mudar! Ele preferia se mudar 
a passar outro dia comigo! Para ver que tipo de fracassada pattica eu sou! 
Cai de novo na cadeira diante da mesa do padre Dom, chorando. Nem me importei com o que o padre Dom pensava - voc sabe, sobre eu estar chorando por causa de um 
cara. Eu no podia simplesmente parar de amar Jesse agora que sabia - com certeza absoluta, de uma vez por todas - que ele no me amava. 
- Eu n ... no entendo - falei nas minhas mos. - O que ... 
O que eu fiz de errado? 
A voz do padre Dominic pareceu ligeiramente abalada. - Nada, Suzannah. Voc no fez nada de errado. S que  melhor assim. Sem dvida voc consegue entender. 
Na verdade o padre Dominic no  muito bom em lidar com questes amorosas. Com fantasmas, sim. Com garotas que tiveram o corao pisoteado? Sem chance. 
Mesmo assim fez o melhor possvel. Chegou a se levantar de trs da mesa, rodeou-a, ps as mos no meu ombro e deu uns tapinhas meio desajeitado. 
Fiquei surpresa. O padre Dom no era realmente um sujeito do tipo sensvel daqueles de oferecer um ombro amigo pra voc chorar. 
- Pronto, pronto, Suzannah. Pronto, pronto. Vai ficar tudo bem. 
S que no ia. Nunca ia ficar tudo bem. Mas o padre Dom no tinha terminado. 
- Vocs dois no podem continuar como estavam. Jesse tem de partir.  o nico modo. 
No pude evitar um riso sem humor. 
- O nico modo? faz-lo ir embora de casa! - perguntei, enxugando irritada os olhos com a manga da jaqueta de camura. Para ver at onde eu tinha ido. - No acho. 
- No  a casa dele, Suzannah - disse o padre D. com gentileza. -  a sua casa. Nunca foi a casa de Jesse. Era a penso em que ele foi assassinado.
Ouvir a palavra assassinado, sinto muito dizer, s me fez chorar mais. O padre D. reagiu batendo mais um pouco no meu ombro. 
- Vamos - disse ele. - Voc tem de ser adulta com relao a isso, Suzannah. 
Falei alguma coisa ininteligvel. Nem eu soube o que era. - No tenho dvida de que voc vai conseguir enfrentar essa situao, Suzannah - disse o padre Dom -, como 
enfrentou todas as outras na sua vida, com ... bem, se no com graa, pelo menos com autodomnio. E agora  melhor voc ir. O primeiro tempo quase acabou. 
Mas no fui. S fiquei ali sentada, ocasionalmente soltando uma fungadela pattica enquanto as lgrimas continuavam a descer pelo meu rosto. Fiquei feliz por estar 
usando rmel  prova d'gua naquela manh. 
Mas em vez de ficar com pena de mim, como um homem de batina deveria fazer, o padre D. s me olhou de modo um tanto suspeito. 
- Suzannah, eu espero ... no acho que eu tenha de ... bem, eu me senti obrigado a alert-la ... Voc  uma garota cabea-dura, e eu espero que se lembre do que 
eu lhe disse uma vez. Voc no deve usar seus ... hm ... atributos femininos com o Jesse. Falei srio na poca e estou falando srio agora. Se precisa chorar por 
causa disso, resolva tudo aqui na minha sala. Mas no chore diante do Jesse. No torne mais difcil para ele do que j . Entende? 
Bati com o p no cho, mas quando a dor subiu pela perna eu lamentei instantaneamente o ato. 
- Meu Deus - falei sem muita graciosidade. - O que o senhor acha que eu sou? Acha que eu vou implorar que ele fique, ou alguma coisa assim? Se ele quer ir, por mim 
tudo bem. Mais do que bem. Eu estou satisfeita por ele estar indo. - Ento minha voz se travou em outro soluo traidor. - Mas s quero que o senhor saiba que isso 
no  justo. 
- Muito pouca coisa na vida  justa, Suzannah - disse o padre Dominic com simpatia. - Mas eu no deveria ter de lembrar que voc tem muito, muito mais bnos na 
vida do que a maioria das pessoas. Voc  uma garota de muita sorte.
- Agora voc parece estar melhor, Suzannah. Ento talvez no se incomode em ir andando depressa. Eu tenho um bocado de trabalho por causa da festa de amanh ... 
Pensei no quanto eu no tinha lhe contado. Quero dizer, sobre Craig e Neil Jankow, para no mencionar Paul, o Dr. Slaski e os deslocadores. 
Eu deveria ter contado sobre o Paul. No mnimo deveria ter contado sobre toda a sua teoria do recomeo. Mas talvez no. Paul definitivamente no estava a fim de 
boa coisa, como meus ps doloridos podiam ate estar. 
Mas admito que estava meio chateada com o padre Dominic. Era de pensar que ele deveria ter demonstrado um pouquinho mais de compaixo. Puxa, ele simplesmente me 
deixou de corao partido. Pior, fez isso por ordem de Jesse. Jesse nem teve coragem de dizer na minha cara que no me amava. No, tinha mandado seu "confessor" 
falar isso. Beleza. Realmente me fez lamentar no ter vivido em 1850. Devia ser um barato - todo mundo andando por a e mandando os padres fazerem seu servio sujo. 
Eu no podia, claro, ir andando depressa, como o padre Dom tinha sugerido. Praticamente nem podia andar. Mas sai mancando de sua sala, sentindo uma pena extrema 
de mim mesma. Ainda estava chorando - tanto que, quando a secretria do padre D. me viu, falou com uma preocupao maternal: 
- Ah, querida! Voc est bem? Aqui, pegue um leno de papel. 
O que foi muito mais reconfortante do que tudo que o padre D. tinha feito par mim na ltima meia hora. 
Peguei o leno e assoei o nariz, depois peguei mais alguns para viagem. Tinha a sensao de que estaria com o berreiro aberto at pelo menos a terceira aula. 
Quando sa no caminho coberto que atravessava o ptio, tentei me controlar. Certo. Ento o cara no gostava de mim. Um monte de caras no tinham gostado de mim no 
passado, e eu nunca perdi a estribeira desse jeito. E, certo, aquele era o Jesse, a pessoa que eu mais amava no mundo. Mas, ei, se ele no me queria, tudo bem. Sabe 
de uma coisa? Pior para ele,  isso.
Ento por que eu no conseguia parar de chorar? 
O que eu ia fazer sem ele? Puxa, eu tinha me acostumado totalmente a ter Jesse por perto o tempo todo. E o gato dele? Spike tambm ia morar na reitoria? Acho que 
teria de morar. Quero dizer, aquele gato horroroso gostava de Jesse tanto quanta eu. Gato de sorte, ia viver com Jesse. 
Andei por todo o caminho coberto, olhando o ptio encharcado de sol sem ver realmente. Talvez, pensei, o padre D. estivesse certo. Talvez fosse melhor assim. Quero 
dizer, digamos, s por um minuto, que Jesse gostasse de mim tambm. Aonde a coisa iria? Era como Paul tinha dito. O que nos iramos fazer? Namorar? Ir ao cinema 
juntos? Eu teria de pagar, e seria apenas um ingresso. E se algum me visse, aparentemente sentada sozinha, pareceria a maior otria do mundo. Que mico! 
O que eu precisava, percebi, era de um namorado de verdade. No somente de um cara que as pessoas, alm de mim, pudessem ver, mas um cara de quem eu gostasse, que 
gostasse de mim tambm. Era disso que eu precisava. Era exatamente disso que eu precisava. 
Porque quando Jesse descobrisse, talvez percebesse que erro colossal tinha acabado de cometer. 
 meio engraado que, enquanto eu estava pensando nisso, Paul Slater tenha pulado subitamente para perto de mim, saindo de trs de uma coluna, e dito: 
- Ei!

Captulo 14

- V embora.
Porque a verdade era que eu meio que ainda estava chorando, e Paul Slater era praticamente a ltima pessoa no mundo que eu queria que me visse assim. Esperava totalmente 
que ele no notasse. 
No tive essa sorte. Paul falou: - Por que a choradeira?
- Nada - falei, enxugando os olhos com a manga da jaqueta. Tinha usado todos os lenos de papel que a secretaria do padre Dom tinha me dado. - S alergia. 
Paul puxou a minha mo. - Aqui, use isso.
E me passou, imagine s, um leno branco que tinha tirado do bolso.
Engraado como, com tudo o mais que estava acontecendo, eu s conseguia me concentrar naquele quadrado de pano branco. 
- Voc anda com um leno? - perguntei numa voz de taquara rachada.
Paul deu de ombros.
- Nunca se sabe quando a gente vai ter de amordaar algum.
Era uma resposta to diferente da que eu esperava que no pude deixar de rir um pouco. Quero dizer, Paul me amedrontava um pouquinho... certo, muito. Mas mesmo assim 
ainda conseguia ser engraado de vez em quando. 
Enxuguei as lgrimas com o leno, mais consciente da proximidade do dono do que desejava. Paul estava particularmente deleitvel naquela manha, com um suter de 
cashmere cor de carvo e um casaco de couro marrom late. No pude deixar de olhar para sua boca e lembrar da sensao dela na minha. Boa. Mais do que boa. 
Ento meu olhar foi para seu olho, o que eu tinha acertado. Sem marcas. O cara no se machucava facilmente.
Desejei que o mesmo fosse verdade para mim. Ou pelo menos para o meu corao.
No sei se Paul notou a direo do meu olhar - acho que tinha sido bem bvio que eu estivera olhando sua boca. Mas de repente ele levantou os braos e as duas mos 
na coluna de um metro de largura em que eu estava encostada - uma das colunas que sustentam o teto da passagem coberta - meio que me prendendo entre eles. 
- Ento, Suze - disse ele em voz amigvel. - O que o padre Dominic queria falar com voc?
Mesmo que eu estivesse definitivamente  caa de um namorado, tinha toda certeza de que Paul no era o cara certo para mim. Quero dizer, , ele era um gato e coisa 
e tal, e ainda tinha a coisa de ele tambm ser mediador.
Mas tambm tinha a coisa de ele ter tentado me matar.
 meio difcil deixar algo assim de lado. 
De modo que eu estava meio indecisa ali, presa entre os braos dele. Por outro lado, eu no teria me importado em levantar as mos, puxar sua cabea e bancar o desentupidor 
de pias com sua boca. 
Por outro lado, dar um chute rpido na virilha parecia ter um apelo igual, dado o que ele tinha me feito passar no outro dia, com a calada quente, o Hell's Angel 
e tudo o mais.
Terminei no fazendo nem uma coisa nem outra. S fiquei ali parada, com o corao batendo meio forte dentro do peito. Afinal de contas aquele era o cara com quem 
eu vinha tendo pesadelos nas ltimas semanas. Esse tipo de coisa no vai embora s porque o cara passou a lngua na boca da gente e a gente meio que gostou. 
- No se preocupe - falei numa voz que no parecia minha, de to rouca por causa do choro. Pigarreei e depois disse: - Eu no contei nada sobre voc ao padre Dom, 
se  com isso que voc est preocupado.
Paul relaxou visivelmente quando as palavras entraram na sua cabea. Ele at levantou uma das mos da parede e segurou uma mecha do meu cabelo, que tinha se enrolado 
no ombro.
- Gosto mais do seu cabelo solto - disse aprovando. Voc devia sempre usar solto.
Revirei os olhos para esconder o fato de que meus batimentos cardacos, quando ele me tocou, se aceleraram consideravelmente e comecei a me abaixar sob o brao que 
ele ainda estava usando para me prender.
- Onde voc acha que vai? - perguntou ele, movendo-se para me acuar de novo, desta vez dando um passo mais para perto, de modo que nossos rostos estavam separados 
por apenas uns oito centmetros. Seu hlito, eu estava suficientemente perto para notar, ainda cheirava a pasta de dentes que ele tinha usado de manh.
O hlito de Jesse nunca cheirava a nada, porque, claro, ele no est vivo. 
- Paul - falei no que esperava que fosse uma voz calma, totalmente inexpressiva. - Verdade. Aqui no, certo? 
- timo. - Mas ele no se mexeu. - Ento onde? 
- Ah, meu Deus, Paul. - Levei a mo a testa. Estava quente. 
Mas eu sabia que no estava com febre. Por que eu me sentia to quente? Estava fresco na passagem coberta. Era o Paul? Era o Paul que estava fazendo com que eu me 
sentisse assim? - Olha, eu tenho... eu tenho de pensar em um monte de coisas agora. Voc poderia... voc poderia me deixar sozinha um tempo, para pensar?
- Claro. Voc recebeu as flores? 
- Recebi - falei. O que quer que estivesse me deixando to febril tambm me forou a acrescentar, mesmo que eu no quisesse, j que s queria fugir e me esconder 
no banheiro feminino ate a hora da mudana de aulas. - Mas se acha que vou esquecer o que voc fez comigo s porque mandou um punhado de flores idiotas...
- Eu pedi desculpas, Suze. E lamento mais pelos seus ps do que posso dizer. Voc deveria ter me deixado lev-la em casa. Eu no teria tentado nada. Juro. 
- Ah, ? - Encarei-o. Ele era bem mais alto do que eu, mas seus lbios estavam a apenas centmetros dos meus. Eu poderia alcan-los com os meus sem o menor problema. 
No que fosse fazer isso. Achava que no. - De que voc chama o que est fazendo agora? 
- Suze - disse ele, brincando de novo com meu cabelo. 
Seu hlito pinicava meu rosto. - De que outro modo vou conseguir que voc fale comigo? Voc ficou com uma impresso totalmente errada  meu respeito. Acha que eu 
sou algum tipo de bandido. E no sou. Srio. Eu sou... bem, de fato eu sou muito parecido com voc. 
- No sei por que, mas duvido seriamente disso - falei. Sua proximidade estava tornando difcil conversar. E no porque ele estivesse me amedrontando. Ele ainda 
me amedrontava, mas agora de modo diferente.
-  verdade. Quero dizer, ns temos muito em comum. E no somente o negcio de ser mediador. Acho que nossa filosofia de vida  a mesma. Bem, a no ser na parte 
em que voc quer ajudar pessoas. Mas isso  somente culpa. Em todos os outros sentidos, voc e eu somos idnticos. Quero dizer, ns dois somos cnicos e desconfiamos 
dos outros. Quase ao ponto de sermos misantropos, eu diria. Somos almas velhas, Suze. Ns dois j estivemos por a. Nada nos surpreende, e nada nos impressiona. 
Pelo menos... - seu olhar azul glido se cravou no meu - nada at agora. Pelo menos no meu caso.
- Pode ser, Paul - falei, do modo mais paternalista possvel; o que no foi muito, acho, porque sua proximidade estava tornando muito difcil respirar. - o nico 
problema : sabe quem  a pessoa de quem eu mais desconfio no mundo? Voc. 
- No sei por qu. Porque ns fomos claramente feitos um para o outro. Quero dizer, s porque voc encontrou Jesse primeiro...
- No. - A palavra saiu de mim como uma exploso. 
Eu no podia suportar, no podia suportar ouvir o nome dele... pelo menos saindo daqueles lbios. - Paul, eu estou avisando... 
Paul colocou um dedo sobre minha boca. 
- Shhh. No diga nada de que possa se arrepender mais tarde. 
- Eu no vou me arrepender de ter dito isso - falei, com os lbios se movendo de encontro ao dedo dele. - Voc... 
- Voc no est falando srio - disse Paul, cheio de confiana, tirando o dedo de perto da minha boca, passando pela curva do queixo e descendo pela lateral do pescoo. 
- Voc s est amedrontada. Com medo de admitir seus verdadeiros sentimentos. Com medo de admitir que talvez eu saiba algumas coisas que voc e o sbio Gandalf, 
vulgo padre Dominic, talvez no saibam. Com medo de admitir que talvez eu esteja certo, e que voc no est to completamente comprometida com seu precioso Jesse 
quanto gostaria de pensar. Anda, confessa. Voc sentiu alguma coisa quando eu a beijei no outro dia. No negue.
Se eu senti alguma coisa naquele dia? Eu estava sentindo alguma coisa agora, e tudo que ele estava fazendo era passar a ponta do dedo pelo meu pescoo. No era certo 
que esse cara que eu odiava - e eu o odiava, odiava mesmo - pudesse fazer com que eu me sentisse assim... 
... enquanto o cara que eu amava podia fazer com que eu me sentisse uma absoluta ...
Agora Paul estava to perto de mim que seu peito roou a frente do meu suter.
- Quer tentar de novo? - perguntou ele. Sua boca se moveu at estar a uns dois centmetros da minha. - Uma pequena experincia? 
No sei por que no deixei. Quero dizer, ele me beijar de novo. No havia um nervo em meu corpo que no quisesse. Depois de ter levado um fora to tremendo na sala 
do padre Dom, seria legal saber que algum - qualquer um - me queria. At um cara de quem eu j havia sentido um medo mortal. 
Talvez houvesse uma parte de mim que ainda o temesse. 
Ao o que ele poderia fazer comigo. Talvez isso estivesse fazendo meu corao bater to rpido. 
O que quer que fosse, no deixei que ele me beijasse. No podia. Pelo menos naquela hora. E pelo menos ali. Inclinei o pescoo tentando manter a boca fora do seu 
alcance. 
- No vamos - falei tensa. - Eu estou tendo um dia muito ruim, Paul. Realmente agradeceria se voc recuasse... 
Junto com a palavra recuasse eu pus as duas mos no seu peito e o empurrei com o mximo de fora possvel. 
No esperando isso, Paul cambaleou para trs.
- Epa - disse ele quando recuperou o equilbrio. E a compostura. - Qual  o seu problema, afinal?
- Nada - falei torcendo seu leno nos dedos. - Eu s... eu s recebi uma noticia ruim. S isso.
- Ah, ? - Essa tinha sido claramente a coisa errada para dizer a Paul, j que agora ele parecia positivamente intrigado, o que significava que talvez nunca fosse 
embora. - Tipo o que? O chicanozinho deixou voc na mo?
O som que saiu de mim quando ele disse isso foi um cruzamento entre um ofegar e um soluo. No sei de onde veio. Parecia ter sido rasgado de meu peito por alguma
fora invisvel. Aquilo espantou Paul tanto quanto a mim.
- Epa - disse ele de novo, desta vez num tom diferente. - Desculpe. Eu... ele fez isso? Fez mesmo? 
Balancei a cabea, no confiando em mim mesma para falar. Queria que Paul fosse embora - que calasse a boca e fosse embora. Mas ele parecia incapaz das duas coisas.
- Eu meio que pensei - disse ele - que talvez houvesse um problema no paraso quando ele no apareceu para me dar umas porradas depois, voc sabe, do que aconteceu 
na minha casa.
Consegui achar minha voz. Ela saiu spera, mas pelo menos funcionou. 
- Eu no preciso do Jesse para lutar minhas batalhas.
- Quer dizer que voc no contou a ele. Quero dizer, sobre voc e eu.
Quando eu desviei o olhar, Paul disse:
-  isso. Voc no contou a ele. A no ser que tenha contado e ele no tenha se importado. Foi isso, Suze?
- Eu tenho de ir para a aula - falei, e me virei rapidamente para fazer isso.
S que a voz de Paul me fez parar.
- A questo : por que voc no contou? Poderia ser porque, talvez, no fundo, voc tenha medo? Porque talvez, bem no fundo, voc tenha sentido alguma coisa... alguma 
coisa que no quer admitir, nem para si mesma?
Girei.
- Ou talvez - falei - porque bem no fundo eu no quisesse ficar com um assassinato nas mos. Voc j pensou nisso, Paul? Porque Jesse j no gosta muito de voc. 
Se eu contasse a ele o que voc fez, ou pelo menos tentou fazer comigo, ele iria mat-lo.
Eu sabia bem demais que isso era uma completa viagem.
Mas Paul no sabia.
Mesmo assim no recebeu do modo como eu queria.
- Sei - disse Paul com um riso. - Voc deve gostar de mim um pouquinho, caso contrrio teria ido em frente e contado.
Comecei a dizer alguma coisa, percebi a inutilidade e girei de novo para ir embora.
S que dessa vez as portas das salas de aula em toda volta estavam se abrindo, e alunos comearam a sair para a passagem coberta. No existe sistema de campainha 
na Academia da Misso - os conselheiros no querem perturbar a serenidade do ptio ou da baslica com um barulho soando de hora em hora - de modo que ns simplesmente 
trocamos de salas sempre que o ponteiro grande chega no 12. Percebi que o primeiro tempo tinha terminado quando as hordas comearam a circular em volta de mim.
- E ento, Suze? - perguntou Paul, ficando onde estava, apesar do mar de humanidade passando rapidamente por ele. - Foi isso? Voc no me quer morto. Quer que eu 
fique por perto. Porque gosta de mim. Admita.
Balancei a cabea, incrdula. Percebi que era intil discutir com o cara. Ele era simplesmente muito cheio de si para ao menos ouvir o ponto de vista de outra pessoa.
E, claro, havia o pequeno detalhe de que ele estava certo. - Ah, Paul, a est voc! - Kelly Prescott veio at ele, balanando seu cabelo cor de mel. - Procurei 
voc em toda parte. Escuta, eu estive pensando, sobre a eleio, voc sabe, na hora do almoo. Por que voc e eu no damos uma volta pelo ptio, distribuindo chocolates? 
Voc sabe, para lembrar as pessoas. De votar, quero dizer.
Mas Paul no estava prestando absolutamente nenhuma ateno em Kelly. Seu olhar azul-gelo continuava grudado em mim.
- E ento, Suze? - gritou ele, acima do barulho de portas de armrios e do burburinho (ainda que supostamente ns devssemos ficar em silncio durante as trocas 
de salas, para no perturbar os turistas). - Vai admitir ou no?
- Voc esta precisando de psicoterapia intensiva - falei balanando a cabea. 
Ento comecei a passar por eles.
- Paul. - Agora Kelly estava puxando o casaco de couro de Paul, o tempo todo lanando olhares nervosos para mim. - Paul, ol. Terra para Paul. A eleio. Lembra? 
A eleio? Esta tarde?
Ento Paul fez uma coisa que, como percebi logo depois, entraria para os canais da Academia da Misso - e no somente porque Cee Cee viu tambm e anotou para informar 
mais tarde no jornal estudantil. No, Paul fez uma coisa que ningum, com a possvel exceo de mim, tinha feito em todos os 11 anos em que Kelly freqentava a escola.
Deu um fora nela.
- Por que voc no pode me deixar sozinho por cinco minutos, droga? - falou arrancando o casaco de entre os dedos dela.
Kelly, to pasma como se tivesse levado um tapa, ficou dizendo:
- O... o qu?
- Voc ouviu - disse Paul. Ainda que ele no parecesse ter conscincia disso, todo mundo na passagem coberta tinha parado subitamente para ver o que eles estavam 
fazendo, s para saber o que ele faria em seguida. - Eu estou de saco cheio de voc, dessa eleio estpida e dessa escola estpida. Sacou? Agora saia da minha frente, 
antes que eu diga alguma coisa de que possa me arrepender.
Kelly ficou boquiaberta, como se estivesse no consultrio do dentista.
- Paul! - disse ela, perplexa. - Mas... mas... a eleio... os chocolates...
Paul apenas olhou para ela.
- Pegue seus chocolates e enfie no...
- Sr. Slater! - Uma das novias encarregadas de patrulhar a passagem entre as aulas, para se certificar de que nenhum de ns fizesse barulho demais, bateu com o
punho em Paul. - V para a sala do diretor, imediatamente!
Paul sugeriu a novia alguma coisa que eu tinha bastante certeza que iria lhe garantir uma suspenso, se no a expulso. Na verdade o negcio foi to exagerado que 
at eu ruborizei por ele, e eu tenho trs meios-irmos, dois dos quais usam esse tipo de linguagem regularmente quando seu pai no esta por perto. 
A novia irrompeu em lgrimas e foi correndo procurar o padre Dominic. Paul olhou a pequena figura de habito preto correndo, depois olhou para Kelly, que tambm 
estava chorando. Depois olhou para mim.
Havia muita coisa naquele olhar. Raiva, impacincia, nojo.
Mas acima de tudo - e no acho que estivesse enganada - havia mgoa. Srio. Paul estava magoado pelo que eu tinha dito.
Nunca me ocorreu que Paul pudesse ficar magoado. Talvez o que eu disse a Jesse - que Paul era solitrio - estivesse certo, afinal de contas. Talvez o cara realmente 
s precisasse de um amigo.
Mas certamente no estava fazendo muitos na Academia da Misso, isso era certo.
Um segundo depois ele havia rompido o contato visual comigo, virado e sado da escola. Pouco depois ouvi o motor de seu conversvel e depois o guincho dos pneus 
no asfalto do estacionamento.
E Paul tinha ido embora.
- Bem - disse Cee Cee no pouco satisfeita quando chegou perto de mim. - Acho que isso cuida da eleio, no ?
Depois segurou meu punho, estilo vitria em luta de boxe.
- Uma salva de palmas para a senhora vice-presidente!

Captulo 15

Paul no voltou  escola naquele dia.
No que algum esperasse. Uma espcie de boletim de busca e apreenso circulou pela dcima primeira srie, dizendo que, se Paul voltasse, seria posto em suspenso 
automtica por uma semana. Debbie Mancuso ouviu de uma garota da sexta srie que ouviu da secretaria do padre Dom, enquanto ela estava l entregando um aviso de 
atraso. 
Parecia que o melhor era Paul ficar longe at as coisas esfriarem um pouco. Diziam que a novia que ele tinha xingado ficou histrica e teve de ir descansar na sala 
das novias com uma compressa fria na testa at se recuperar. Eu tinha visto o padre Dom com o rosto srio, andando de um lado para o outro diante da porta da sala 
das novias. Pensei em ir at ele dando uma de "Eu no disse?". Mas ia ser como bater num cachorro morto, por isso fiquei longe. 
Alm disso ainda estava furiosa com ele por causa do negcio do Jesse. Quanto mais pensava nisso, com mais raiva ficava. Era como se os dois tivessem conspirado 
contra mim. Como se eu fosse apenas uma garota estpida de 16 anos com uma paixonite em que eles tinham de dar um jeito. O estpido do Jesse estava apavorado demais 
at mesmo para me dizer na cara que no gostava de mim. O que ele achava que eu ia fazer? Dar-lhe um soco na cara? Bem, agora eu certamente estava a fim. 
Ao mesmo tempo em que s queria me enrolar em algum lugar e morrer. 
Acho que no estava sozinha nesse sentimento. Kelly Prescott tambm parecia muito mal. Mas enfrentava a situao de vtima melhor do que eu. Rasgou dramaticamente 
a parte Slater do embrulho de todas as barras de chocolate que restavam. Depois escreveu Simon do lado de dentro. Parecia que eu e ela ramos candidatas na mesma 
chapa de novo. 
Ganhei por unanimidade a vice-presidncia da turma do primeiro ano do segundo grau na Academia da Misso Junipero Serra, a no ser por um nico voto em Brad Ackerman. 
Ningum se perguntou muito quem teria votado em Brad. Ele nem tentou disfarar a prpria letra.
Mas todo mundo perdoou, por causa da festa que ele ia dar naquela noite. Os convidados tinham sido instrudos a s chegar depois das dez, quando estava decidido 
que Jake, depois de seu turno na Pennsula Pizza, chegaria com o barril e vrias dzias de pizzas. Andy e mame tinham deixado um bilhete na geladeira naquela manh, 
listando onde poderiam ser encontrados e nos proibindo de receber convidados para dormir enquanto eles estavam fora. Brad achou isso particularmente hilrio. 
De minha parte, eu tinha coisas mais importantes com que me preocupar do que uma estpida festa na piscina. 
S que Cee Cee e Adam queriam sair depois da aula para comemorar a vitria - que na verdade tinha sido valia, j que meu adversrio basicamente fora chutado da escola. 
Mas Adam apareceu com uma garrafa de sidra para a ocasio. Ele e Cee Cee tinham trabalhado tanto na minha campanha, a qual eu contribura exatamente com nada ... 
bem, a no ser com um slogan. Senti tanta culpa que fui de carro com eles ate a praia depois da aula, e fiquei por tempo suficiente para brindar ao pr-do-sol, um 
costume que datava desde a primeira vez em que ganhara uma eleio estudantil, logo que mudei para Carmel, havia oito meses. 
Quando cheguei em casa descobri varias coisas. Uma: alguns dos convidados tinham comeado a chegar cedo, dentre eles Debbie Mancuso, que sempre teve uma certa paixonite 
por Brad, desde a noite em que eu peguei os dois agarrados no vestirio da piscina na casa de Kelly Prescott. E dois: ela sabia tudo sobre Jesse. 
Ou pelo menos pensava que sabia. 
- Ento quem  esse cara que Brad disse que voc esta namorando, Suze? - perguntou ela, parada junto ao balco da cozinha, artisticamente empilhando copos de plstico 
como preparativo para a chegada do barril. Brad estava l fora, com dois colegas, botando uma boa dose de cloro na piscina, sem duvida em antecipao a todas as 
bactrias com as quais ela se encheria assim que seus amigos mais desagradveis mergulhassem.
Debbie estava toda vestida para a festa, o que inclua uma mini-blusa e aquelas calas fofas de odalisca que, pelo que imaginei, ela pensava que escondiam o tamanho 
de sua bunda, que no era pequena, mas que na verdade s a faziam parecer maior. No gosto de falar mal das pessoas do meu sexo, mas Debbie Mancuso realmente  meio 
parasita. Ela vinha sugando Kelly h anos. Eu s esperava que ela no virasse o sugador para mim em seguida. 
- S um cara - falei friamente, passando por ela para pegar um refrigerante diet na geladeira. Ia precisar de um barato de cafena, eu sabia, para me fortificar 
para a noite: primeiro confrontando Jesse, depois a festa. 
- Ele estuda na RLS? - quis saber Debbie. 
- No - falei abrindo o refrigerante. Eu vi que Brad tinha retirado o bilhete de Andy e minha me. Bem, era meio embaraoso, acho. - Ele no est no segundo grau. 
Os olhos de Debbie se arregalaram. Ela ficou impressionada. 
-  mesmo? Ento est na faculdade? Jake conhece ele? 
-No. 
Quando no aprofundei mais, Debbie falou: 
- Hoje foi bem estranho, no foi? O negcio do tal de Paul. 
- . - Eu imaginei se Jesse estaria l em cima ou no, me esperando, ou se simplesmente iria embora sem se despedir. Pelo modo como as coisas andavam ultimamente, 
eu estava apostando na segunda hiptese. 
- Eu meio que ... quero dizer, umas garotas andaram falando ... - Debbie, que nunca foi a pessoa mais articulada, parecia estar tendo mais dificuldade do que o normal 
para desembuchar o que queria dizer. - Que o tal de Paul parece que ... gosta de voc. 
- ? - Eu sorri sem calor. - Bom, pelo menos algum gosta. 
Ento subi a escada at o meu quarto. 
Na subida encontrei David descendo. Ele estava carregando um saco de dormir, uma mochila e o laptop que tinha ganhado numa colnia de frias de informtica por ter 
criado o videogame mais avanado. Max vinha atrs, na coleira. 
- Aonde voc vai? - perguntei.
- Para a casa do Todd. - Todd era o melhor amigo de David. - Ele disse que Max e eu podamos passar a noite l. Quero dizer, parece que ningum vai conseguir dormir 
por aqui hoje. 
- Sabia deciso - falei, aprovando. 
- Voc deveria fazer a mesma coisa. Ficar na casa de Cee Cee. 
- Eu ficaria - falei saudando-o com meu refrigerante. - Mas tenho uma coisinha para fazer aqui. 
David deu de ombros. 
- Certo. Mas no diga que eu no avisei. 
Ento ele e Max continuaram descendo a escada. 
No fiquei surpresa ao ver que Jesse no estava no meu quarto quando entrei. Covarde. Chutei os chinelos para longe, entrei no banheiro e tranquei a porta. No que 
portas trancadas fizessem diferena para os fantasmas. E no que Jesse fosse aparecer, de qualquer modo. Eu s me sentia mais segura assim. 
Ento enchi a banheira e entrei, deixando a gua quente acariciar meus ps sofridos e aliviar o corpo cansado. Uma pena no haver nada que eu pudesse fazer para 
o corao dolorido. Talvez chocolate ajudasse, mas por azar eu no tinha nenhum no banheiro. 
A pior parte de tudo era que, no fundo, eu sabia que o padre Dom estava certo sobre a mudana de Jesse. Era melhor assim. Quero dizer, qual era a alternativa? Que 
ele ficasse aqui, e eu simplesmente continuasse dando em cima? O amor no correspondido  legal nos livros e coisa e tal, mas na vida real  um horror. 
S que - e essa era a parte que mais doa - eu poderia ter jurado, naquele dia, semanas atrs, quando ele me beijou, que ele sentia alguma coisa por mim. Verdade. 
E no estou falando do que eu tinha sentido pelo Paul, que, encaremos a coisa, era teso. Eu gostava da forma do cara, admito. Mas no o amava. 
Eu tinha tanta certeza - tanta - de que Jesse me amava! Mas obviamente estava errada. Bom, eu estava errada na maior parte do tempo. Ento qual a novidade? 
Depois de ficar de molho um tempo, sa da banheira.
Refiz os curativos nos ps e vesti meus jeans mais confortveis, cheios de buracos, os que mame disse que eu nunca teria permisso de usar em pblico e que ela 
vivia ameaando jogar fora, com uma camiseta de seda preta. 
Depois voltei para o quarto e achei Jesse sentado em seu lugar de sempre no banco da janela, com Spike no colo. 
Ele sabia. Eu vi com um nico olhar que ele sabia que o padre Dom tinha conversado comigo e s estava esperando - cautelosamente - para ver qual seria a reao. 
No querendo desapont-lo, falei muito educadamente: - Ah, voc ainda est aqui? Pensei que j tinha se mudado para a reitoria. 
- Suzannah - disse ele. Sua voz estava baixa como a de Spike quando rosnava para Max atravs da porta do meu quarto. 
Ouvi as palavras saindo da boca, mas juro que no sei de onde vinham. Eu tinha me dito, na banheira, que ia ser madura e sensata com relao aquilo tudo. E aqui 
estava eu, sendo irritante e infantil, e ainda no tinha se passado um minuto de conversa. 
- Suzannah - disse Jesse ficando de p. - Voc deveria saber que  melhor assim. 
- Ah - falei dando de ombros para mostrar como eu estava muito, muito despreocupada com a coisa toda. - Claro. D minhas lembranas  irm Ernestine. 
Ele s ficou ali parado, me olhando. Eu no podia decifrar sua expresso. Se pudesse, no teria me deixado apaixonar por ele. Voc sabe, por causa do negcio de 
ele no me amar. Seus olhos eram escuros - to escuros quanta os de Paul eram claros - e inescrutveis. 
- Ento  s isso que voc tem a me dizer? - disse ele, parecendo com raiva, por motivos que eu nem podia comear a avaliar. 
Eu no podia acreditar. O cara tinha peito! Imagine, ele com raiva de mim! 
-  - falei. Depois me lembrei de uma coisa. - Ah, no, espera. 
Os olhos escuros relampejaram. - O qu? 
- Craig. Eu esqueci do Craig. Como ele est?
Os olhos escuros ficaram sombrios de novo. Jesse pareceu quase desapontado. Como se ele tivesse algo para estar desapontado! Era eu que estava com o corao sendo 
arrancado do peito. 
- Est igual. Infeliz por ter morrido. Se voc quiser, eu posso pedir ao padre Dominic ... 
- Ah - falei. - Acho que voc e o padre Dominic j fizeram o bastante. Eu cuido do Craig sozinha, acho. 
- timo. 
- timo. 
- Bem ... - as olhos escuros se cravaram nos meus. - Adeus, Suzannah. 
Mas Jesse no se mexeu. Em vez disso fez uma coisa que eu no esperava nem um pouco. Estendeu a mo e tocou no meu rosto. 
- Suzannah - disse ele. Seus olhos escuros, cada um contendo uma minscula estrela branca do reflexo da luz do meu quarto, se cravaram nos meus. - Suzannah, eu ... 
S que eu no soube o que Jesse ia dizer em seguida, porque a porta do meu quarto se abriu de repente. 
- Desculpe interromper - disse Paul Slater.

Captulo 16

Paul. Eu tinha me esquecido dele. Dele e do qu, exatamente, ele e eu tnhamos feito nesses ltimos dias. E era um monte de coisas que eu particularmente no queria
que Jesse ficasse sabendo. 
- Bateu muito na porta? - perguntei a Paul, esperando que ele no notasse o pnico na minha voz enquanto Jesse e eu nos separvamos. 
- Bem - disse Paul, parecendo bastante convencido para um cara que tinha sido suspenso da escola naquele dia. - Eu ouvi toda a balburdia e achei que voc estava 
com convidados. No percebi, claro que voc estava recebendo o Sr. De Silva.
Jesse, eu vi, estava encarando o olhar irnico de Paul com uma expresso bastante hostil. 
- Slater - disse Jesse numa voz no particularmente agradvel.
- Jesse - disse Paul em tom ameno. - Como vai, esta noite?
- Estava melhor antes de voc entrar. 
As sobrancelhas escuras de Paul se levantaram, como se ele estivesse surpreso em ouvir isso. 
- Mesmo? Ento Suze no contou as novidades? 
- Que no... - Jesse comeou a perguntar, mas eu interrompi rapidamente.
- Sobre os deslocadores? - Eu entrei na frente de Jesse, como se ao fazer isso pudesse proteg-lo da coisa pouco agradvel que achava que Paul ia fazer. - E a coisa
de transferncia de almas? No, ainda no tive chance de contar isso a Jesse. Mas vou contar. Obrigado por ter passado aqui. 
Paul s riu para mim. E alguma coisa naquele riso fez meu corao acelerar de novo... 
E no porque algum estava tentando me beijar. 
- No  por isso que eu estou aqui - disse Paul, mostrando todos os seus dentes muito brancos.
Senti Jesse ficar tenso ao meu lado. Ele e Spike estavam se comportando com antagonismo extraordinrio com relao a Paul. Spike tinha pulado no banco da janela 
e, com todo o plo eriado, rosnava alto para Paul. Jesse no estava sendo to bvio em seu desprezo pelo cara, mas eu achei que era apenas questo de tempo.
- Bem, se voc veio para a festa do Brad - falei rapidamennte - parece meio perdido.  l embaixo, e no aqui.
- Eu tambm no estou aqui pela festa. Vim para devolver isso. - Ele enfiou a mo no bolso dos jeans e tirou uma coisa pequena e escura. - Voc deixou no meu quarto 
no outro dia.
Olhei para o que ele segurava na mo estendida. Era o prendedor de cabelo, de tartaruga, o que tinha sumido. Mas no desde que eu tinha estado no quarto dele. Eu 
tinha sentido falta dele desde a segunda-feira de manh, o primeiro dia de aula. Devo ter deixado cair, e ele pegou. 
Pegou e segurou a semana inteira, s para poder jogar na cara de Jesse, como estava fazendo agora. 
E arruinar minha vida. Porque Paul era isso. No um mediador. No um deslocador. Um arruinador. 
Um rpido olhar para Jesse me mostrou que aquelas palavras faladas em tom casual - Voc deixou no meu quarto no outro dia - tinham acertado no alvo, sem dvida. 
Jesse parecia ter levado um soco no estmago.
Eu sabia como ele se sentia. Paul provocava esse efeito nas pessoas. 
- Obrigada - falei, pegando o prendedor na sua mo. Mas eu perdi na escola, e no na sua casa. 
- Tem certeza? - Paul sorriu para mim. Era espantoso como ele parecia inocente quando queria. - Eu podia jurar que voc deixou na minha cama.
O punho veio de lugar nenhum. Juro que no vi chegando. Num minuto eu estava ali parada, imaginando como explicaria isso a Jesse, e a prxima coisa que vi foi o 
punho de Jesse entrando na cara de Paul. 
Paul tambm no tinha visto. Caso contrrio teria se desviado. Apanhado totalmente desprevenido, ele foi girando direto at minha penteadeira. Frascos de perfume 
e de esmalte de unha choveram quando o corpo de Paul colidiu pesadamente com a penteadeira. 
- Certo - falei, entrando rapidamente entre os dois de novo. - Certo. Chega. Jesse, ele s esta tentando pegar no seu p. No foi nada, certo? Eu fui a casa dele 
porque ele disse que sabia umas coisas sobre algo chamado transferncia de almas. Pensei que talvez fosse alguma coisa que poderia ajudar a voc. Mas juro, foi s 
isso. Nada aconteceu.
- Nada aconteceu - disse Paul, com a voz cheia de diverso enquanto ficava de p. Sangue pingava de seu nariz em toda a frente da camisa, mas ele no parecia notar. 
- Diga uma coisa, Jesse. Ela suspira quando voc a beija, tambm?
Eu queria me matar. Como ele podia fazer isso? Como podia?
A verdadeira pergunta, claro, era: como eu podia? Como eu podia ter sido to estpida a ponto de deixar que ele me beijasse assim? Porque eu tinha deixado - tinha 
at retribudo o beijo. Nada disso teria acontecido se eu tivesse tido um pouco mais de controle. 
Naquele dia eu estava magoada, estava com raiva, e estava - encaremos os fatos - solitria.
Como Paul. 
Mas nunca tinha pretendido magoar ningum de propsito.
Dessa vez o punho de Jesse mandou-o girando at o banco da janela, onde Spike, no muito feliz com o que estava acontecendo, soltou um chiado e pulou pela janela 
aberta at o teto da varanda. Paul aterrissou de cara. Quando levantou a cabea, eu vi sangue em cima das almofadas de veludo. 
- J chega - falei de novo, pegando o brao de Jesse enquanto ele preparava outro soco. - Meu Deus, Jesse, voc no v o que ele est fazendo? Est tentando deixar 
voc maluco. No lhe d essa satisfao. 
- No  isso que eu estou tentando fazer - disse Paul no cho. Ele tinha rolado a cabea para trs, perto da almofada suja de sangue e estava beliscando o nariz 
para estancar a mar de sangue que jorrava mais ou menos livremente. - Estou tentando deixar claro para o Jesse que voc precisa de um namorado de verdade. Puxa, 
qual ! Quanto tempo voc acha que isso vai durar? Suze, eu no disse antes, mas vou dizer agora porque sei no que voc esteve pensando. A transferncia de almas 
s funciona se voc arrancar a alma que estiver ocupando um corpo e depois jogar a alma de outro dentro. Em outras palavras,  assassinato. E sinto muito, mas voc 
no me parece uma assassina. Seu garoto Jesse vai ter de entrar na luz um dia desses. Voc s esta segurando o cara...
Senti o brao de Jesse se mover convulsivamente, por isso joguei todo o meu peso nele. 
- Cale a boca, Paul - falei.
- E voc, Jesse? Quero dizer, que diabo voc pode dar a ela? - Agora Paul estava rindo, apesar do sangue que continuava pingando do rosto. - Voc nem pode pagar 
um caf para ela... 
Jesse explodiu da minha mo.  o nico modo como posso descrever. Num minuto ele estava ali, no outro estava em cima de Paul, e os dois estavam com as mos apertando 
o pescoo um do outro. Foram batendo no cho com fora suficiente para sacudir toda a casa.
No que algum pudesse ouvi-los, eu tinha certeza. Brad tinha ligado o som lei embaixo, e agora a msica pulsava pelas paredes. Hip-hop, a predileta de Brad. Eu 
tinha certeza de que os vizinhos gostariam de ser acalentados a noite toda por aquelas doces melodias. 
No cho, Jesse e Paul rolavam. Pensei em bater na cabea deles com alguma coisa. O fato era que os dois eram to cabeas-duras que provavelmente no adiantaria nada. 
Argumentar com eles no tinha ajudado. Eu precisava fazer alguma coisa. Eles iam se matar e seria tudo minha culpa. Minha estpida culpa.
No sei o que ps a idia do extintor de incndio na minha cabea. Eu estava ali parada, olhando perplexa Jesse jogar Paul com fora contra minha estante, quando 
de repente foi tipo: ah, sim. O extintor. Virei-me e sai do quarto, desci correndo a escada com a pulsao da msica ficando cada vez mais alta (e os sons da briga 
no meu quarto ficando mais distantes) a cada passo. 
Embaixo, a festa de Brad estava no pique total. Dezenas de corpos pouco vestidos apinhavam a sala de estar, girando e danando no ritmo. Metade deles eu nem reconhecia. 
Ento percebi que eram os amigos de Jake, da faculdade. Na pressa vi Neil Jankow segurando um daqueles copos de plstico azul que Debbie Mancuso tinha empilhado 
com tanto cuidado no balco da cozinha. Neil derramou espuma em toda parte quando passei esbarrando nele.
Ento Jake tinha chegado com o barril, agora eu sabia. Tive de me achatar na parede s para passar pelas pessoas apinhadas no corredor para a cozinha. Assim que 
cheguei, vi que l tambm estava cheio de gente que eu nunca tinha visto. Um olhar pela porta deslizante de vidro revelou que a piscina, projetada para poucas pessoas, 
estava com umas trinta, na maioria montadas umas nas outras. Era como se minha casa tivesse virado subitamente a Manso da Playboy. No dava para acreditar.
Achei o extintor de incndio debaixo da pia, onde Andy o mantinha para o caso de a gordura pegar fogo no fogo. Precisei gritar "com licena" at ficar rouca, antes 
de algum se mexer o suficiente para me deixar voltar ao corredor. Quando finalmente cheguei, fiquei chocada ao ouvir algum gritando meu nome. Virei-me e ali, para 
minha absoluta perplexidade, estava Cee Cee com Adam. 
- O que vocs esto fazendo aqui? - gritei para eles. 
- Ns fomos convidados - gritou Cee Cee de volta. Meio sem graa, notei. Achei que talvez os dois estivessem recebendo alguns olhares estranhos. Eles no circulavam 
no mesmo meio social do meu meio-irmo Brad, de jeito nenhum.
- Olha - disse Adam, levantando um dos panfletos de Brad. - Ns viemos legalmente. 
- Bem, fantstico - falei. - Divirtam-se. Escutem, eu estou com uma complicao l em cima...
- Ns vamos com voc - gritou Cee Cee. - Aqui embaixo est barulhento demais.
Eu sabia que no estaria mais tranqilo no meu quarto. 
Alm disso havia toda a coisa de Paul Slater lutando com o fantasma de meu suposto namorado l em cima. 
- Fiquem aqui - falei. - Eu volto num minuto.
Mas Adam notou o extintor e disse: 
- Legal! Efeitos especiais. - E partiu atrs de mim.
No havia nada que eu pudesse fazer. Quero dizer, eu tinha de voltar para cima se quisesse impedir Paul e Jesse de se matarem - ou pelo menos impedir Jesse de matar 
Paul, j que Jesse, claro, j estava morto. Cee Cee e Adam teriam de enfrentar o que quer que vissem, caso fossem atrs de mim.
Eu esperava despist-los na escada, mas essas esperanas foram destrudas quando, depois de finalmente chegar a escada, vi Paul e Jesse rolando por ela.
Pelo menos foi o que eu vi. Os dois atracados numa luta de vida ou morte, rolando escada abaixo um em cima do outro, cada um segurando a roupa do outro.
No foi o que Cee Cee e Adam - ou qualquer outra pessoa que estivesse olhando na hora - viram. O que viram foi Paul Slater, sangrando e machucado, cair pela minha 
escada e aparentemente batendo... bem, em si mesmo. 
- Ah, meu Deus - gritou Cee Cee, enquanto Paul (ela no podia ver que Jesse tambm estava ali) caa com estrondo aos seus ps. - Suze! O que est acontecendo?
Jesse se recuperou antes de Paul. Ficou de p, abaixou-se, pegou Paul pelos braos e puxou-o, para poder bater nele de novo. 
No foi o que Cee Cee, Adam e todos os outros que por acaso estavam olhando na direo da escada naquele momento viram. O que viram foi Paul ser puxado para cima 
por alguma fora invisvel e depois jogado, por um soco invisvel, para o outro lado da sala.
Boa parte dos giros pararam. A msica continuou batucando, mas ningum danava mais. Todo mundo s estava ali parado, olhando Paul.
- Ah, meu Deus - gritou Cee Cee. - Ele est drogado?
Adam balanou a cabea, dizendo:
- Isso explicaria muita coisa sobre o cara.
Enquanto isso Jake, aparentemente alertado por algum, entrou na sala de estar, deu uma olhada para Paul se retorcendo no cho (com as mos de Jesse em volta do 
pescoo, ainda que eu fosse a nica que pudesse ver isso) e disse:
- Ah, meu Deus.
Ento, me vendo com o extintor de incndio, Jake se aproximou, tirou-o de mim e mandou um jato de espuma branca na direo de Paul. 
Mas no adiantou muito. S fez com que os dois rolassem para a sala de jantar - fazendo um bocado de gente pular do caminho - e depois se chocar contra o armrio 
de louas de mame - que, claro, balanou e caiu, despedaando todos os pratos de dentro. 
Jake ficou pasmo.
- O que est acontecendo com esse cara? Est doido? Neil Jankow, que estivera parado ali perto com seu copo de cerveja ainda na mo, disse:
- Talvez ele esteja tendo um ataque.  melhor algum chamar uma ambulncia.
Jake ficou alarmado.
- No - gritou. - No, nada de policia! Ningum chame a polcia!
Pelo menos foi o que ele estava dizendo at o momento em que Jesse jogou Paul para o deque, atravs da porta deslizante. 
Foi a chuva de vidro que finalmente alertou todas as pessoas da piscina para a batalha de vida ou morte que estivera acontecendo dentro da casa. Gritando, lutaram 
para sair do caminho do corpo de Paul que se sacudia, mas descobriram que a rota de fuga estava perigosamente impedida por cacos de vidro quebrado. Descalas, as 
pessoas da piscina no tinham para onde ir enquanto Paul e Jesse trocavam socos no deque. 
Brad, um dos que estavam presos na piscina - com Debbie Mancuso pendurada nele como um peixe piloto - olhava incrdulo para o buraco enorme onde estivera a porta 
de vidro. Ento trovejou:
- Slater! Voc vai pagar uma porta nova, seu escroto! Mas Paul no tinha condies de prestar muita ateno.
Porque estava lutando apenas para respirar. Jesse o havia agarrado pelo pescoo e estava segurando-o por cima da borda da piscina.
- Voc vai ficar longe dela? - perguntou Jesse, enquanto as luzes do fundo da banheira os envolviam num brilho azul fantasmagrico.
Paul gorgolejou:
- De jeito nenhum!
Jesse enfiou a cabea de Paul debaixo d'gua e segurou-a ali.
Neil, que tinha seguido Jake para 0 deque, apontou e gritou: 
- Agora ele esta tentando se afogar! Ackerman,  melhor voc fazer alguma coisa, e rpido.
- Jesse! - gritei. - Solte-o. No vale a pena. Cee Cee olhou em volta.
- Jesse? - ecoou ela, confusa. - Ele est aqui?
Jesse se distraiu o suficiente para afrouxar um pouco o aperto, e Jake, com a ajuda de Neil, pde puxar Paul para cima, ofegando, agora com o sangue misturado a 
gua clorada em toda a frente de sua camisa.
Eu no podia mais suportar.
- Vocs tm de parar com isso - falei para Jesse e Paul. - J chega. Vocs arrebentaram com minha casa. Arrebentaram um com o outro. E... - acrescentei a ltima 
frase enquanto olhava em volta e via todos os olhares curiosos e meio apavorados apontados para mim -...acho que praticamente destruram a pouca reputao que eu 
j tive.
Mas antes que Jesse ou Paul pudessem responder, outra voz interveio.
- No acredito que vocs tinham um barril de cerveja e ningum me convidou - disse Craig Jankow, materializando-se a esquerda do irmo. - Srio - continuou Craig,
enquanto eu lanava um olhar incrdulo -, isso  bem legal. Vocs, mediadores, realmente sabem dar uma festa. 
Mas Jesse no estava prestando qualquer ateno ao recm-chegado. Ele disse a Paul: - Nunca mais chegue perto dela de novo. Entendeu? 
- V se catar - sugeriu Paul.
E estava de volta a banheira, espirrando gua. Jesse o arrancou das mos de Jake. 
A surpresa foi que dessa vez Neil afundou com Paul. 
Porque Craig, aprendendo rapidamente, tinha decidido ir em frente e seguir com seu negcio de "se eu estou morto meu irmo tambm deveria estar", agora que Jesse 
tinha mostrado como.
- Neil! - gritou Jake, tentando puxar Paul e seu amigo (que, pelo que ele sabia, tinha mergulhado inexplicavelmente de cara na gua) do fundo da banheira. O que 
ele no sabia, claro, era que mos fantasmagricas estavam segurando os dois no fundo. 
Mas eu sabia. Tambm sabia que no havia nada que qualquer um de ns pudesse fazer para que elas os soltassem. Os fantasmas tem fora sobre-humana. No havia como 
nenhum de ns conseguir que eles desistissem das vtimas. Pelo menos at elas estarem mortas como... bem, como seus assassinos. 
E por isso eu sabia que teria de fazer uma coisa que realmente no queria fazer. S no via outra sada. As ameaas no tinham dado certo. A fora bruta no tinha 
dado certo. S tinha um jeito.
Mas eu realmente, realmente no queria us-lo. Meu peito estava apertado de medo. Eu mal podia respirar, de to apavorada. Quero dizer, na ultima vez em que estivera 
naquele lugar, quase morri. E no tinha como saber se Paul tinha me dito a verdade ou no. E se eu tentasse fazer o que ele disse e terminasse num lugar ainda pior 
do que onde havia parado antes?
Se bem que seria difcil imaginar um lugar pior. Mesmo assim, que opo eu tinha? Nenhuma. S que realmente, realmente no queria fazer.
Mas acho que a gente nem sempre tem o que quer. Com o corao na garganta, enfiei as mos na gua quente e borbulhante e agarrei duas camisas. Nem sabia de quem 
eram as roupas que tinha segurado. S sabia que esse era o nico modo que eu conhecia para impedir um assassinato.
Ento fechei os olhos e visualizei aquele lugar que nunca esperava ver de novo. 
E quando abri os olhos, estava l.

Captulo 17

Eu no estava sozinha. Paul estava comigo. E Craig Jankow tambm.
- Que diab... ? - Craig olhou para um lado e outro do corredor comprido e num silncio fantasmagrico que contrastava com o barulho da festa de Brad. - Onde  que 
ns estamos? 
- Onde voc deveria estar h muito tempo - disse Paul, cuidadosamente espanando fiapos de sua camisa (se bem que, como este era um plano alternativo e s sua conscincia, 
mas no seu corpo, estava ali, no havia fiapos para espanar). Para mim, Paul disse com um sorriso: - Bom trabalho, Suze. E olha que foi sua primeira tentativa. 
- Cala a boca. - Eu no estava no clima para amenidades. 
Estava num lugar onde realmente, realmente no queria estar... um lugar que, toda vez em que voltava a ele nos meus pesadelos, me deixava completamente esgotada 
fsica e emocionalmente. Um lugar que sugava minha vida... para no mencionar minha coragem. - No estou exatamente feliz com isso.
- D para ver. - Paul levantou a mo e tateou o nariz. 
Como estvamos no mundo dos espritos, e no no real, ele no sangrava mais. Suas roupas tambm no estavam molhadas. - Voc sabe que o fato de estarmos aqui em 
cima significa que nossos corpos, l embaixo, esto inconscientes.
- Sei - respondi olhando nervosamente para um lado e outro do corredor cheio de nvoa. Como nos sonhos, eu no podia ver o que havia em cada extremidade. Era s 
uma fileira de portas que pareciam continuar para sempre. 
- Bem - disse Paul -, Isso deve atrair a ateno de Jesse, de qualquer modo. Voc subitamente entrando em coma, quero dizer. 
- Cala essa boca - falei de novo. Sentia vontade de chorar. Realmente. E odeio chorar. Quase mais do que odeio cair em poos sem fundo. - Isso tudo  sua culpa. 
Voc no devia ter provocado o Jesse. 
- E voc - disse Paul com uma fagulha de raiva - no deveria andar por a beijando... 
- Com licena - interrompeu Craig. - Mas algum poderia me dizer exatamente o que... 
- Cala a boca - dissemos Paul e eu, exatamente ao mesmo tempo
Ento, para Paul, eu falei com a voz embargada: 
- Olha, eu lamento o que aconteceu na sua casa. Certo? Eu perdi a cabea. Mas isso no significa que alguma coisa esteja acontecendo entre ns. 
- Voc perdeu a cabea - respondeu Paul, inexpressivo.
- Isso mesmo. - Os plos da minha nuca estavam ficando de p. Eu no gostava desse lugar. No gostava da nvoa branca que lambia minhas pernas. No gostava do silncio 
sepulcral. E no gostava especialmente de no poder ver mais do que poucos metros adiante. Quem sabia onde o cho iria sumir debaixo dos ps?
- E se eu quiser que haja alguma coisa entre ns? - perguntou ele.
-Azar.
Ele olhou para Craig, que estava comeando a andar pelo corredor, olhando com interesse as portas fechadas de cada lado. 
- E quanto ao deslocamento? - perguntou Paul. 
- O que  que tem? 
- Eu disse a voc como fazer, no disse? Bem, h outras coisas que eu posso lhe mostrar. Coisas que voc nunca sonhou que poderia fazer. 
Parei. Pensei no que ele tinha dito naquela tarde em seu quarto, sobre transferncia de alma. Havia uma parte de mim que queria saber do que se tratava. Havia uma 
parte de mim que queria tremendamente saber sobre isso. 
Mas tambm havia uma grande parte que no queria ter nada a ver com Paul Slater. 
- Qual , Suze. Voc sabe que esta doida para saber. Toda a sua vida voc esteve pensando em quem, ou no que, voc  realmente. E eu estou dizendo que tenho as respostas. 
Eu sei. E vou ensinar, se voc permitir. 
Encarei-o, furiosa. 
- E o que voc ganha com essa oferta magnnima? 
- O prazer de sua companhia - disse ele com um sorriso. 
Falou isso casualmente, mas eu soube que no havia nada de casual naquilo. Motivo pelo qual, apesar de estar doida para descobrir mais sobre todas as coisas que 
ele dizia saber, fiquei relutante em aceitar a oferta. Parque havia um ardil. E o ardil era que eu teria de passar tempo com Paul Slater.
Mas talvez valesse a pena. Quase. E no porque eu finalmente poderia ter alguma idia da verdadeira natureza de nosso suposto dom, mas porque finalmente eu poderia 
ser capaz de garantir a segurana de Jesse... pelo menos com relao a Paul.
- Certo - falei.
Dizer que Paul ficou surpreso seria 0 eufemismo do ano.
Mas antes que ele pudesse dizer alguma coisa, acrescentei, carrancuda:
- Mas Jesse est fora dos limites para voc. Chega de insultos. Chega de brigas. E chega de exorcismos. 
Uma das escuras sobrancelhas de Paul se levantou. - Ento  assim que  - disse ele lentamente.
- .  assim que .
Paul no falou nada por um tempo to longo que eu achei que ele queria esquecer a coisa toda. O que, para mim, estaria timo. Mais ou menos. A no ser pela parte 
do Jesse.
Mas ento Paul deu de ombros e disse: - Por mim, tudo bem. 
Encarei-o, mal ousando acreditar nos meus ouvidos. Ser que eu tinha engendrado - com grande sacrifcio pessoal, admito - a liberao de Jesse?
Foi o jeito casual de Paul com relao a coisa toda que me convenceu de que sim. Especialmente sua reao a Craig, quando este estendeu a mo, sacudiu uma das maanetas 
e gritou:
- Ei, o que tem atrs dessas portas?
- Sua recompensa merecida - disse Paul com um risinho. Craig olhou, por cima do ombro, para Paul.
- Verdade? Minha recompensa merecida?
- Claro - disse Paul. 
- No oua o que ele diz, Craig - falei. - Ele no sabe o que tem atrs das portas. Pode ser sua recompensa. Ou pode ser sua prxima vida. Ningum sabe. Ningum 
voltou par uma delas. S se pode entrar.
Craig olhou especulativamente para a porta a sua frente.
- Prxima vida, hein?
- Ou salvao eterna - disse Paul. - Ou, dependendo do quanto voc foi ruim, a danao eterna. V. Abra e descubra se voc foi perverso ou gente fina. 
Craig deu de ombros mas no afastou o olhar da porta a sua frente.
- Bem - disse ele. - Deve ser melhor do que ficar por aqui. Diga a Neil que eu lamento ter agido como um... voc sabe.  s que, bem,  s que no foi muito justo. 
Ento ele encostou a mo na maaneta e girou-a. A porta se abriu uma frao de centmetro... 
E Craig desapareceu num claro de luz to ofuscante que eu tive de levantar as mos para proteger os olhos. 
- Bem - ouvi Paul dizendo alguns segundos depois. - Agora que ele est fora do caminho... 
Baixei os braos. Craig tinha ido embora. No restava nada onde ele estivera parado. At a nvoa parecia inalterada.
- Agora podemos sair daqui? - Paul deu um pequeno tremor. - Esse lugar me d arrepios.
Tentei esconder minha perplexidade ao ver que Paul sentia exatamente o mesmo que eu em relao ao plano espiritual. Imaginei se ele tambm tivera pesadelos com aquilo. 
De algum modo, no parecia.
Mas achei que eu tambm no teria mais.
- Certo - falei. - S que... como  que a gente volta?
- Do mesmo modo - disse Paul, fechando os olhos. - S visualize.
Fechei os olhos, sentindo o calor dos dedos de Paul no meu brao e a lambida fria da nvoa nas minhas pernas...
Um segundo depois o silncio medonho tinha sumido, substitudo pela msica alta. E gritos. E sirenes.
Abri os olhos.
A primeira coisa que vi foi o rosto de Jesse, acima do meu. Estava plido as luzes piscantes, vermelhas e azuis, da ambulncia que tinha parado junto ao deque. Ao 
lado do rosto de Jesse estava o de Cee Cee, e ao lado do dela, o de Jake.
Cee Cee foi a primeira a falar:
- Ela acordou! Ah, meu Deus, Suze! Voc acordou! Voc est bem?
Sentei-me, grogue. No me sentia muito bem. De fato, era como se algum tivesse me dado uma cacetada. Dor de cabea. Dor de cabea latejante. Dor de cabea capaz 
de provocar nuseas.
- Suzannah - O brao de Jesse estava em volta de mim.
Sua voz, no meu ouvido, era ansiosa. - Suzannah, o que aconteceu? Voc esta bem? Aonde... aonde voc foi? Onde est Craig?
- No lugar ao qual pertence - falei, encolhendo-me enquanto luzes vermelhas e brancas faziam minha dor de cabea piorar mil vezes. - Neil... Neil est bem?
- Est timo, Suzannah. -Jesse parecia to trmulo quanto eu: bastante trmulo. Eu no imaginava que os ltimos cinco minutos tivessem sido to fantsticos para 
ele. Quero dizer, comigo cada, inconsciente, e sem motivo aparente. Meus jeans estavam molhados de onde eu tinha cado na gua da piscina. S podia imaginar como 
meu cabelo estaria. Tive medo de passar por um espelho.
- Suzannah. - O modo de Jesse me segurar era possessivo. Deliciosamente possessivo. - O que aconteceu? 
- Quem  Neil? - quis saber Cee Cee. Ela olhou preocupada para Adam. - Ah, meu Deus. Ela est delirando.
- Eu conto mais tarde - falei olhando Cee Cee. A alguns metros de distncia pude ver que Paul tambm estava se sentando. Diferentemente de Neil, sentado onde antigamente 
ficava a porta de vidro, ia se virando sem a ajuda de um paramdico. Mas, como Neil, Paul tossia um monte de gua com cloro. E no somente seus jeans estavam molhados. 
Ele estava encharcado da cabea aos ps. E o nariz sangrava profusamente.
- O que temos aqui? - Uma paramdica se ajoelhou perto de mim. Levantando meu pulso, comeou a medir os batimentos. 
- Ela apagou - disse Cee Cee oficiosamente. - E no, ela no bebeu nada.
- H muita coisa acontecendo aqui - disse a paramdica. Ela verificou minhas pupilas. - Voc bateu a cabea tambm?
- Talvez tenha batido quando desmaiou - disse Cee Cee. 
A paramdica olhou, desaprovando. 
- Quando  que vocs vo aprender? O lcool no combina com piscinas.
No me incomodei em argumentar que eu no estivera bebendo. Nem, por sinal, sentada na piscina. Afinal de contas estava totalmente vestida. Bastou que a paramdica 
me deixasse ir depois de dizer que meus sinais vitais estavam timos e que eu deveria beber muita gua e ir dormir. Neil tambm recebeu carta branca. Eu o vi pouco 
depois, chamando um txi pelo celular. Subi e disse a ele que agora era seguro usar seu carro. Ele s me olhou como se eu fosse maluca. 
Paul no teve tanta sorte quanto Neil e eu. Seu nariz estava quebrado, por isso o levaram para a emergncia. Eu o vi instantes depois de o empurrarem numa maca, 
e ele no parecia feliz. Deu uma olhada para mim pela lateral da tala que tinham grudado no seu rosto.
- Dor de cabea? - perguntou numa voz nasalada.
- De matar.
- Esqueci de avisar a voc. Sempre acontece, depois de um deslocamento.
Paul fez uma careta. Eu percebi que ele estava tentando sorrir. 
- Eu voltarei - falou numa imitao lamentvel do Exterminador do Futuro. Ento os paramdicos vieram para empurrar sua maca.
Depois de Paul ter ido embora, olhei em volta procurando Jesse. No fazia idia do que diria a ele... talvez alguma coisa do tipo: voc no vai ter de se preocupar 
mais com Paul.
S que isso terminou no importando, porque eu no o vi em lugar nenhum. Em vez disso s vi Brad, ofegando muito, e vindo na minha direo. 
- Suze - gritou ele. - Venha. Algum idiota chamou os canas. Vamos ter de esconder o barril antes que eles cheguem. 
Eu s olhei para ele. 
- De jeito nenhum - falei.
- Suze. - Brad estava em pnico. - Qual ! Eles vo confiscar o barril! Ou pior, vo prender todo mundo. 
Olhei em volta e vi Cee Cee parada perto do carro de Adam. Gritei: - Ei, Cee Cee. Posso passar a noite na sua casa? 
Cee Cee gritou de volta: - Claro. Se voc me contar tudo que h para saber sobre o tal de Jesse. 
- No h o que contar - falei. Porque realmente no havia. Jesse tinha ido embora. E eu tinha uma boa idia de para onde. 
E no havia nada que pudesse fazer a respeito.
*#
Captulo 18

Encare os fatos - disse Cee Cee enquanto engolia sua metade de um cannoli que estvamos dividindo no dia seguinte, na festa do padre Serra. - Os homens so um horror.
- Voc  que est dizendo.
- Srio. Ou a gente est a fim deles e eles no esto a fim da gente, ou a gente no est a fim deles...
- Bem-vinda ao meu mundo - falei, carrancuda.
- Ah, qual  - disse ela, abalada com meu tom de voz. - No pode ser to ruim.
Eu no estava no clima para discutir com ela. Por um lado fazia menos de 12 horas que tinha superado a dor de cabea ps-deslocamento. De outro, havia a pequena
questo do Jesse. Eu no estava muito ansiosa para falar dos ltimos acontecimentos nessa rea. 
J estava com problemas demais. Tipo, minha me e meu padrasto. Eles no tinham ficado to homicidas quando chegaram de So Francisco e descobriram os destroos 
onde antes tinha havido sua casa... para no mencionar a convocao da polcia. Brad no somente estava de castigo para o resto da visa, mas Jake, por ter concordado 
com todo o esquema da festa - para no mencionar o fornecimento do lcool -, teve a poupana para o seu Camaro totalmente confiscada para pagar as multas que a festa 
terminou custando. S o fato de David estar em segurana na casa de Todd o tempo todo impediu Andy de matar os dois filhos mais velhos. Mas dava para ver que mesmo 
assim ele estava pensando nisso... especialmente depois de mame ter visto o que aconteceu com o armrio de louas.
No que Andy ou minha me estivessem particularmente satisfeitos comigo, tambm - e no porque soubessem que o armrio de louas arrebentado fosse minha culpa, mas 
porque no dedurei meus meio-irmos. Eu teria dado a entender o uso da chantagem, mas ento eles saberiam que Brad sabia alguma coisa minha que valia chantagem.
Por isso fiquei de boca fechada, feliz porque, pela primeira vez, estava mais ou menos no sentindo culpa. Bem, a no ser com relao ao armrio de louas - se bem 
que, felizmente, apenas eu tivesse conhecimento disso. Mesmo assim sabia que no podia evitar a culpa. Sabia muito bem para onde iria qualquer grana que ganhasse 
trabalhando como bab.
Tenho bastante certeza de que eles estavam pensando em me colocar tambm de castigo. Mas da festa do padre Serra eles no podiam me manter longe, porque, sendo membro 
da direo da turma, a irm Ernestine esperava que eu cuidasse de uma barraquinha. E foi assim que terminei na barraca de cannoli com Cee Cee, que, como editora 
do jornal estudantil, tambm deveria aparecer. Depois das atividades da noite anterior - voc sabe, brigas enormes, viagem ao outro mundo e depois papo furado acompanhado 
por quantidades copiosas de pipoca e chocolate - nenhuma de ns estava nas melhores condies. Mas o nmero surpreendente de freqentadores que pagavam um dlar 
por cannoli no parecia notar os crculos debaixo dos nossos olhos... talvez porque estivssemos usando culos escuros. 
- Certo - disse Cee Cee. Tinha sido burrice da irm Ernestine colocar Cee Cee e eu encarregadas de uma barraca de sobremesa, j que a maioria dos doces que deveramos 
estar vendendo desapareciam pela nossa garganta abaixo. Depois de uma noite como a que tivemos, sentamos necessidade de acar. - Paul Slater. 
- O que  que tem?
- Ele gosta de voc. 
- Acho que sim. 
-  isso? Voc acha? 
- Eu lhe disse - falei. - Eu gosto de outro. 
- Certo - disse Cee Cee. - Jesse.
- Certo. Jesse. 
- Que no gosta de voc?
-Bem... . 
Cee Cee e eu ficamos sentadas em silncio um minuto.
A nossa volta soava msica de mariachis. Perto da fonte, crianas batiam em piatas. A esttua de Junipero Serra tinha sido adornada com guirlandas de flores. Havia 
uma barraca de salsicha com pimenta bem ao lado da de taco. Havia tantos italianos na comunidade da igreja quanto latinos.
De repente, olhando-me por trs dos culos escuros, Cee Cee falou: - Jesse  um fantasma, no ? 
Engasguei no cannoli que estava comendo. - O... o qu? - perguntei entalada.
- Ele  um fantasma - disse Cee Cee. - Voc no precisa se incomodar em negar. Eu estava ali ontem  noite, Suze. Eu vi... bem, eu vi coisas que no podem ser explicadas 
de outro modo. Voc estava falando com ele, mas no havia ningum. E no entanto algum estava segurando o Paul debaixo da gua.
Falei, sentindo-me vermelha como uma beterraba: - Voc pirou. 
- No. No pirei. Gostaria de ter pirado. Voc sabe que eu odeio esse tipo de coisa. Coisas que no podem ser explicadas cientificamente. E aquelas pessoas estpidas 
dizendo que podem falar com os mortos. Mas... - Um turista apareceu, bbado do sol forte, do ar puro do oceano e da cerveja extremamente fraca que estavam servindo 
na barraca alem. Colocou um dlar. Cee Cee lhe entregou um cannoli. Ele pediu um guardanapo. Ns notamos que o porta-guardanapos estava vazio. Cee Cee pediu desculpas. 
O turista deu um riso bem-humorado, pegou o cannoli e foi embora.
- Mas o que? - perguntei nervosa.
- Mas com voc, eu estou disposta a acreditar. E um dia - acrescentou ela, pegando o porta-guardanapos vazio - voc vai me explicar tudo. 
- Cee Cee - falei, sentindo o corao voltar ao ritmo natural. - Acredite.  melhor voc no saber.
- No. - Cee Cee balanou a cabea. - No . Eu odeio no saber as coisas. - Ento sacudiu o porta-guardanapos. - Vou pegar mais. Voc pode ficar sozinha um minuto?
Assenti, e ela se afastou. No sei se ela fazia idia de como tinha me abalado. Fiquei ali sentada, imaginando o que deveria fazer. S uma outra pessoa viva sabia 
o meu segredo - uma nica pessoa alm do padre Dom e de Paul, claro - e nem mesmo ela, minha melhor amiga Gina, l no Brooklyn, sabia tudo. Eu nunca tinha contado 
a mais ningum porque... bem, porque quem iria acreditar?
Mas Cee Cee acreditava. Cee Cee tinha deduzido sozinha e acreditava. Talvez, pensei. Talvez a coisa no fosse to maluca quanta eu sempre achei. 
Ainda estava ali sentada, tremendo, mesmo com os 23 graus e o sol. Estava to absorvida nos pensamentos que no escutei a voz que falava comigo do outro lado da 
barraca, at que ela disse meu nome - ou alguma coisa parecida - por trs vezes.
Ergui os olhos e vi um rapaz com uniforme azul-claro rindo para mim.
- Suze, no ? - disse ele. 
Olhei do sujeito para o rosto do velho cuja cadeira de rodas ele estava empurrando. Era o av de Paul Slater e seu enfermeiro. Sacudi a cabea e me levantei.
- Hmm - falei. - Oi. - Dizer que eu me sentia meio confusa seria o eufemismo do ano. - O que vocs... O que vocs esto fazendo aqui? Eu pensei... eu pensei...
- Voc pensou que ele no podia sair de casa? - perguntou o enfermeiro com um riso. - No exatamente. No, o Sr. Slater gosta de sair. No , Sr. Slater? De fato 
ele insistiu em vir aqui hoje. Eu no achei adequado, voc sabe, dado o que aconteceu com o neto dele ontem  noite, mas Paul est em casa, se recuperando muito 
bem, e o Sr. S. foi inflexvel. No foi, Sr. S.?
O av de Paul fez uma coisa que me surpreendeu. Olhou para o enfermeiro e disse numa voz perfeitamente lcida: - V pegar uma cerveja para mim.
O enfermeiro franziu a testa. 
- Ora, Sr. S. o senhor sabe o que o mdico diz ... 
- Faa isso - disse o Sr. Slater. 
O enfermeiro, com um olhar divertido para mim como se dissesse "Bem, o que se pode fazer?", foi at a barraca de cerveja, deixando o Sr. Slater sozinho comigo. 
Encarei-o. Na ltima vez em que o tinha visto, ele estivera babando. Agora no estava. Seus olhos azuis eram remelentos, certo. Mas eu tinha a sensao de que viam 
muito mais do que estava acontecendo em volta alm de simplesmente reprises de Family Feud.
De fato eu tive certeza disso quando ele falou: 
- Escute. Ns no temos muito tempo. Eu esperava que voc estivesse aqui.
Ele falava depressa e baixo. De fato eu tive de me curvar para a frente, por cima dos cannoli para ouvir. Mas ainda que a voz fosse baixa, a pronuncia era clarssima.
- Voc  um deles. Um dos deslocadores. Acredite, eu sei. Eu tambm sou. 
Pisquei para ele. 
- O senhor... O senhor ?
- Sim. E meu nome  Slaski, no Slater. O idiota do meu filho mudou. No queria que as pessoas soubessem que ele era parente do velho maluco que vivia falando sobre 
pessoas com a capacidade de andar entre os mortos. 
Eu s o encarei. No sabia o que dizer. O que eu poderia dizer? Estava mais pasma com isso do que com o que Cee Cee tinha revelado. 
- Eu sei o que meu neto lhe disse. No preste ateno a ele. Ele entendeu tudo errado. Claro, voc tem a capacidade. Mas isso vai mat-la. Talvez no agora, mas 
com o tempo. - Ele me encarou de dentro de uma mascara de rugas cinzentas e cheias de manchas de velhice. - Eu sei do que estou falando. Como aquele meu neto idiota, 
eu achei que era um deus. No, eu achei que era Deus. 
Eu tentei falar. - Mas... 
- No cometa o meu erro, Susan. Fique longe disso. Fique longe do mundo das sombras. - Mas... 
Mas o av de Paul tinha visto o enfermeiro voltando e rapidamente voltou para seu estado semi-catatnico e no quis falar mais.
- A est, Sr. Slater - disse o enfermeiro, cuidadosamente segurando o copo plstico perto dos lbios do velho. - Boa e gelada.
O Dr. Slaski, para minha descrena completa, deixou a cerveja escorrer pelo queixo e cair na camisa. 
- Eepa! - disse o enfermeiro. - Desculpe. Bem,  melhor a gente se limpar. - Ele piscou para mim. - Foi bom ver voc de novo, Suze. Vejo voc mais tarde. 
Ento empurrou o Dr. Slaski para longe, em direo a barraca de tiro ao pato. 
E para mim bastava. Eu precisava sair dali. No podia ficar mais um minuto na barraca de cannoli. No tinha idia de para onde Cee Cee havia desaparecido, mas ela 
teria de lidar sozinha um tempo com a venda de doces. Eu precisava de um pouco de silncio.
Sai por trs da barraca e andei cegamente pela multido que apinhava o ptio, passando depressa pela primeira porta aberta que encontrei. 
Vi que estava no cemitrio da misso. No voltei. Os cemitrios no me assustam muito. Quero dizer, se bem que talvez seja uma surpresa, os fantasmas quase nunca 
ficam nesses lugares. Quero dizer, perto de suas sepulturas. Eles tendem a se concentrar muito mais nos lugares onde viviam. Na verdade os cemitrios podem ser um 
local de descanso para os mediadores. 
Ou deslocadores. Ou o que quer que Paul Slater esteja convencido de que eu sou. 
Paul Slater que, como eu estava comeando a perceber, no era s um sujeito manipulador que cursava a dcima primeira srie e por acaso sentia teso por mim. No, 
segundo seu av, Paul Slater era... bem, o demnio. 
E eu tinha acabado de lhe vender minha alma. 
Esta no era uma informao que eu poderia processar com facilidade. Precisava de tempo para pensar, tempo para deduzir o que faria em seguida. 
Pisei no cemitrio fresco, sombreado, e entrei num caminho estreito que, nesse ponto, tinha se tornado um tanto familiar para mim. Eu passava um bocado por ele. 
De fato algumas vezes, quando fingia que tinha de ir ao banheiro no meio das aulas, era para c que vinha, ao cemitrio da misso e a este caminho. Porque no fim 
dele havia uma coisa muito importante para mim. Uma coisa da qual eu gostava. 
Mas dessa vez, quando cheguei ao fim do pequeno caminho de pedras, descobri que no estava sozinha. Jesse estava ali, olhando para sua prpria lpide. 
Eu sabia de cor as palavras que ele estava lendo, porque fui eu que, com o padre Dom, tinha supervisionado a gravao delas. 
Aqui jaz Hector "Jesse" De Silva, 1830-1850, Irmo, Filho e Amigo Amado. 
Jesse ergueu os olhos e eu fui para perto. Sem palavras ele estendeu a mo por cima da lpide. Eu cruzei os dedos com os dele. 
- Desculpe - disse ele, com o olhar mais escuro e opaco do que nunca. - Por tudo.
Dei de ombros, mantendo o olhar na terra em volta de sua lpide.
- Entendo, acho. - Mas no entendia. - Quero dizer, voc no pode evitar se... no sente o mesmo que eu sinto por voc.
No sei o que me fez dizer isso. No minuto em que as palavras saram da minha boca, desejei que o tmulo abaixo de ns se abrisse e me engolisse tambm.
Ento voc pode imaginar minha surpresa quando Jesse perguntou, numa voz que eu mal reconheci como sua, de to cheia de emoo represada: 
-  isso que voc acha? Que eu queria ir embora?
- No queria? - Encarei-o, completamente pasma. Estava me esforando muito para ficar friamente distanciada da coisa toda, j que tinha tido o orgulho pisoteado. 
Mesmo assim meu corao, que eu poderia ter jurado que havia se encolhido e explodido h um ou dois dias, subitamente voltou trmulo a vida, mesmo eu o alertando 
para no fazer isso. 
- Como eu poderia ficar? - perguntou Jesse. - Depois do que aconteceu entre ns, Suzannah, como eu poderia ficar?
Eu realmente no tinha a menor idia do que ele estava falando. 
- O que aconteceu entre ns? O que voc quer dizer? 
- Aquele beijo. - Ele soltou minha mo, to subitamente que eu cambaleei.
Mas no me importei. No me importei porque ia comeando a pensar que alguma coisa maravilhosa estava acontecendo. Uma coisa gloriosa. Pensei nisso ainda mais quando 
vi Jesse levantar uma das mos e passar os dedos pelos cabelos, e vi que eles estavam tremendo. Os dedos, quero dizer. Por que os dedos dele estariam tremendo assim? 
- Como eu poderia ficar? - perguntou Jesse. - O padre Dominic estava certo. Voc precisa estar com algum que sua famlia e seus amigos possam ver. Precisa de algum 
com quem voc possa envelhecer. Precisa de algum vivo.
De repente tudo estava comeando a fazer sentido. Aquelas semanas de silncio incmodo entre ns. O distanciamento de Jesse. No era porque ele no me amasse. No 
era porque no me amasse, de jeito nenhum.
Balancei a cabea. Meu sangue, que eu tinha comeado a suspeitar de que havia se congelado nas veias nos ltimos dias, pareceu subitamente correr de novo. Esperei 
no estar cometendo outro erro. Esperei que isso no fosse um sonho do qual acordaria logo. 
- Jesse - falei, bbada de felicidade. - Eu no me importo com nada disso. Aquele beijo... aquele beijo foi a melhor coisa que j me aconteceu.
Eu estava simplesmente declarando um fato. S isso. Um fato que eu tinha certeza de que ele j conhecia.
Mas acho que foi surpresa para ele, porque a prxima coisa que percebi foi que Jesse tinha me puxado para os seus braos e estava me beijando de novo. 
E foi como se o mundo que nas ltimas semanas tinha estado fora do eixo subitamente se ajeitasse. Eu estava nos braos de Jesse e ele estava me beijando e tudo estava 
bem. Mais do que bem. Tudo estava perfeito. Porque ele me amava. 
E sim, certo, talvez isso significasse que ele precisava se mudar de casa... e sim, havia toda a coisa do Paul. Eu ainda no tinha certeza do que faria a respeito. 
Mas qual era a importncia de tudo isso? Ele me amava! E dessa vez, quando me beijou, ningum interrompeu.
